
As migalhas de ouro
“ide à cidade, à casa de um tal” (Mateus, 26,18)
Eu sou aquele que preparou a ceia do senhor, aquele que o acolheu com os discípulos, aquele que serviu a comida pascal. Primeiro, pela manhã, chegaram Pedro e João, e disse um deles: “O tempo do mestre está próximo. Isso ele mandou dizer”. E completou: “Vimos preparar a ceia em vossa casa, porque essa é a vontade dele”.
Conduzi-os então à parte superior da casa onde lhes mostrei a grande sala branca, mobiliada com coxins e com a mesa retangular com tampo de grande grossura. Disse-lhes: “Eis a sala e eis a mesa onde será a ceia do senhor. Ide e dizei-lhe que na hora vespertina aqui estarão o pão e o vinho; e os alimentos serão servidos sobre toalha de linho branco. Porque sendo essa a sua vontade é também a minha vontade e o meu prazer de servir”.
Antes de sair, um dos dois, que era um dos Doze perguntou: “Quem sóis vós? Respondi: “Eu sou aquele que servirá a ceia do senhor, o que estará presente e será omitido, cujo nome jamais será sabido, mas que terá olhos para ver e ouvidos para ouvir e, em mudez e quietude, testemunhará, porque será o décimo quarto participante.”
Ouvindo essas palavras eles se foram em silêncio.
Caindo a tarde, vieram todos e abri-lhes a porta e os conduzi ao andar superior onde entraram na sala mobiliada e pronta. E pôs-se Jesus à mesa com os doze discípulos. E se assentou ele ao meio dela, e não na cabeceira; e, de cada lado dele, à direita e à esquerda, eram três daqueles seus discípulos, e os seis restantes, pelo lado contrário, de maneira a ficarem os doze em dianteira uns dos outros, permanecendo vazios os flancos da mesa. Após orar em silêncio, disse-me Jesus: “Seja servida a ceia”.
E eu os servi a cada um em seu lugar. E junto deles, ao lado de suas destras, havia pão e vinho; mas eles não os tocaram.
Durante a refeição, Jesus tomou do pão ao seu lado, benzeu-o e o partiu em doze porções que distribuiu aos discípulos dizendo: “Tomai e comei isto é o meu corpo.” Pegou depois o cálice, onde derramei o vinho, deu graças, e o fez correr entre os discípulos, dizendo: “Bebei dele porque isto é o meu sangue.”
Tendo eles assim provado do pão e do vinho, dirigiu-se Jesus a mim, de pé, próximo à mesa, e, separando uma hóstia de pão e um pouco de vinho, deu-me com estas palavras: “Comei e bebei; sóis presente entre nós e tende vez à comunhão”. E tendo eu feito como ele ordenara, vi quando tomou do pão e do vinho, e ele próprio os levou à boca, primeiro o pão, depois o vinho.
Em seguida, havendo me pedido uma bacia cheia d’ água e uma toalha, com ela cingiu o corpo após depor as vestes. E a cada discípulo lavou os pés com a água da bacia enxugando-os com a toalha com que estava cingido. E assim tendo feito a todos o fez também a mim. E disse depois de nos lavar os pés: “Vós estais puros, mas nem todos,” referindo-se ao Iscariotes. E acrescentou solene, embora tranqüilo, lançando, todavia, inquietação entre os discípulos: “Em verdade vos digo que um de vós me há de trair”.
Ouvindo estas palavras, perguntaram-se todos, entreolhando-se e entreolhando-me: “Porventura será quem?” Respondeu-lhes Jesus: “Aquele que pôs comigo a mão no prato”. E vimos que, assentado em frente ao mestre, a mão de Judas tocava a de Jesus no prato entre ambos.
Tendo assim revelada a sua perfídia, ergueu-se o filho de Simão Iscariotes, e levando a bolsa presa à cinta, tomou o rumo da escada. Estando trancada a porta da casa, eu o segui para abri-la. À saída, ouvi-lhe as palavras: “Habitará em mim a traição porque assim será preciso. Serei o figo da figueira, o instrumento das profecias. O caminho da crucificação e da ressurreição passa pelo meu corpo e será a danação da minha alma”. A seguir, retirou-se.
Quando tornei à sala, já todos estavam de pé e se aprontavam para sair. Seguido dos discípulos, disse-me Jesus: “Bendito sois vós que me recebestes em vossa casa e nela me oferecestes a ceia da Páscoa. Rogo ao pai que vos fortifiqueis por este ato”. E se foi e se foram.
No dia seguinte, entre a hora sexta e a nona, abateram-se as trevas sobre a terra. Uma mulher vendo-me sair de casa nessa súbita obscuridade e sabendo que eu havia recebido Jesus, gritou: “Aquele hospedou o rei dos Judeus, deu-lhe de comer e de beber.”
Logo uma pequena multidão se pôs em fúria e com tochas atearam fogo à casa que ardeu o tempo das trevas daquele dia.
Quando o fogo baixou e esfriaram as cinzas, os que puderam ver viram e maravilharam-se: da casa ardida restavam intactas a mesa e os coxins, e luziam como ouro as migalhas do pão partido sobre o tampo da mesa. E os que viram isso, acreditaram que ali tinha estado o filho de Deus.
(Publicado na Revista Letra, ano IV, 1984, Vitória-ES).
Luiz Guilherme Santos Neves (Vitória, ES, 24/9/1933). Professor, historiador, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e do Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo. Publicou, como ficcionista, entre outras obras, os romances A nau decapitada (1982), As chamas na missa (1986), O templo e a forca (2000), O capitão do fim (2002), Torre do Delírio (contos, 1992), Escrivão da Frota (crônicas, 1997) Crônicas da Insólita Fortuna (crônicas históricas, 1998), Memória das Cinzas – Encontro Póstumo com Fernão Ferreiro (2009). Na literatura infantil: História de Barbagato (1996); Eu estava na armada de Cabral (2004); Eu estava no começo do Brasil (2006). É autor de várias obras didáticas e de pesquisa histórica, muitas delas em parceria com Renato Pacheco e outros, entre as quais Espírito Santo: Impressões (1991), Espírito Santo, Brasil (1994), Índice do folclore capixaba (1994), Dos comes e bebes do Espírito Santo (1997), Vila Velha da Senhora da Penha (1997), Mão e obra: O artesanato do Espírito Santo (2001) e Mar de âncoras: o comércio exterior do Espírito Santo (2003), além de cinco obras para o Projeto Memória Viva, da Prefeitura de Vitória. Na área do folclore publicou Breviário do Folclore Capixaba (2009) e participou da equipe que produziu o Atlas do Folclore Capixaba (2010)
sexta-feira, 19 de março de 2010
Luiz Guilherme Santos Neves
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Jorge Elias
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domingo, 14 de março de 2010
Dia da poesia e dos poetas
Aos poetas e leitores, minha homenagem nesse 14 de março.
Juntem os olhos da criança,à flor da quaresmeira.
Juntem as páginas que me dei às suas páginas,
e voem em paz.
Um abraço para todos
Ilha de Vitória
Foto: Gabriel Targueta
Qual Poema
Não seria um poema épico
que completaria a farsa humana.
Muito menos um dístico romântico,
falso artifício lunático de um sonhador.
Quem sabe o áspero concreto,
menos homem e mais objeto...?
Talvez o moderno José
pudesse garimpar em cada um
a fortuita questão do porquê...
Não seriam flores, amores,
não seriam ilusões e esperanças.
Nem a bossa, nem a farofa
nem mesmo urubus e girassóis.
Santa Maria Egipcíaca teria lido nos olhos duros do barqueiro
a síntese do que poderia ser dito?
Seria em haikais ou trovas
que encontraríamos o que vem após os dois pontos?...
Estaria na poeira sertaneja dos cordéis
o ferir fatal da peixeira que cortaria o fio da palavra?
Não, penso que na imagem dentro de cada um esteja o poema definitivo,
que jamais poderá ser escrito.
( Verdes versos - 2007)
Sobre o que se espera...
Do Poema
Tudo se espera do poema.
Que seja o contraponto da realidade,
o remanso para o repouso do herege,
o inferno permitido para as paixões contidas.
No poema, o que se procura é o ar diferente
que se vai buscar no expirar delirante de um poeta.
Como se o poeta fosse só delírio...
O poema se fez da vida do poeta;
é ele que o espera.
Do Poeta
Nada mais que a diferença.
O ser quase divino que veio ao mundo
tocado pelos deuses.
O que não se percebe, ou pelo menos não
se quer perceber, é que ele só foi tocado pela
[contradição humana.
Para quem muito espera do poeta-homem, vale o conselho:
atenha-se apenas aos seus versos.
Ele é apenas o exemplo típico
da máxima de Nietzsche:
“A arte existe para que o homem não morra da verdade”.
Do encontro entre o Poeta e o Poema
Que da simplicidade do artesão
resulte a palavra-arte.
E esta deixe para trás o homem
e siga sua trilha para a eternidade.
(Verdes versos - 2007)
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Jorge Elias
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9:52 AM
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quarta-feira, 10 de março de 2010
Jorge Luis Borges

Cristo na cruz
Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.
As três vigas são de igual altura.
Cristo não está no meio. Ê o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das lâminas.
È áspero e judeu. Não o vejo
e o seguirei buscando até o dia
último de meus passos pela terra.
O homem violado sofre e cala.
A coroa de espinhos o lastima.
Não o alcança o escárnio da plebe
que viu sua agonia tantas vezes.
A sua ou a de outro. Dá no mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
pensa no reino que talvez o espera,
pensa em uma mulher que não foi sua.
Não lhe é dado ver a teologia,
a indecifrável Trindade, os gnósticos,
as catedrais, a navalha de Occam,
a púrpura, a mitra, a liturgia,
a conversão de Guthrum pela espada,
a Inquisição, o "sangue dos mártires,
as atrozes Cruzadas, Joana D'Arc,
o Vaticano que bendiz exércitos.
Sabe que não é um deus e que é um homem
que morre com o dia. Não lhe importa.
Lhe importa o duro ferro dos cravos.
Não é um romano. Não é um grego. Geme.
Nos deixou esplêndidas metáforas
e uma doutrina do perdão que pode
anular o passado. (Essa sentença
foi escrita por um irlandês em um cárcere.)
A alma busca o fim, com urgência.
Escureceu um pouco. Já morreu.
Anda uma mosca pela carne quieta.
Que pode me servir que aquele homem
tenha sofrido, se eu sofro agora?
Kyoto, 1984
in: "Os Conjurados" - 1985
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Jorge Elias
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quinta-feira, 4 de março de 2010
Dia da mulher

Preto e branco
Para Lourdes, a primeira mulher da minha vida
No tempo de meu eu-menino
(um dentre os vários eus que se vêem acumulando
nessa agenda de horas incompreendidas),
me perguntaram se eu achava minha mãe bonita.
Eu a fitei de longe
(com aqueles olhos que ficaram no ontem),
e respondi, com a convicção de minha maior verdade:
– Minha mãe é linda!
(Verdes versos - 2007)
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Jorge Elias
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domingo, 28 de fevereiro de 2010
Fernando Pessoa

Cristo é uma forma da emoção.
No panteão há lugar para os deuses que se excluem uns aos outros, e todos têm assento e regência. Cada um pode ser tudo, porque aqui não há limites, nem até lógicos, e gozamos, no convívio de vários eternos, da coexistência de diferentes infinitos e de diversas eternidades.
(Fernando Pessoa in Livro do desassossego - COmpanhia das letras
Pág - 265)
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Jorge Elias
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2:28 PM
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Paulo Sodré

Foto:Fernando Maués
De
Poemas de pó, poalha e poeira
(2009)
O que se adivinha tanto pelas mãos
1.
Poema não medra
em terrenos propícios.
Daninho, alastra-se
palavra afora,
ilegal, ilícito, liberto.
Poema não pede
licença, permissão:
dá-se, inunda, invade.
Silencioso, espalha-se,
versos às tontas, à toa,
gentil, receoso ou maltês.
2.
Não que o poema
seja tolo e tosco
a romper portas,
arrogante como o tempo.
Não.
Cheiro fresco de murta,
aragem, imiscui-se ele nas frestas
que o encantamento
franqueia, abre, permite.
(Sim)
Um poema adentra,
onde o encanto, fluido,
autoriza janelas e fendas.
3.
Onde suas mãos:
a esguia clareza.
Quando suas mãos:
as claras linhas.
Como suas mãos:
o alinho de seda.
Porque suas mãos:
o sedoso terreno.
Dado o encanto,
faz-se dele janela,
por onde, aos poucos,
medra o destemor
de dez poemas.
4.
Das mãos
(as minhas)
longe
e quietas
as suas.
Da vontade
(a minha)
distante
e calada
a sua.
Olho-as
(as suas,
as minhas),
e a hora
ancora
em porto
sem nome,
sem dono.
O mar
(ou a piscina)
sem viagem.
Uma passagem?
5.
Suas mãos,
sim, desenho
de lúcidas linhas.
Suas mãos,
tanto som
de seda, sim.
Suas mãos,
sim, augúrio
de tépidas manhãs.
Seu corpo,
sim...
6.
Não retiro
de suas mãos
os óculos.
Receio olhar
a clara linha
da nuca;
o rijo contorno
dos ombros,
a mata macia
do peito,
a ágil musculatura
das pernas,
o fino esculpir
dos pés.
Receio adivinhar
cheiro de líbanos
em sua terra tão alva.
Suas mãos:
continuo.
7.
O que fazer com os dedos
na sombra do improvável?
O que dizer às palavras
na contramão da prudência?
O que riscar nos encontros,
o que morder nos frutos,
o que deitar nos lençóis
guardados para suas mãos?
Dedos, palavras, figos:
o arrepio rodopia
pela ciranda de lembrar
as mãos,
lindas,
as suas.
8.
No oitavo poema,
sobre suas mãos,
os anéis.
De nuvem, de água,
de acácia, de novembro.
Um instante de anel:
peixe mínimo
em tanta água
tão aguardada.
Por um instante,
um anel.
9.
Penúltimo poema:
Já mil sílabas
para dez dedos
de suas mãos.
Botticelli lhe daria
formas nítidas,
em desenho de Líbano,
máscula planície.
Plebeu dou-lhe
as sílabas tontas,
adivinhando, em neblina,
o vinho de seus dedos.
10.
Tocar cada canto
de suas mãos,
buscando nêspera
ou dia de festa.
Cada canto
das linhas;
cada sumo
de nêspera;
cada hora
de festa
e contentar
de digitais e gestos,
ao menos,
o poema.
Paulo Roberto Sodré (Vitória/ES, 1962), é poeta: Interiores (1984), Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite (1989), Dos olhos, das mãos, dos dentes (1992), De Ulisses a Telêmacos (1998), Senhor Branco ou o indesejado das gentes (2006), Poemas de pó, poalha e poeira (2009), e ensaísta: Um trovador na berlinda: as cantigas de amigo de Nuno Fernandes Torneol (1998) e Cantigas de madre galego-portuguesas: estudo de xéneros das cantigas líricas (2008). Atua como professor de Literatura Portuguesa no Departamento de Línguas e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo desde 1989. Vive em Vitória.
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Jorge Elias
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Ao poema
Foto:Jorge Elias
Parte-se do esquecimento.
Caminha-se para o esquecimento.
Disso dou testemunho.
Tamanha consciência da morte vindoura
nomeia encantamentos
em cada trecho de aurora.
E, se, em algum momento,
falta ao punho o sustento,
recolho-me ao verso que apoia.
Eis a dura lida que ao poeta condena.
Mas apesar do tormento da finitude certa,
tem o poema – pulsão de vida –, rumo ao esquecimento.
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Jorge Elias
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Chico Lopes

Camus cai, e nós aprendemos
“Caminho sozinho noites inteiras e sonho, ou falo sozinho interminavelmente”, diz um certo Jean-Baptiste Clamance, advogado decaído, bebum de um boteco desclassificado de Amsterdam chamado México-City, a um interlocutor que o leitor nunca saberá quem é.
Primeiro grande achado de um romance curto, melhor dizendo, uma novela, que é, na verdade, a meu ver, o melhor de todos os (poucos) livros que Albert Camus escreveu. Estamos diante de um daqueles tipos da noite, dos bares que tardam em fechar e acolhem insones e estropiados, no anonimato de cidades para as quais calor humano é luxo ou frescura.
São tipos que o leitor deve conhecer – sujeitos que falam demais, que querem ser ouvidos, que se agarram ao colarinho do primeiro ouvinte em potencial que lhes apareça e não desgrudam mais, porque o desespero (que lhes aumenta a profundidade e a chatice) é completo, e nem importa que sua vítima (ou ouvinte) concorde, discorde, ouça. A técnica utilizada por Camus é esse diálogo com um desconhecido que torna o livro um longo monólogo, um fluxo ininterrupto de confissões tão viscerais quanto cínicas, colocando o leitor no epicentro do interesse: ao abrir o livro, sem divisões de capítulos por números ou títulos, os intervalos dados por espaços em branco, o leitor já entrou no universo de Clamance, que se intitula “juiz-penitente”, já foi agarrado no colarinho por ele, e será obrigado a ouvir, ou melhor, a ler.
A solidariedade impossível
É o livro mais enigmático de Camus, na verdade. Faz tempo que ele saiu da moda, embora relembrado aqui e ali por algum admirador. Os que irão conhecê-lo agora, certamente serão levados aos inevitáveis “O estrangeiro” e “A peste” ou aos volumes filosóficos de “O mito de Sísifo” e “O homem revoltado”.
Tudo bem, Camus estará lá. São bons livros, embora alguns tenham envelhecido bastante, por seus temas tópicos, e haja um certo tom presunçoso e retórico no argelino, o que torna seus personagens pouco críveis.
Camus tinha, sem dúvida, essa auto-consciência do escritor que não desgruda de seu mito, que deve muito à sua persona. Susan Sontag dizia que ele carregava consigo um “pedestal portátil”. O que quer ele fizesse, parecia merecer registro, teria que ter algo de solene, pomposo e filosoficamente relevante, como se ele não fosse caso comum, nunca. Sempre a consciência elevada, nunca a sordidez, a pequenez sem desculpa e sem remédio, esta de que somos realmente feitos.
“A queda”, pelo cinismo, pela radicalidade, porque não se esforça por agradar, é muito superior aos outros livros.
E não é um livro agradável. Cai-se nele como num mundo que já está cristalizado, do qual participamos como “voyeurs” impotentes, fascinados, indignados, querendo não aceitar o que Clamance diz.
O “juiz-penitente” pode ser definido como um guru às avessas: chama a nossa atenção para o irremediável, diverte-se lugubremente com a sua decadência e lança, com prazer sádico e “penitente”, suspeitas as mais odientas sobre a condição humana – com as quais, repugnados, acabamos concordando. Ele é um pouco como “o homem do subterrâneo” de Dostoievski, mas agravado por um século que viu o humanismo desaparecer sob o brado heideggeriano de “o Pior já aconteceu”.
Clamance é simplesmente o hedonista comum, o egoísta, o prepotente, o corrupto e cínico que há em todos nós (ou não haveria tanta corrupção e cinismo no mundo). Todos nós com facilidade nos erguemos em juízes da moral, somos peritos em detectar a podridão do mundo, fácil de ver porque é afinal tão exterior; todos nós nos sentimos sublimes, vivemos e morremos como cúmplices, mas nos queremos omissos, nos desculpamos com facilidade, não tínhamos nada com isso, as intenções eram as melhores etc. Em suma, jamais compreendemos o quanto colaboramos para que o mundo seja sórdido.
Prestar atenção a esse partido tão querido por nós, de esquerda, que desabou há um bom tempo e em geral nunca quis admitir e seguirá não admitindo sua corrupção. Uma corrupção especial, daquelas de pessoas que se acham automaticamente santificadas por estarem ao lado dos oprimidos, das boas causas, da superioridade moral, e exatamente por essa auto-complacência condescendem com o mal, achando que, ao praticá-lo, um santo está desculpado a priori; são sempre os mesmos santos automáticos que acham que purificam, com sua presença, o ar e a índole de um bordel. Nunca agem errado e se espantam quando alguém lhes diz que estão cercados da pior incredulidade, por tudo que fazem. Há uma candura fantástica na sua inconseqüência, na sua cegueira. A crença de sua superioridade moral os tornou esses monstrengos acomodados numa providencial ignorância de tudo que se autorizam a fazer.
Clamance é um hipócrita. Até uma certa altura, ele estava convencido de agir humanitariamente, de ser um sujeito até exemplar, bem-sucedido com as mulheres, com veia filantrópica, intelectualmente brilhante, profissionalmente admirado, fisicamente bem-dotado etc. – em suma, um homem de sucesso. Ele se vangloria desse humanitarismo, inclusive, de ajudar viúvas, de amparar cegos para atravessar a rua.
Um dia, um incidente curioso lhe deu a consciência exata de sua pequenez e do mal-estar desse mundo em que se sente à vontade: passando por uma ponte, viu uma mulher, cuja intenção era óbvia, mas ele a ignorou, até ouvir um grito – um pedido de socorro? – quando já ia bem longe. Não se voltou para salvá-la: a noite estava fria e ele não queria se molhar.
A partir daí, cai. Sua queda é a queda de uma consciência falsa numa contingência verdadeira: o absurdo, o horror do mundo, com os quais estamos muito mais mancomunados do que pensamos. O livro todo é compreensível como o longo desabafo de um omisso que de modo algum consegue escapar à consciência de sua culpa e da culpa do mundo todo, afundando-se numa auto-degradação lúcida, que só faz corroborar tudo que de horrível pensa de si mesmo e dos homens.
Mesmo os melhores homens que conhecemos podem, por insídias do narcisismo – que é nosso verdadeiro pecado mortal – não serem mais que pilares da opressão, da indiferença e da crueldade que nos cercam. “A queda” põe dedo em brasa na ferida que os ilustres, os admirados, os muito louvados – mesmo aqueles que parecem mais humildes e despojados – detestam admitir em si mesmos.
Revela em Camus uma coragem incomum. Num personagem como Rieux, o médico de “A peste”, cheio de ótimas intenções, de auto-complacências e atenuantes, apaixonado por seu papel de consciência única de uma comunidade afetada pela epidemia, enxerga-se essa vaidade e o pendor pela retórica, pelas grandes frases, e tínhamos ali um óbvio alter-ego do escritor argelino.
Digamos que “A queda” é superior porque nele Camus obriga Rieux a passar por essa ponte onde a mulher grita e não é ouvida. Pode ser triste, mas é muito mais verossímil. Há pouco heroísmo em nosso mundo, e santos, nenhum. O gesto que Clamance não fez é o gesto que nunca fazemos por ninguém. E não há desculpa para o que nunca fizemos. A única lucidez consiste em lamentar, em não mentir para nós mesmos – e para o mundo – que somos determinada efígie muito querida. Essa efígie pode se erguer muito alto, mas está impregnada de terra e excremento. É só não se iludir mais. E produzir livros à altura dessa desilusão, a única que pode atestar um resto de dignidade no homem do nosso tempo.
Livro obrigatório. Continuará interessando quando os outros Camus nem mais forem lembrados.
(texto originalmente publicado no site literário CRONÓPIOS em 4/12/2005 – Reproduzido com autorização do autor)
NOTA BIOGRÁFICA
Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. É programador e apresentador do Cinevideoclube do Instituto Moreira Salles (Casa da Cultura) de Poços de Caldas, MG. Publicou dois livros de contos de sua autoria – “Nó de sombras” (2000) e “Dobras da noite” (2004), prefaciados por Ignácio de L. Brandão e Nelson de Oliveira. Teve contos publicados em revistas como a Cult de São Paulo e jornais como o Rascunho, de Curitiba. Um conto seu está na antologia “Cenas da favela”, organizada para a Ediouro/Geração Editorial por Nelson de Oliveira em 2007. Fez traduções de Henry James (“A volta do parafuso”) e outras para a Ediouro e Rocco (Gregory Maguire, Charlaine Harris, Max Allan Collins e Michael Scott). Escreve sobre livros e filmes, crônicas, resenhas e ensaios, nos sites Germina, Conexão Maringá, Meio Tom, Verbo 21 e Verdes Trigos. Tem inéditos livros de contos, novelas, ensaios, poesia e memória.
Textos do autor no CRONÓPIOS: http://www.cronopios.com.br/site/pesquisa.asp
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Jorge Elias
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Balada da carne

Já que o dia é par: falemos de amor.
Já que à frente sempre restará o horizonte:
não me enterrarei além dos olhos.
Já que é no vazio insalubre da cura
que se percebe a alma evanescendo:
tragam-me uma taça.
Já que eu disse sim:
limitem os convidados
presentes à minha embriaguez.
Já que a palavra é uma puta:
rasguem o poema.
Já que a rima é farta e o poeta um estorvo:
que se recompense o primeiro idiota
a me cortar a carne.
(do livro Rascunhos do absurdo )
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Jorge Elias
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
José Paulo Paes

ÁLIBI
Se os poetas não cantassem
O que teriam os filósofos a explicar?
PISA: A TORRE
Em vão te inclinas pedagogicamente
O mundo jamais compreenderá a obliqüidade dos bêbados
Ou o mergulho dos suicidas
SÍSIFO
Hoje agora me decido
Depois amanhã hesito
O dia detém meu passo
A noite cala meu grito
Deuses onde ? céu existe?
Céu existe? Deuses onde?
Um eco que faz perguntas
Um espelho que responde
E eu sísifo tardotriste
A tilintar as correntes
De dilemas renitentes
Lá me vou sem vez nem voz
Rolar a pedra dos mudos
Pela montanha dos sós
LIÇÃO DE COISAS
Uma nêspera branca!
Transtornou-se acaso a ordem do universo?
Mordo-lhe a polpa: o mesmo
Gosto das nêsperas amarelas.
Tudo é superfície.
José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga, interior de São Paulo, em 1926, e morreu na capital do estado em 1998. Publicou mais de dez livros de poesia.
Destacou-se também com ensaísta e tradutor.
Um verdadeiro mestre do epigrama.
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Jorge Elias
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Ensino básico

Recostado à tempestade
o menino fiava o tempo.
Um estrondo
fez esquecer as vozes
que atravessavam os arbustos
e o duende com suas figuras repetidas
pronto para parir o anti-cristo.
(Não é perversão,
mas o arame tem um toque tão suave
que desperta).
Defronte de casa,
a enxurrada enchia a taça dos desencantados.
O Mastro seco da sibipiruna
escondia suas flores
que boiavam sobre as nuvens baixas...
E com a torrente
chegavam pensamentos...
Ensinaram-no:
– A pretensão
de dispensar o molde
esfacela a possibilidade de êxito.
(Pancada à pancada
se amaciam os músculos).
– Os rabiscos nas carteiras
ficarão guardados
até que apodreça a madeira.
Depois...
Esquecerás o lápis no apontador.
...
- Não me esconderei no limite da palavra.
(e um grito rouco foi o batedor).
- Prevaleça perante
os olhos malditos
o descabimento dos meus gestos.
Jorge Elias Neto
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Jorge Elias
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Gustavo Felicíssimo

CANTO DE ORFEU
Teu corpo delgado
possui formas feitas
para as minhas mãos.
E por ser assim
o vento traz de longe o teu cheiro,
nas nuvens o teu rosto esculpido.
É sempre assim,
desde que não estamos juntos
meus sentidos saltam
pelas janelas,
antecipam-se à minha chegada.
É sempre assim
e isso não há de mudar,
pois entre um verso e outro,
afazeres e bancos de praça,
brilha no meu horizonte
a estrela da tua imagem.
Há esse brilho
e um campo de orquídeas
que te exaltam
e te observam quando passas,
porque passas tão linda,
tão bela quanto a lua.
Ai, minha amada,
olha bem nos olhos meus,
olha e verás rastros
e riscos de fogo.
Contra a fúria das águas me lancei,
ao inferno mil vezes voltei
sem luz, sem remo ou âncora
por ouvir a voz da fantasia
e a lira que se encantou por tua face.
Toma meu braço
e a majestade do verso,
eis tudo que te ofereço;
restituiremos à serpente o seu veneno
e a magia da poesia aos que não amam.
CANTO DE EURÍDICE
Senta e escuta o orvalho no vale
e o verde do campo
enquanto contemplo a tua carne vertiginosa
e te falo sobre a vida
onde apenas os mortos sobrevivem.
Os sonhos, meu amado,
me faziam companhia durante o crepúsculo
e neles te encontrava,
o teu canto escutava,
mas te alcançar já não podia.
Pedi aos deuses que viesses em hora mágica,
quando a luz se avizinhasse
e me prendesse nos teus abraços,
que me lembrasse dos teus passos
e o sabor dulcíssimo do beijo.
Ofereci-me em sacrifício,
despi-me das fontes, das nascentes
e passei a mendigar pelos caminhos;
coroada de espinhos
vi a existência caindo sobre os pântanos.
Atirei-me ao fogo
e além do fogo nada mais conheci;
resisti à dor e a tudo que há de vil,
desejei adormecer
e adormecer também não pude.
Aceitei os desígnios divinos
e feito um pégaso preso ao arado,
entre as cinzas ardendo,
luzi meu próprio sofrimento;
recolhi-me ao tormento, insignificante.
Silenciei-me na insana luta
e frágil feito a flor do jasmineiro,
sôfrega, esperei por tua chegada
como se espera um deus
junto à tarde imaculada das madressilvas.
EPIFANIA NO INFERNO
Sentença, marcha e aflição de Orfeu
(A palavra de Hades)
Comoveu-me o seu gesto,
fragilíssimo Orfeu.
O amor, enfim, pelo amor
enfrentou a fúria dos demônios.
Atravessou o Lete
e chegou à morada dos mortos.
Por isso nenhum sacrifício peço,
apenas que se vá sem vacilar.
Seus olhos os olhos da amada
não deverão encontrar.
O caminho é longo
e a voz em silêncio permanecerá.
(A saída do Tártaro)
Orfeu empunha a Lira,
não possui arma, espada ou escudo.
O coração vacila, oprime o peito,
empreende ao fim a inevitável marcha.
Eurídice o segue em fluentes passos,
não hesita.
Olhos em aflição, pálpebras em brasa,
os amantes rasgam a escuridão.
Demônios instigam de parte a parte
e a inquietação se torna mais intensa.
Fatigados seguem pela estreita via
que aos corações consola ou pune.
(Consciência de Orfeu)
Ah, quanto desgosto Orfeu,
quanta culpa carrega!
Entregue agora à vida sem pejo,
demonstra afeição pelo Calais!
Agora grita exaltado, Orfeu,
pois é tua toda a culpa, toda expiação!
Bem vindo ao templo dos homens,
o templo da carne, do sangue, da agonia!
Pois quem perde a quem ama por descuido
suspira e chora e resigna. Grita!
Não mais a Lira, não mais a poesia.
Grita, Orfeu, findou a fantasia!
Gustavo Felicíssimo, 1971, é natural de Marília, interior de São Paulo, radicando-se na Bahia a partir de 1993. Vive desde janeiro de 2007 entre Itabuna e Ilhéus.
Poeta e ensaísta, tem extensa participação na imprensa baiana e sites brasileiros especializados em literatura. Publicou “Diálogos – Panorama da nova poesia grapiúna, 2009, Editus/Via Litterarum.
Fundou, juntamente com outros escritores, o tablóide literário SOPA, em Salvador, do qual foi seu editor. Atua como preparador de textos para editoras e poetas, tendo colaborado para a publicação dos livros: “Firmino Rocha: poemas escolhidos e inéditos”, Via Litterarum, 2008; “Plínio de Almeida, obra reunida”, Editus, 2009, e “Rascunhos do absurdo”, de Jorge Elias Neto, no prelo.
Edita o blog Sopa de Poesia, onde publica poemas e ensaios, cujo endereço virtual é: www.sopadepoesia.blogspot.com
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Em tons de verde: os versos do poeta
Recebí esta resenha de meu livro "Verdes versos" da professora Shirlene Rohr de Souza•. Deixo aquí registrado para compartilhar com meus amigos.
Shirlene me informou que acaba de finalizar um ensaio sobre "Verdes versos" que será publicado em uma coletânea. Segue abaixo o texto.
Em tons de verde: os versos do poeta
Shirlene Rohr de Souza•
O homem vive eternos dilemas que oscilam entre suas vontades e necessidades particulares e as questões sociais que urgem à sua volta e exigem respostas rápidas, convincentes e politicamente corretas. No limiar de suas angústias, muita coisa pode soar estranha aos desejos mais íntimos da alma humana. Estas contradições que habitam o espírito do homem encontram expressão nos versos dos poetas que ora erguem o olhar para as questões mundanas e mais gerais, ora se inclinam para suas lembranças e desejos.
Em tempos cinzentos, em que a questão ambiental tornou-se premente, enquanto as celebridades discutem o destino do Planeta, fecham acordos (improváveis) unilaterais e estabelecem metas que visam limitar as agressões à natureza, as vozes inquietas dos poetas se lançam, mesmo sem convite, neste grande debate que inclui o destino do homem. O debate na esfera da poesia é menos prático, certamente, mas não menos intenso, não menos pulsante.
Em 1939, Paul Valéry, afirmava em uma conferência que “se encontrarmos profundidade em um poeta, essa profundidade parece ter uma natureza completamente diferente da de um filósofo ou de um sábio” . A crer no poeta e ensaísta, as questões que insistem nas temáticas dos poetas são paradoxais, é certo, mas também, e estranhamente, são uma só. Elas vertem de uma forma de pensar que não precisa levar em consideração as teses científicas e nem a lógica do pensamento filosófico. A poesia se manifesta pelas palavras dispostas em ordens singulares que atravessam o espírito do leitor, exigindo reflexão, não compreensão; os versos são a porta de entrada para um ambiente secreto, difuso, um lugar cujo conteúdo constitui-se de formas estranhas e inexatas do pensamento, isto que é tão humano.
O ver do verso, em verdes tons
Verdes Versos, de Jorge Elias, é uma obra que surge em um contexto complexo e conturbado, tempo em que o verde ─ “nada menos humano, menos carnal que o verde” ─ é o tom mais aclamado, pois de seu destino depende o futuro da vida. A obra reflete a realidade confusa e repleta dos paradoxos humanos: preocupações, lembranças, cotidiano, humor, amarguras, intimidades, comunhão, vida e morte.
Para dizer dos poemas que compõem os Verdes Versos, é preciso fazer uma leitura mais atenta da obra, em busca das cores, dos sons, dos gestos, dos lugares, das personas que transitam e interagem nas páginas do livro. O próprio título já remete o leitor para uma série de possibilidades de interpretação que ora pesam sobre a palavra “verdes”, ora pesam sobre a palavra “versos”. As múltiplas possibilidades de leitura já demonstram que o terreno em que se pisa é o terreno movediço da polissemia, tão cara ao discurso literário.
O livro ─ organizado em secções intituladas Versos Verdes (2000-2004), Viajante Lunar (2005), Vegetariano (2006) e Querença (2007) ─ traz gradações de tons esverdeados, em nuanças que atestam um amadurecer das palavras, da profusão à concisão, da sintaxe articulada ao jogo substancial de certas palavras, de certos versos. A tensão entre viver e morrer, lembrar e esquecer, razão e paixão, olhar e participar é uma marca muito singular no discurso do poeta. É preciso, pois, buscar nos poemas estas questões que percorrem o livro, desde onde o tom verde é mais fechado até o ponto em que começa a ganhar um matiz que se aproxima de um tom amarelado, momento em que o pensar o verso ganha mais em substância, palavra concentrada. Seguindo o critério do próprio poeta, pode-se fazer arriscados comentários sobre cada uma das partes que comportam os poemas.
Versos Verdes reúne catorze poemas, escritos no período compreendido entre 2000 e 2004. Entre temáticas que enfatizam reminiscências, passagem do tempo e morte, destaca-se a palavra ‘existência’, que atravessa os versos e impõe-se como uma nota melancólica, centrada, consciente do ‘fim absoluto’. Dos poemas reunidos nesta fase, “Olhares” sugere a atividade de alguém que lida com o limiar entre a vida e a morte: “tive de narrar, tantas vezes / a morte e a insolitude humana”. Em “Bípede” há a constatação do poeta de que os elementos minerais e animais se equacionam como matérias mundanas. “Guananira” é uma doce homenagem ao refúgio do poeta no Planeta, em que o verde corre risco de se acinzentar.
Os poemas de 2005 estão reunidos em Viajante Lunar. Nesta parte, destacam-se as recordações, o passado, a memória. Mais uma vez, a morte se insinua na linguagem do poeta. Os versos se encadeiam em ritmo compassado, brando, mas pujante, e misturam-se com as noites, com os silêncios, com o passado. “Kioto” é a inquietação clara com o destino do Planeta; revela a preocupação do poeta com a teimosia dos homens. Contudo, é preciso pôr em evidência o poema “Verdade”, cujos versos vibram, vigorosos: “Destilo nos meus poemas meu veneno / Envelheço, e o que há de bruto/ é o que reconheço de bom”.
O mais carnal dos poemas, “Tela”, encontra-se em Vegetariano, que reúne os poemas de 2006. Os versos trazem temáticas muito diversas, das quais, ainda outra vez, o tempo, o fim absoluto, o verde-cinzento do mundo se revelam com força nnas palavras do poeta. Mas há uma curiosa reincidência na temática dos nomes, “Seu Jorge” e “Nomear poemas” ─ “o nome antecede o verso” ─, poemas nos quais a volta ao passado significa a volta do poeta para dentro do túnel de seus gens.
Em Querença, que reúne o maior número de poemas, escritos em 2007, há temas em volúpia, vida e morte: mendigo, velhice, epitáfios, cenas do cotidiano, chuva, funeral do amigo suicida. Nestes prados, há o “Ofertório” ─ “certas bocas / não vestem bem as palavras” ─, ou ainda um novo olhar para a imortalidade: “a minha imortalidade / se encerrará com a minha morte”. Mas entre verdes psicografados, reflexões sobre a velhice e a razão que se esvai nos anos, há “Decreto” um manifesto em nome do ócio, bem-viver, um convite à fruição do que é cotidiano e banal.
Verdes Versos é a obra inaugural de Jorge Elias Neto, poeta que, agora, deixa suas palavras e suas questões para leitor. Como diz o próprio poeta em “Olhares”, “não me fiz para ser entendido, / pois minha substância transformou-se em letras”. Do poeta, então, o que se espera? Ele se adianta e adverte: “Para quem muito espera do poeta-homem, / vale o conselho: / atenha-se apenas aos seus versos”. É verde para ler.
• Professora da Universidade do Estado de Mato Grosso.
VALÉRY, Paul. Poesia e pensamento abstrato. In: ______. Variedades. Tradução de Maiza Martins de Siqueira. São Paulo: Iluminuras, 1991, p.201.
Poema Verdes Versos II, p.58.
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domingo, 10 de janeiro de 2010
O intruso

Para que compartilhar a loucura? Tem-se que guardar em segredo a penúria dos instintos que nos avassalam a alma. A loucura transborda, atordoa, é inventiva demais.
Diriam que ela é suportável nas crianças e em alguns endemoniados perdidos nos acostamentos das autoestradas – sempre carregando nas costas suas sacolas cheias de coisas-nenhumas. Elas não aprenderam ainda a ser gente; eles desaprenderam a ser humanos ...
Mas, na manhã em que tive o espírito desperto, assim, obsequioso, fui entrando nas casas. E todos desviaram de mim o olhar.
Hoje, não mais embriagado pelas convicções que me moviam, pude ouvir dos poucos que me fitaram por um breve instante o seguinte relato:
Surgi lento diante dos portais das casas, quando os primeiros raios oblíquos da manhã não ousavam passar do peitoril das janelas. Essa ausência de luz no interior de suas moradias fez maior o impacto daquele que se anunciava.
Raios de sol escorriam-me pela face onde já adormecera o orvalho que trazia da madrugada fria. De súbito, toda a luz esfacelou-se em mil arco-íris.
Um olhar sem fio terra fez calar os poucos que ensaiaram dizer de sua objeção à minha presença, assim tão cedo e sem convite.
E, por ter deixado de acreditar na cautela do silêncio, fui derramando a língua sobre os móveis da sala onde todos os moradores, perplexos, se mantinham sentados. As palavras me enchiam a boca, e, se as tentasse calar, seria possível ver as protuberâncias que a fala contida criava ao serpentear em meu rosto. E, quando conseguiam vencer meu esforço – pois já começava a observar o quão inoportuno eu era àquela gente – , sentia-se o arrebatamento do grito arremessado.
Poderia continuar discorrendo sobre a imagem fantástica que aqueles indivíduos guardaram daquele dia, mas prefiro dizer que aquele não era eu.
Não nego aqui as intenções (inocentes intenções) que me impulsionaram porta adentro. Não, elas sempre foram autênticas. Refiro-me ao personagem descrito. Esse, sim, não era eu.
De tudo que falaram, talvez o que mais se aproximasse do real fosse meu rosto molhado com o suor que passou a escorrer profusamente, quando me ocorreu dividir com os homens minha parcela do descobrimento do mundo humano.
Custou-me entender que não se deve revirar as prateleiras domésticas, desmantelar os espaços, desarranjar a ordem estabelecida para a vida.
Mas também, que besteira!... Não se compartilha o fundilho rasgado para morder o rabo.
Nos últimos tempos, tenho ficado por aqui, zanzando onde posso ser ignorado. Como me restringiram o espaço para o olhar, mantenho meus olhos apontados para o chão.
Mas sou feliz, aprendi que para conquistar a liberdade, bastou chamar-me: “Ninguém”.
Jorge Elias Neto
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domingo, 3 de janeiro de 2010
1° de janeiro

Após o pão e circo,
sigo em busca da ciência de desinventar.
No vazio do salão amanhecido
ainda ressoam os ecos dos champanhes,
os alaridos esperançosos,
os sussurros de cumplicidade.
De sólido,
ficaram os confetes e serpentinas,
que nada entendem da solidão.
(Rascunhos do absurdo)
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
EPIFANIA ( breves palavras sobre o tempo)
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
O vai-e-vem da esperança

Ilustração "Morro de Vitória": Lorena Elias
A cidade cresce, se descaracteriza, fica cinza.
Os faróis dos carros só são belos nas fotos noturnas com longa exposição do diafragma – se disfarçam em fachos luminosos.
Os indivíduos não se apercebem, é massa disforme à espera do sinal verde que chega e parte sem que eles saiam do lugar.
Sou mais um, mas insisto em olhar em volta, pro lado, ser chamado de desatento, esbarrar nas calçadas. Não me arrependo.
E foi por ser assim que olhei para cima.
No morro, um mundaréu de casas, tão juntas como uma corda de caranguejos postos à venda nas calçadas – cinzas e sufocadas.
Fui olhando cada vez mais alto, e na iminência do azul, em uma imprevista descontinuidade entre as casas, eu vi balangando uma criança alada.
Ela estava lá, com seu balanço, alheia aos casuísmos, estatísticas, caos, fatalidades... Indo e vindo sobre as malfadadas casas.
Pêndulo de minha vida! Chuta pro alto, com seus pés meu desassosego!
Um beijo criança... Mil beijos! Estremece o Morro; seja o centro gravitacional de seu Universo; desmente nesse segundo as verdades do Absoluto!
Abriu o sinal...
Despeço-me da criança, pois tardar não posso (podia ser um pouco pior o trânsito em minha cidade).
Ao menos agora sei que naquele sinal existe a árvore com seu balanço. Sei que ali encontrarei, quem sabe outra vez, alguma criança a pincelar de verde um sinal de esperança para os que tentarem vislumbrar o céu.
* Para quem quiser ver o menino, é só parar no sinal de entrada da terceira ponte, na Avenida Desembargador Santos Neves, no sentido Praia do Canto – Centro, ao lado do posto da Shell. Bem no alto do morro está a arvore com seu balanço.
Para todos os amigos que desça, sobre todos, o olhar de nossas crianças.
Forte abraço nestes dias de festa,
Jorge
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
José Augusto Carvalho

PRESENTE DE NATAL
José Augusto Carvalho
Quando eu soube que Jesus nasceu em março, antes de Cristo, e que o dia 25 de dezembro foi fixado pela Igreja no ano 525 para cristianizar festas pagãs em homenagem ao deus Mitra, adorado em Roma, apesar de persa, senti que o Natal havia perdido para mim grande parte do que ainda tem de divino. Senti-me enganado não mais na minha fé, que já a havia perdido, mas na minha devoção a um líder carismático que tinha a pureza de um Gandhi ou de uma Madre Teresa de Calcutá e a santidade de um Dalai-Lama ou de um Francisco Cândido Xavier
O Natal teria virado uma farsa, não fosse o milagre das crianças que acreditam em Papai Noel. São elas que ainda dão ao Natal o espírito cristão que falta na maioria das religiões que cultuam Cristo.
Mudou o Natal e mudei eu – respondo à pergunta do soneto de Machado de Assis. Mudamos todos, mas seria bom que o Natal, mesmo com sua origem pagã, não mudasse nunca, que fosse sempre um Natal para a criança que temos dentro de nós. As crianças não estão interessadas apenas nos brinquedos de Papai Noel. As crianças vivem a magia do Natal que ainda tem, sequer para elas, aquela aura de religiosidade, de esperança e de fé.
Quando visitava o campo de concentração de Auschwitz, o Papa Bento XVI perguntou onde estava Deus, que permitira tudo aquilo. Embora tal pergunta não devesse ser formulada por um líder cristão, ela procede: onde estava Deus que permitiu sagrar-se Papa um inquisidor que calou a voz de um intelectual e sacerdote como Leonardo Boff?
Diz a Bíblia (Gen. 2: 2-3) que Deus fez o mundo em seis dias e no sétimo descansou. Não sei se um Deus de verdade se cansa, mas, se a Bíblia diz a verdade, acho que é por ainda estar descansando que Deus não viu o holocausto, não viu eleger-se um Papa censor reacionário, não viu as guerras entre os homens, não viu o fim das torres gêmeas, não viu homens armados massacrarem jovens estudantes em escolas, não viu a invasão do Iraque pelo maior de todos os terroristas do mundo moderno, nem vê a violência crescente no nosso quotidiano...
Seria bom que o presente de Natal para todos os homens deste mundo fosse o fim do descanso de Deus...
Escritor, tradutor, jornalista e professor universitário, José Augusto Carvalho é mineiro de nascimento e capixaba por adoção.
Um dos principais lingüistas do Brasil.Bacharel e licenciado em Letras Neolatinas, também é mestre em Lingüística pela Unicamp e doutor em Letras pela USP. Atua principalmente como professor, mas traduz desde a década de 1970 textos do francês, inglês e italiano. Possui uma extensa obra publicada tendo também realizado traduções para as principais editoras do País.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Carlos Drummond de Andrade

A Máquina do Mundo
Carlos Drummond de Andrade
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Este poema fica aquí para todos os apreciadores de Drummond.
Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”, o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1985, pág. 300.
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sábado, 5 de dezembro de 2009
Memorial da língua

Esta língua que te invade
é do mundo.
Esta língua que te cobre;
cuspida e engolida por muitos.
Sou tua mãe incestuosa;
metade digerida do fruto.
A toxidez, o divino
que ouviste no útero.
Acompanho-te vida a fora;
tua maldita consciência.
Sou tua aura de incertezas,
causa de tuas mortes.
Sou indecente, protuberante;
o arrebatamento do grito arremessado.
Sou o princípio e o fim;
parte do gozo.
A primitiva interjeição,
o deslumbramento, a eternidade.
Trago-te o gosto dos séculos.
Sou tua memória.
Sou comprida, ágil, afiada.
Lembro-te todas as palavras vãs.
Sou o vício evanescente.
Afetada e mansa.
Acordo e vivo contigo.
E, quando partes, me disperso com a bruma de tua alma.
MINHA HOMENAGEM AO ESPIRITO DA LINGUAGEM
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domingo, 29 de novembro de 2009
Sombras e brisa

Foto: parede de trapos
Desabou a parede de retratos. Nada mais restava de pé.
Há anos repassava as mesmas imagens com o olhar de máquina de escrever manual. Até que as teclas emperraram...
A letra A do nome dela que agarrou-se ao S de separação.
Não pôde mais sair, ficou diante da parede a indagar respostas.
O mundo desconstruindo-se ao seu redor e ele não medindo esforços para manter-se
erguido sobre os escombros, que o espremiam cada vez mais de encontro a parede.
Tão exíguo tornou-se o espaço que seus óculos se arranhavam na moldura de vidro.
Os pelos da barba crescida entravam pelo vidro estilhaçado e roçava as belas coxas por debaixo do vestido branco.
A ausência de espaço não poupara nem mesmo as sombras.
Mas agora, todo passado era escombro.
E uma brisa irritante feriu-lhe os olhos através da lente quebrada dos óculos.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Ao sal

Cumuruxatiba - Bahia
Foto: Jorge Elias
O último passo – o de ida.
E assim devia ser para todo o sempre.
As amarras permaneceram tensas,
como se desconhecessem sua inutilidade.
O último espaço ficou suspenso.
Num retalho de tempo,
a dúvida da volta.
E então passou o prazo,
e tombou o píer, de joelhos,
sobre o velho mar.
(Rascunhos do absurdo – 2009)
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009
NEUZA PINHEIRO

(auto-retrato)
quando o tempo
não me der a mínima
nem musas
hei de chover ausência
às semifusas
-.-.-.-.-.-.-.-.-
SOLO PARA SONAR
Morcegos são quase amor
são quase cegos
Morcegos são quase Morse
vates do nosso reverso
Morcegos surrupiam extratos da noite
e vertem réquiens sibilinos
sinos, farfalhar de estrias
trilhas do nosso flagelo
Morcegos são quase trevos
na lapela dos becos
conhecem o rito dos gatos
a alma dos cães em solitude
Morcegos sabem quando as ruas divagam
sabem do ponto exato em que a morte acelera
e do éter que entorpece os ciprestes
Morcegos são freqüências
decibéis do que não chega
Morcegos choram pelo Homem-estalactite
o homem submerso nas ondas cavernosas
do seu próprio desespero
corpo fechado
em oitavas incontáveis
de miséria
Morcegos não guardam segredo
escancaram cicatrizes ainda quentes.
M o r c e g o s a t r a v e s s a m a l u a...
-.-.-.-.-.-.-.-.-
MONSTRUÁRIO PARA GEMIDO E RANGER DE DENTES
(os cachorros nunca mais serão azuis...)
I
ÁRI(D)A
Olhos secos ralando cebolas.
Não reconheço a salvação
ela não me reconhece
A salvação jaz em algum templo soterrado no deserto.
A alma
quem sabe já tenha se encaixado
um dia
nas ranhuras da carne
quem sabe tenha descansado no Peito Imenso da estrela-Mater
(estrelas são dádivas, sinais de vida
mas luminosos são paranóicos
luminosos
são armas letais)
II
NUVENS NEGRAS
Olhos vagos
olhos sem medida
estendendo lençóis
Não reconheço as nuvens
elas não me reconhecem
As nuvens
nunca mais serão carneiro
nunca mais serão dragão
nunca mais serão castelo
O filhote de pássaro agoniza na calçada
Não resistiu ao temporal...
Neuza Pinheiro foi a primeira intérprete de Arrigo Barnabé. Cantou Diversões Eletrônicas, vencedora do festival TV Cultura-MPB (1979) e classificou Infortúnio em quinto lugar.
Ganhou o prêmio nacional de melhor intérprete cantando Sabor de Veneno, de Arrigo no Festival MPB TV Tupi (1979). Trabalhou com Itamar Assumpção na banda Isca de polícia (1985/88). Lançou o CD autoral OLODANGO em 2005. Através do projeto PROFISSÃO DE FEBRE, Neuza vem musicando os poemas de Paulo Leminski. O projeto se estendeu em 2008 a poetas como Odete Semedo (Guiné Bissau), Marcelo Sandmann e Bárbara Lia (Curitiba). É paranaense, socióloga e educadora da Prefeitura Municipal de São Paulo. Vive em S. André-SP.
Email: pinheironeuza@hotmail.com
Blog: www.spiritualsdoorvalho.blogspot.com
Myspace: www.myspace.com/neuzapinheiro
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Jorge Elias
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009
PÉTALAS

A menina de beijo eriçado,
lia rascunhos de coito;
sonhando pétalas.
A mocinha de peito afiado,
fendia azulejos de quatro;
sonhando pétalas.
A mulher ao jeito do Diabo,
sorvia desprezo no prato;
sonhando pétalas.
A anciã no leito, exilada,
morria sozinha no quarto.
(Verdes versos - 2007)
Obs: este meu poema traz o corte, o fim inesperado, tão característico da obra de Miguel Marvilla. Quando Miguel organizou meu livro, fez alguns comentários que me foram muito úteis na elaboração dos poemas que se seguiram. Após isso, na releitura que fiz de sua obra, observei tratar-se de um traço utilizado em alguns dos seus melhores poemas.
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009
HOMENAGEM AO POETA MIGUEL MARVILLA - CRONÓPIOS

PREZADOS LEITORES,
CONVIDO TODOS A LER A PEQUENA COLETÂNEA QUE PUBLICAMOS NO PORTAL LITERÁRIO CRONÓPIOS EM HOMENAGEM AO POETA MIGUEL MARVILLA.
GRANDE ABRAÇO E BOM FIM DE SEMANA
CRONÓPIOS: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4245
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Moribundo

Foto: Eloísa Pelegrineti - St. Paul - França - 2008
Se te lembrares de mim,
traz-me orquídeas num tubo de ensaio –
dessas que são isoladas, para não se ocupar
da impureza de nossos dias –
e injeta em minha veia.
Coloca um fone em meus ouvidos
que me sussure brisas.
Mostra-me fotos de casa
e conta de nossas sombras .
Se te lembrares de mim,
lê-me a Máquina do Mundo.
Não te prendas aos meus olhos fechados;
na escuridão, recicla-se a luz do entardecer.
No limiar da consciência
o nada-fundo se disfarça em paz.
Se te lembrares de mim,
ignora a falsa ausência de gestos.
Abafa os sons
dos aparelhos que me amparam
com um lindo sorriso.
Se te lembrares de mim,
diz a quem interessa, que os amo.
Se te lembrares de mim,
deixa-me de recordação, seu cheiro.
Depois, sai feliz
e celebra a vida.
Pois logo chegará a morte.
Quem sabe a única esperança...,
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Jorge Elias
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3:24 PM
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009
UM POEMA PARA MIGUEL

Le Papillon blessée
Para Miguel Marvilla
Na atual névoa
das simetrias.
Quando se veem pungentes
os passos que reverberam certezas,
parece um capricho,
essa fieira de insignificâncias
(o rastro da borboleta).
Por isso, o silêncio resoluto
desse corpo flácido do homem
diante de nós.
(O retorno à condição humana é o recurso último
ao qual se entrega a borboleta em momento de agonia.)
Esses tantos
que se debruçam
sobre seu leito
não se apercebem da fraude.
(Na verdade,
o poeta não carece de existência corpórea.)
São borboletas que persistem
suspensas na cor indistinta do tempo.
Sempre restará o marolar das asas,
cortejando com seus signos,
aquele que, no absurdo da vida,
se aperceber
só.
Vitória, 10 de outubro de 2009
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10:51 PM
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Miguel Marvilla

Prezados amigos,
Faleceu, no último sábado, aos 50 anos, o poeta e contista Miguel Marvilla.
Miguel é certamente um dos maiores poetas da história do Espírito Santo.
Juntamente com José Augusto Carvalho e Jô Drummond foram meus maiores incentivadores a persistir no caminho da poesia.
Além de poeta e contista, Miguel possuía a editora Flor & Cultura pela qual publiquei meu primeiro livro.
Tenho muito a dizer sobre esse grande poeta. Em decorrência disso, dedicarei as próximas semanas desse blog a apresentar uma pequena coletânea de seus poemas.
Para começar, seguem alguns poemas de seu livro A fuga e o vento, publicado em 1980.
Estou preparando uma coletânea para que todos tenham uma idéia da qualidade dos escritos desse, que para mim, é um poeta que merece um reconhecimento em nível do todo nosso País.
A FUGA E O VENTO
(1980- edição marginal)
Ordem natural das coisas
Murchas
as rosas já não surtem
seus efeitos de rosas
tudo tem seu tempo de florescer
as revoluções
os poemas
as palavras
e as crianças
tudo tem seu tempo de apodrecer
Ofício
Não posso prescindir da janela
é meu ofício pretender a lua
Poema de(s)esperança
deus e o germe
é fato que se multiplicam
criaturas plenas
(hermanas creaturas
Debajo del jardin
Crescen muertas)
e são minha mano izquierda
y mi mão direita
e resto del cuerpo
difusos e opacos
deus e o germe
na obscuridade se multiplicam
pero muertos
Lápide
se há de chover, que chova.
a chuva
lava
a palavra
respaldo do germe.
se há de saber, que haja.
defronte mesmo à parede,
o caos não se repensa.
se há de consentir, que forje.
os mitos
não se permitem
ousar mais: são mitos.
se há de louvar, que duvide.
os pães
e os ladrões
não dormem na mesma mão.
se há de negar, que conheça.
(é preciso aço e membrana.)
se há de fluir, que aconchegue.
(é preciso sangue e nácar.)
se há de haver, que nasça.
excessos
e encéfalos
fazem
a
massa
da
vida.
(se há de morrer, que anoiteça.)
Silêncio
os ratos roem meu corpo
por que ninguém chora (?)
os ratos roem meu corpo
ah meu deus se alguém chorasse
talvez eu soubesse de pronto
que estou vivo
talvez até gritasse
Elegia
pedaço de metafísica
a tua boca é uma emoção
acomodada sobre a geografia dos dentes
gramática e cor
compondo os sintomas do riso
paisagem edificada
sobre
suavitez
a primavera em cabelos
reforça o arco-íris
teus olhos
(policromia é uma falta de escuro
na noite que te comporta)
alva e repleta
tua pele se aperfeiçoa
bela e gentil
para o seio patente
em minhas muitas mãos
que jamais te tocaram
e a noite com seus etéreos
permanece estéril
enquanto teu olhar floresce manhãs
(guardarei meu beijo para o teu conhecimento
e meu corpo para o teu silêncio
que o futuro ainda não foi muito longe)
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11:24 PM
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009
TRIGÉSIMA SÉTIMA LEVA DA REVISTA CULTURAL DIVERSOS AFINS

Prezados amigos,
Convido todos a lerem a nova leva da REVISTA CULTURAL DIVERSOS AFINS.
Fui convidado por Fabrício Brandão e Leila Andrade para responder algumas questões sobre minha poesia e minhas percepções do processo criativo.
Mais isso é muito pouco...
A revista, como sempre, reserva-nos o valoroso sabor das descobertas.
- percorrendo a estética intervencionista do artista plástico e fotógrafo Kilian Glasner
- em meio à linguagem contundente das linhas cinéfilas de Celso Serpa
- nas experiências inusitadas presentes nas prosas de Nydia Bonetti, Bruna Mitrano e Larissa Mendes
- pelas profundidades dos versos de Aleph Davis, Fao Carreira, Nilson Galvão, Wilton Cardoso e Marcos Pasche
- através das vias sonoras dos discos de Otto e Filipe Catto
Vale a visita:
http://diversos-afins.blogspot.com
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9:09 PM
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009
O que seja

Ser o eco das imperfeições.
A solubilidade do instante.
O entardecer entre nuvens –
quando o sol se dissolve
no piscar das pálpebras.
O inesperado,
o suspeito.
A perda do filho que apenas principiava.
A morte a atrapalhar a risada dos desatentos.
Ser o lamento.
A antevisão do pisotear dos corpos.
Palavras com tessitura de um devaneio.
Ser o meio
com todos desperdícios.
Ser o vício.
O mito extinto.
A bolha de ar na traquéia rompida.
Ser dos anjos, a comida.
Ser a orgia.
Peripécias.
A gudeira na mão do crepúsculo.
O definhamento dos músculos.
A graça das línguas.
Ser a míngua.
Fadiga.
A miragem da felicidade.
O tropeço.
O preço da vida.
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terça-feira, 22 de setembro de 2009
Sobre algumas verdades

Tenho algumas verdades litorâneas.
Dessas que não molham os pés,
mas se empanturram de areia
e saem se enterrando ao mínimo sinal
de proximidade do desconhecido.
Não sei quantas vezes li
que as flores persistem.
Assim também são essas verdades.
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11:46 PM
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009
CRONICA

A leveza da queda
Aos poucos estão trocando o piso das calçadas de Vitória; novas normas para tornar mais seguro o dia a dia dos pedestres.
Podem achar estranho, mas não me atraem calçadas regulares.
Os buracos, as irregularidades e os desníveis me servem como camuflagem do relógio do tempo, como um sinal de que mantenho momentos de distanciamento, de contemplação, de ausência.
Sei que surpreendo muita gente, mas alguém tinha que tirar proveito do descaso dos gestores de nossa cidade...
Para quem não acredita, basta olhar a quantidade de marcas que tenho nas canelas, motivo de chacota dos amigos e do pessoal lá de casa. Não, não é nada disso, não tem nada a ver com masoquismo. A razão é mais nobre...
O tropeço súbito tem dupla finalidade, mantém a possibilidade do poema e me permite dissimular a chegada da morte.
Ainda não entenderam?
Como vou saber, andando por esse piso de ladrilho hidráulico simetricamente disposto pelas ruas, se estou atento demais às praticidades da vida? E outra coisa: depois de treinado, condicionado à mesmice, se, por acaso, por um descuido da fiscalização pública, eu deparar com um buraco e tropeçar e tombar sem me proteger, e me machucar, e tiver dificuldades para me reerguer, e sentir uma sensação de vazio, de falta de propósito na queda, nesse momento eu saberei que me tornei velho e pior, que terei deixado para trás, perdida em alguma queda, irrecuperável, a inspiração do último poema.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Eucanaã Ferraz

Mais doce
Confesso: não pude desamar de ti.
Tornei-me, então, tua mãe.
Afinal, não serias o meu homem,
eu sabia. Não vacilei, e dedico-me
à condição mais intestina,
mais doce – a de quem cozinha,
cose, espera, cala, tece,
aconselha, espera, vela
(mesmo que não, é como se fosse),
à condição de quem vê passar
o tempo no cabelo, nos gestos,
nas histórias, nos amigos, nos dentes
do seu pequeno príncipe, do seu dolorido,
do seu príncipe feliz.
Porque não me querias como homem,
porque não poderia ser teu pai,
retou-me não ser menos que este amor
que segue ao teu lado
mesmo quando é tão distante teu caminho,
teu silêncio, teu passo rápido, teu sonho.
Choro,
que o destino das mães é sempre triste.
Porque é triste não poder ser
a mulher do seu menino.
Via
Eu caminhava nu, sem que você visse.
Pra que você visse, eu caminhava sem.
Você não via. Pra que você soubesse,
eu caminhava nem, sem que você visse,
eu caminhava livre, além do limite de
ser ninguém, sem remo e sem alento,
o andar isento quase de mim mesmo,
num estranho,cansado engano,
sem âncora, no vento, e mais contente.
Nu, livro ao avesso; nu, anel sem dedo;
nu, anel sem dentro; nu, a pedra
bruta; nu, um livro bruto, antes
do acabamento, cimento grosso,
na antemão da cal, da letra, descampado,
como se a mão de alguém me desenhasse,
antiqüíssimo, no dorso de um vaso.
Sem poder ser belo, sem poder ser feio,
coisa-coisa no espaço, no tempo, eu ia.
O sol me reconhecia: eu era o filho
mais novo do boro e do alumínio.
Meu passo exalava o hálito do barro.
As crianças me apontavam, riam.
Tudo se condensava à minha roda.
No entanto, nenhuma flor surgia
nos meus passos: os brejos permaneciam
sáfaros, cobertos de urzes, sem que nada
fosse esquivo, estranho ou intratável,
nenhum recife, navalha ou gesto sórdido.
E pra que se desse a ver, meu silêncio
dizia: cabelo, pelo. Sorri: os anjos de pedra
me acenaram. Eu caminhava sem,
em você, sem que você visse.
EUCANAÃ FERRAZ. Rua do mundo. Rio de Janeiro: Companhia das letras, 2004.
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Rosa dos ventos

foto: Prego ou não Prego
Autor: benjamim vieira
O segredo do meu casamento
é um prego cravado fora da porta de casa.
Penduro ali
meus sentimentos provisórios.
(PENSEI EM CONTINUAR ESSE POEMA COM AS ESTROFES SEGUINTES, MAS ACABEI SUPRIMINDO-AS)
De resto,
não direi mais nada.
O que te aparenta inútil
prescinde de explicação.
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segunda-feira, 24 de agosto de 2009
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Fabrício Brandão e Leila Andrade

Foto: Leila Andrade
A PONTA DA ESTRELA
Fabrício Brandão
Tenho segredos que me sabem.
Todos eles tidos em mãos ocultas,
Circundam um tempo vazio de horas.
Então, adormeço para fazer frente aos desejos,
Catando a outra borda do sonho.
Pequeno grande objeto estranho de mim,
Deixo o sol se espraiar sobre mentiras,
Uns tantos prediletos brinquedos de vida.
DUO
Fabrício Brandão
Aquele outro se abre em fendas
Arranha espaços
Agarra as mentiras presas nos lençóis
Acontece sem ninguém.
Dialoga com espelhos
Despeja poeira nos móveis
Discute com vista para o mar
Depois do prazer
Cumpre o rito das horas
Corteja o azul que vaga
Cala em voz alta
Cerra os olhos em terras distantes
O daqui sustenta esperas
Ornamenta os sentidos na estante
Obedece sinas tortuosas
Ora por um pouco mais de tempo
Fabrício Brandão gosta de levar adiante as missões da Comunicação e das Letras. Homem de poesia, prosa e outros gêneros similares, edita, juntamente com Leila Andrade, a Revista Cultural Diversos Afins.
http://diversos-afins.blogspot.com
RETRATO FINAL
Leila Andrade
a inconstância do mundo apavora
o corpo que se move lento
respira sem profundidade
numa desordem possível
: os cálculos imperfeitos
retalhos de uma vida deserta
espalhados na colcha da cama fria
combinação exata com a falta de leveza
das cores prediletas
vermelhas, amarelas, culpadas
DE DESERTO E SOMBRAS
Leila Andrade
Uma pedra íntima desvia
o meu grito de desgosto
interpretado sob medida
em um coração deveras
largo
e não se ajusta
à calma:
meus cantos todos calados
uma homenagem ao silêncio,
senhor de todo caminho
deserto.
Leila Andrade é graduada em Letras e Comunicação Social. Pensa poesia em seus dias como um inevitável sopro do vento em sua face.
http://palavraedestino.blogspot.com
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sábado, 15 de agosto de 2009
Ferreira Gullar

INTERNAÇÃO
Ele entrava em surto
E o pai o levava de
carro para
a clínica
ali no Humaitá numa
tarde atravessada
de brisas e falou
(depois de meses
trancado no
fundo escuro de
sua alma)
pai,
o vento no rosto
é sonho, sabia?
Poema escrito por Ferreira Gullar, pai de dois filhos portadores de esquizofrenia.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Terroir

Iluminou-se o estilo:
rascante.
Espinha de peixe.
Monjolo a pilar a palavra
até que finde a água.
(Verdes Versos)
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