sexta-feira, 19 de março de 2010

Luiz Guilherme Santos Neves


As migalhas de ouro

“ide à cidade, à casa de um tal” (Mateus, 26,18)



Eu sou aquele que preparou a ceia do senhor, aquele que o acolheu com os discípulos, aquele que serviu a comida pascal. Primeiro, pela manhã, chegaram Pedro e João, e disse um deles: “O tempo do mestre está próximo. Isso ele mandou dizer”. E completou: “Vimos preparar a ceia em vossa casa, porque essa é a vontade dele”.

Conduzi-os então à parte superior da casa onde lhes mostrei a grande sala branca, mobiliada com coxins e com a mesa retangular com tampo de grande grossura. Disse-lhes: “Eis a sala e eis a mesa onde será a ceia do senhor. Ide e dizei-lhe que na hora vespertina aqui estarão o pão e o vinho; e os alimentos serão servidos sobre toalha de linho branco. Porque sendo essa a sua vontade é também a minha vontade e o meu prazer de servir”.

Antes de sair, um dos dois, que era um dos Doze perguntou: “Quem sóis vós? Respondi: “Eu sou aquele que servirá a ceia do senhor, o que estará presente e será omitido, cujo nome jamais será sabido, mas que terá olhos para ver e ouvidos para ouvir e, em mudez e quietude, testemunhará, porque será o décimo quarto participante.”

Ouvindo essas palavras eles se foram em silêncio.

Caindo a tarde, vieram todos e abri-lhes a porta e os conduzi ao andar superior onde entraram na sala mobiliada e pronta. E pôs-se Jesus à mesa com os doze discípulos. E se assentou ele ao meio dela, e não na cabeceira; e, de cada lado dele, à direita e à esquerda, eram três daqueles seus discípulos, e os seis restantes, pelo lado contrário, de maneira a ficarem os doze em dianteira uns dos outros, permanecendo vazios os flancos da mesa. Após orar em silêncio, disse-me Jesus: “Seja servida a ceia”.

E eu os servi a cada um em seu lugar. E junto deles, ao lado de suas destras, havia pão e vinho; mas eles não os tocaram.

Durante a refeição, Jesus tomou do pão ao seu lado, benzeu-o e o partiu em doze porções que distribuiu aos discípulos dizendo: “Tomai e comei isto é o meu corpo.” Pegou depois o cálice, onde derramei o vinho, deu graças, e o fez correr entre os discípulos, dizendo: “Bebei dele porque isto é o meu sangue.”

Tendo eles assim provado do pão e do vinho, dirigiu-se Jesus a mim, de pé, próximo à mesa, e, separando uma hóstia de pão e um pouco de vinho, deu-me com estas palavras: “Comei e bebei; sóis presente entre nós e tende vez à comunhão”. E tendo eu feito como ele ordenara, vi quando tomou do pão e do vinho, e ele próprio os levou à boca, primeiro o pão, depois o vinho.

Em seguida, havendo me pedido uma bacia cheia d’ água e uma toalha, com ela cingiu o corpo após depor as vestes. E a cada discípulo lavou os pés com a água da bacia enxugando-os com a toalha com que estava cingido. E assim tendo feito a todos o fez também a mim. E disse depois de nos lavar os pés: “Vós estais puros, mas nem todos,” referindo-se ao Iscariotes. E acrescentou solene, embora tranqüilo, lançando, todavia, inquietação entre os discípulos: “Em verdade vos digo que um de vós me há de trair”.

Ouvindo estas palavras, perguntaram-se todos, entreolhando-se e entreolhando-me: “Porventura será quem?” Respondeu-lhes Jesus: “Aquele que pôs comigo a mão no prato”. E vimos que, assentado em frente ao mestre, a mão de Judas tocava a de Jesus no prato entre ambos.

Tendo assim revelada a sua perfídia, ergueu-se o filho de Simão Iscariotes, e levando a bolsa presa à cinta, tomou o rumo da escada. Estando trancada a porta da casa, eu o segui para abri-la. À saída, ouvi-lhe as palavras: “Habitará em mim a traição porque assim será preciso. Serei o figo da figueira, o instrumento das profecias. O caminho da crucificação e da ressurreição passa pelo meu corpo e será a danação da minha alma”. A seguir, retirou-se.

Quando tornei à sala, já todos estavam de pé e se aprontavam para sair. Seguido dos discípulos, disse-me Jesus: “Bendito sois vós que me recebestes em vossa casa e nela me oferecestes a ceia da Páscoa. Rogo ao pai que vos fortifiqueis por este ato”. E se foi e se foram.

No dia seguinte, entre a hora sexta e a nona, abateram-se as trevas sobre a terra. Uma mulher vendo-me sair de casa nessa súbita obscuridade e sabendo que eu havia recebido Jesus, gritou: “Aquele hospedou o rei dos Judeus, deu-lhe de comer e de beber.”

Logo uma pequena multidão se pôs em fúria e com tochas atearam fogo à casa que ardeu o tempo das trevas daquele dia.

Quando o fogo baixou e esfriaram as cinzas, os que puderam ver viram e maravilharam-se: da casa ardida restavam intactas a mesa e os coxins, e luziam como ouro as migalhas do pão partido sobre o tampo da mesa. E os que viram isso, acreditaram que ali tinha estado o filho de Deus.

(Publicado na Revista Letra, ano IV, 1984, Vitória-ES).


Luiz Guilherme Santos Neves (Vitória, ES, 24/9/1933). Professor, historiador, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e do Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo. Publicou, como ficcionista, entre outras obras, os romances A nau decapitada (1982), As chamas na missa (1986), O templo e a forca (2000), O capitão do fim (2002), Torre do Delírio (contos, 1992), Escrivão da Frota (crônicas, 1997) Crônicas da Insólita Fortuna (crônicas históricas, 1998), Memória das Cinzas – Encontro Póstumo com Fernão Ferreiro (2009). Na literatura infantil: História de Barbagato (1996); Eu estava na armada de Cabral (2004); Eu estava no começo do Brasil (2006). É autor de várias obras didáticas e de pesquisa histórica, muitas delas em parceria com Renato Pacheco e outros, entre as quais Espírito Santo: Impressões (1991), Espírito Santo, Brasil (1994), Índice do folclore capixaba (1994), Dos comes e bebes do Espírito Santo (1997), Vila Velha da Senhora da Penha (1997), Mão e obra: O artesanato do Espírito Santo (2001) e Mar de âncoras: o comércio exterior do Espírito Santo (2003), além de cinco obras para o Projeto Memória Viva, da Prefeitura de Vitória. Na área do folclore publicou Breviário do Folclore Capixaba (2009) e participou da equipe que produziu o Atlas do Folclore Capixaba (2010)

Um comentário:

Johelder disse...

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