quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Breve dicionário (poético) do boxe - já disponível para os interessados



Meu livro de poemas, "Breve dicionário (poético) do boxe", já está disponível no catálogo da Editora Patuá ou por contato direto. Bem-vindo ao mundo pelas mãos do editor, poeta e dono de bar Eduardo Lacerda. Com arte e projeto gráfico do Leonardo MAthias , com ilustrações do meu grande companheiro Felipe Stefani e prefácio de Caê Guimarães.
No link abaixo é possível conhecer poemas do livro:
http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=294


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Breve dicionário poético do boxe - Novo livro

Caros amigos:

Estaremos realizando no próximo mês o lançamento do meu novo livro de poemas " Breve dicionário (poético) do boxe pela Editora Patuá.
Para aqueles interessados em adquirir o livro basta acessar o link abaixo:http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=294

Em breve divulgarei o convite para o lançamento que será realizado na Biblioteca Pública do Estado do Espirito Santo.

Grande abraço,

Jorge Elias.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A fábrica de nuvens


                                                         PONTA DE TUBARÃO

Roubaram-me a linha do infinito. Não posso mais ver o mar despencar no vazio, vejo apenas uma fábrica, um porto e os navios. Como é possível ser poeta sem o interminável? Mas dá-se um jeito – aprendi isso com o tempo.
E, nesse caso, bastou olhar, em um fim de tarde, para os lados do Tubarão e ver a chaminé da fábrica. Ela, de um fôlego inabalável, me disse: “Aquela nuvem que passa lá em cima sou eu”... Música antiga, caros saudosistas ... E eu olhei a nuvem. E tenho olhado desde então como ela compõe o céu de minha terra, como ela consegue, impassível a tudo e a todos, manchar de cinza até mesmo aqueles dias em que desvio dela o olhar maravilhado com o céu de brigadeiro onde não sopra o vento nordeste.
Em dias de chuva, de nuvens grossas e cinzentas, parece que, com o orgulho ferido, ela acrescenta  algo  mais à escuridão do dia.
E nas noites ... Ora amigos, olhem para a fábrica de nuvens durante a noite. Sob o tom que o céu assume devido às milhares de lâmpadas ligadas, ela se exibe como diante de holofotes, parecendo competir com a lua pelo protagonismo da noite.
Seria só isso se não fosse a meticulosidade da fábrica de nuvens. Pois ela também é discreta e, não fosse o artista Kleber Galveas mostrar, ano após ano, que a tela é o cinzeiro da pós-modernidade, nem os cidadãos que se pintam de preto na orla de Camburi, ela bem que tentaria passar ao menos um pouco despercebida.
Resolvi então copiar o inabalável artista da Barra do Jucu. Fiz um experimento.
Pintei de verde o cacto enegrecido de minha casa. Como o artista, usei as mãos – pois, em meu caso, a tela possuía espinhos.
Confesso que os poucos espinhos não me feriram mais do que minha mão enegrecida.
Mas, na minha soberba de homem, senti ter pintado de verde o cacto que persiste em minha varanda. Como fosse eu Tistou, o menino do dedo verde, a pintar de verde a superfície das plantas asfixiadas. Quisera ter o dedo azul para pintar o céu e um dedo-borracha para apagar de vez a cor cinza que paira, impune, sob o céu de minha Terra.

Jorge Elias Neto


sexta-feira, 3 de julho de 2015

NOTURNO

Noturno



                                         O impulso carrega
                                            uma promessa dos pés
                                                      


Andava
 confortavelmente 
no escuro
 ( sentia o calor
        das coisas mortas)

(Quem o pariu foi o vento nordeste
               assustado
               com o apito do navio)

Nas mãos
a lista dos homens tristes
e linhas tortas
 desencontradas

A seu lado
uma inútil sombra
 essa mundaneidade

Tinha a noite
e a paz das sarjetas abandonadas

O Mundo
acontecia dentro dos olhos

Deus   
era imagem ausente  
à margem da fábula

O corpo
   acaso assombroso 
rompeu a escuridão
da Ilha morta.



Jorge Elias Neto

sábado, 16 de maio de 2015

Imensidão


Letra miúda, essa, do tempo,

caber o risco do vento

o uivo, o eco,

toda delicadeza dos voos dispersos

e restar espaço

para tantos sonhos na inocência

de uma infância.

Jorge ELias Neto

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Le risque - Hommage à Charlie Hebdo caricaturistes

Le risque 

                                                                                                               
          qui donne la richesse de perdre ?
               


                                           Auteur :Jorge Elias Neto
                                           Traduction: Francis Juif


Le risque était libre.
Il vivait sans Père,
sans Patrie.

Indéchiffrable,
il frétillait au moindre
indice de calligraphie.

Il ricochait sur les dalles,
se sortait à peine échaudé des querell
e set sans résidus de lettres.

Le risque ne le savait pas,
mais il était hédoniste.

Il se servait du camouflage
des incompris.

Rusé,
il créait ses fausses pistes.

Le risque était tantôt relâché,
tantôt tendu ;
ses intentions n'étaient pas claires.

Insaisissable,
il ne se laissait pás
marquer avec des mots.

Incorrigible,
il ne connaissait qu'une peur:
la discontinuité.

Il se créait dans le silence,
ne laissait pas de traces.


Il choisit la clandestinité

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Poema em homenagem aos cartunistas assassinados em Paris - do livro Rascunhos do absurdo

O risco
 


O risco era solto.
 
Vivia sem Pai,
sem Pátria.
 
Indecifrável,
esperneava ao mínimo
indício de caligrafia.
 
Ricocheteava nos lajedos,
saía chamuscado das rusgas,
mas sem resquícios de letras.
 
O risco não sabia,
mas era um hedonista.
 
Usava a camuflagem
dos desentendidos.
 
Serelepe, 
causava seus descaminhos.
 
O risco, ora era frouxo,
ora era tenso;
seguia desmoldando intenções.
 
Era corisco,
não se deixava
ferrar com palavras.
 
Incorrigível,
só tinha um temor:
a descontinuidade.
 
Criava-se no silêncio,
não deixava rastros.
 
Optou pela clandestinidade
ao abandonar o traço.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

NOVO LIVRO - GLACIAL



Caros amigos:

Acabo de lançar meu novo livro pela Editora Patuá.
Para aqueles interessados em adquirir um exemplar, segue o link da Editora:
http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=294&Itemid=53

Aproveito para deixar meu abraço de fim de ano para todos.

Jorge Elias Neto

terça-feira, 21 de outubro de 2014

ÚMIDA


 

 

Farfalham nas rachas da ilha
línguas ásperas

vento sul

        – alado centauro –

entre coxas de sereias órfãs

Maresia
poeira salgada nos cílios
corte na lamina dos lábios

gozo entre versos
e um sol perdido
no horizonte das dúvidas
de ser o sexo das putas
o melhor berço
para um segredo 

:o cansaço

  

Mar

   – orgia divina –

desafogo do escroto

Murmúrio
açoite das ondas
nas carnes, nas bundas
dos que de quatro vasculham
a ira do Mundo

 Estranha rocha
estrangeira
trazida de além mar


Seu nome de batismo

sustenta as preces

sob a carne crua

  

Sustenta a paz dos escombros

do rombo

no jazido das encostas

que recebe afetos

do que late 

        e engorda

e geme

para ser feliz.

 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Caranguejo Neles!

           Jorge Elias Neto

Para aqueles que concordam comigo sobre o desmoronamento das relações interpessoais, a falta de integração da família, oriunda do advento das mídias portáteis, que fazem de um SELF (tradução: Sou ELinda(o) na Foto) uma falsa mensagem de confraternização, segue a ideia que me ocorreu após uma conversa com o Tommasi, mentor do motor a álcool,  ídolo de muitos, nos anos oitenta, nas corridas de Kart e Stock car: reunir a família para comer caranguejo.
Surpresos...!?
O que um ser primitivo, o famoso uçá – como chamavam os indios antes de Cabral -, com sua armadura pré-histórica, acostumado a andar de lado, pode, contra a tecnologia das mídias, dos tabletsipod,ipadzap-zaps e facebooks da vida?... Simples, meu caro Watson: alguém consegue comer caranguejoou siri sem sujar as mãos?
Amigos, o hábito faz o monge. Façam como o Tommasi: acostumem seus filhos, desde pequenos, a fazer parte do grupo dos fanáticos por caranguejo. Digo isso por pensar que comer caranguejo não é coisa para glutão ou gourmet. Comer caranguejo é um ritual. Leva horas em torno da mesa. E, quando acaba, após deixar uma verdadeira montanha de restos de cascas empilhadas, já não se sabe se a satisfação decorre da plenitude gástrica ou do prazeroso, e necessário bate-papo... Arrisco dizer ser desnecessário fazer uma opção, já que as duas alternativas são complementares e indissociáveis. Mesmo aqueles mais preconceituosos, que resistem a destrinchar o artrópode com o famoso “martelinho” de madeira, não conseguem resistir a uma bela puã com vinagrete.
Capixabas, conclamo a todos ― e vejo nisso um ganho suplementar em favor da preservação de nossos manguezais, pois sem eles não existe siri nem caranguejo ― a cultuar a caranguejada em família.
Alguém consegue imaginar, por mais fanático que seja, uma pessoa que, com a mão suja de caranguejo, consiga ficar com os dedos convulsivos tateando a tela de um celular? Ou alguém que ouse alternar uma pata de caranguejo com uma “partidinha” no tablet?
E digo mais: sejamos inflexíveis. Nada de deixar uma toalhinha com álcool à disposição dos compulsivos-obsessivos de plantão. Eles que aprendam a ter autocontrole. Afinal, comercaranguejo é terapia ― terapia de grupo.
Tem até um mantra... O som característico que se produz quando se busca, no fundo das patas, sugando com avidez, a porção mais temperada do petisco.
Não esqueçam: não se come caranguejo sem sujar as mãos. E isso é um artificio inteligente para aqueles que percebem a complexidade do momento atual e a verdadeira falácia que são as relações travadas virtualmente. Cumpramos com nosso papel contra o distanciamento entre as pessoas - sejamos pró-ativos. Como já disse em uma crônica anterior : fiquemos atentos à síndrome da pseudopresença (o estar não estando).

Por isso digo: caranguejo neles.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O arquiteto, o menino e a janela

Da janela vê-se o Corcovado
                                      O Redentor que lindo
                                                    Tom Jobim



A cidade é feita do conflito.
E se um menino, morador em um morro de nossa cidade, tivesse a parede de sua casa perfurada por uma bala? Como qualquer criança, se oorifício permitisse —  e é bem possível que isso ocorra hoje, com o armamento pesado utilizado nas verdadeiras batalhas travadas nas nossas cidades —  , ele encostaria, curioso, seus olhos naquele buraco para ver o que aquela luz trazia  —  uma imagem  visível do lado de fora de sua casa.
Ouvi Paulo Mendes da Rocha, o celebrado arquiteto capixaba, dizer que na música de Tom Jobim, Corcovado, o importante não é o Cristo Redentor visível, com toda sua potência de Ídolo maior, abrindo os braços sobre a cidade;o importante é a janela que possibilita essa visão. Eis um olhar que aproxima oarquiteto do poeta Carlos Drummond de Andrade.
Mas e o nosso menino, que olhou através daquela pequena “janela” tardia, não incluída no projeto inicial de sua casa, uma “janela” construída de fora para dentro, feita por um autor anônimo ou não, aleatória, que quase lhe custou a vida? O que ele poderia dizer ou pensar? Poderíamos trabalhar com probabilidades.
Primeiro caberia saber se era o primeiro ou apenas mais um buraco oriundo do conflito urbano. Fosse o primeiro, e o menino olhasse, talvez visse apenas a parede contrária de um beco, uma vida a transcorrer como se nada tivesse ocorrido, pessoas correndo, pessoas chorando, pessoas subindo e descendo em suas jornadas de Sísifo. Agora, e se o menino nos surpreendesse,  e sentisse uma brisa ligeira a tocar-lhe o rosto, e ouvisse um barulho de bola rolando no quintal do amigo ou desse um enigmático sorriso ao observar que, caprichosamente, o buraco estava em um local privilegiado para  vigiar o amadurecimento das goiabas do vizinho?
O passado nos ensina que vivemos e viemos do conflito, disse Paulo Mendes da Rocha. A cidade se faz de conflitos, e triste daqueles nãoatentos para esta verdade. O amar, o odiar, o querer ser desejado, o desejar sem limites. Um aglomerado de desejos e insatisfações. E tentamos ignorar isso tudo.
Que seja única a janela do menino. Não abusemos das probabilidades estatísticas. Não sejamos hipócritas de fazer do caos urbano um simples poema.
Não basta tampar o buraco na parede, o sol com a peneira, ou seja lá que ditado popular venhamos a pensar.
Na verdade, o menino mora em uma casa, tem uma família e suas dificuldades inerentes aos desvios e desigualdades sociais. O que o meninoprecisa é de uma janela que abra de dentro para fora, que tenha um trinco – é verdade – mas que, quando aberta, sem esforço, o menino possa ver no sem-sentido da vida algo que emociona e o faça crescer como Homem.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

PARA AS CRIANÇAS DE GAZA

A revolução dos anjos


As mãos se encontraram
e da força fez-se
                       a escuridão

Pássaros perderam-se na noite
mas não tinha sentido voar
― caminho ―
              nenhum ―.

(O vasto pertence aos
        indomáveis
e a suas lágrimas).

As mãos se encontraram
com a força que subsistia no silêncio
e estenderam sobre o anjo
suas asas
               tombadas.

 Parque das Hortênsias 26-07-14


 --------------------

 Sorriso da inocência


Pousaram para a fotografia
         as crianças.

Estavam quietas
despojadas
sob o Sol da tarde
Sem pressa
não lhes ocorriam mais brincadeiras 

Foto para guardar
        ― lembrança ―

Olhinhos ausentes
a fitar a história

E fez-se um frio
          despido

de qualquer certeza.

Vitória, 26 de julho de 2014


terça-feira, 22 de julho de 2014

TRILOGIA PARA GAZA - Jorge Elias Neto


Céu de bombas
                            

Não interrompam o cotidiano das serpentes.
Elas não buscam no homem seu veneno.


Por que choras por mim, meu pai?

Cumpri com o que me coube
nessa Gaza de feras.

Em cada criança morta, sacrificada,
um objetivo insano.

Despeço-me do dia
sob flashs e bombas.

Uma fome doentia
molhou teu corpo com meu sangue.

Estrelas dos profetas cruzaram os céus
e pulverizaram os créditos de minha infância.

A ambição de poder comeu meu destino.
Com a força, roubaram-me o sorriso.

Meu pai, nem sei perguntar por quê.
Não tive tempo de me nutrir de ódio.

Pensando bem, pai,
que as lágrimas partam.

Transpareça a indignação em teu rosto
nas telas indiferentes do Mundo.

Sobretudo crê, pai,
crê no triunfo do olhar de tua filha,
fosco de morte,
voltado para esse lindo céu,
reluzente de bombas,
nessa noite de um domingo de fúria.


A praça

Estaria reservado no escaninho dos deuses
tão impensada tormenta?

Movimento primevo:
revoada dos pombos.

Quebrado o instante,
brancas penas restaram na praça.

Crianças absortas,
festejando o dia,
imaginaram dragões e fadas.

Anciões se entreolharam
e cismaram com o céu...

Ato contínuo:
zunido, estrondo,
perplexidade.

Malfadado encontro:
pó e silêncio.

Os primeiros gritos,
embotados pela poeira do subentendido.

O som antecipou
a imagem suspeitada.

Fez-se a desolação
nos rostos que se ergueram.

Os primeiros gestos, lentos,
não acompanharam o frenesi do pensamento.

Desespero.

– Como é possível
minar tanta água
desses rostos de areia?


Coube ao acaso
a seleção dos fortes
(que recolheram os corpos).

Ao poema cabe
despejar sobre o chão,
e na cara dos facínoras,
uma resma de dúvidas.

De algum ponto,
cabe o recomeço.

Sonhos no absurdo

                                                                            Não tirem do poeta a visão;
podem condená-lo à loucura
do mergulho no poema sem fim.
I

O poeta sabe a textura exata do sonho.

E por perceber que os números são símbolos
que poderiam arrastar seu povo,
foi o primeiro a se equilibrar nos destroços.

Não azulava as dúvidas com preces
e entendia a sujeira como um vício da realidade.

Caminhando em silêncio,
observou que a ausência de espaço
não havia poupado nem mesmo as sombras.

Homens desencontrados
cruzaram o limite da incerteza
e bradavam:

– Não pedi esse conflito.
Mas, na dúvida,
deixo a arma engatilhada!

Nunca foi do poeta o primeiro momento...
II

Aos primeiros que o ouviram disse:
– Se abuso daqui à esquina de minha casa,
perco o controle do dia.

– A vida é ritual de pontes.
Vejo triste que, entre o dito e o pensado,
ficou uma ponte tombada.

– Hoje massacraram nossas verdades,
e enxergamos o abismo.

Choraram juntos a mais temida das mortes.


III


O poeta sente o absurdo do tempo humano.

            O homem aquietará.
            E juntos, todos os ponteiros
            deixarão  de ter sentido.

É do homem buscar refúgio nos dias.



IV

Nos escombros,
na esquina antes sem luz,
sentaram  as crianças.

Diante delas
o poeta circundou com o dedo
seu corpo na areia.

Com um salto
surpreendeu-as com a facilidade
que superou o limite de sua prisão.

O poeta percebe o momento exato do nascimento do sonho.