domingo, 10 de janeiro de 2010

O intruso


Para que compartilhar a loucura? Tem-se que guardar em segredo a penúria dos instintos que nos avassalam a alma. A loucura transborda, atordoa, é inventiva demais.
Diriam que ela é suportável nas crianças e em alguns endemoniados perdidos nos acostamentos das autoestradas – sempre carregando nas costas suas sacolas cheias de coisas-nenhumas. Elas não aprenderam ainda a ser gente; eles desaprenderam a ser humanos ...
Mas, na manhã em que tive o espírito desperto, assim, obsequioso, fui entrando nas casas. E todos desviaram de mim o olhar.
Hoje, não mais embriagado pelas convicções que me moviam, pude ouvir dos poucos que me fitaram por um breve instante o seguinte relato:
Surgi lento diante dos portais das casas, quando os primeiros raios oblíquos da manhã não ousavam passar do peitoril das janelas. Essa ausência de luz no interior de suas moradias fez maior o impacto daquele que se anunciava.
Raios de sol escorriam-me pela face onde já adormecera o orvalho que trazia da madrugada fria. De súbito, toda a luz esfacelou-se em mil arco-íris.
Um olhar sem fio terra fez calar os poucos que ensaiaram dizer de sua objeção à minha presença, assim tão cedo e sem convite.
E, por ter deixado de acreditar na cautela do silêncio, fui derramando a língua sobre os móveis da sala onde todos os moradores, perplexos, se mantinham sentados. As palavras me enchiam a boca, e, se as tentasse calar, seria possível ver as protuberâncias que a fala contida criava ao serpentear em meu rosto. E, quando conseguiam vencer meu esforço – pois já começava a observar o quão inoportuno eu era àquela gente – , sentia-se o arrebatamento do grito arremessado.
Poderia continuar discorrendo sobre a imagem fantástica que aqueles indivíduos guardaram daquele dia, mas prefiro dizer que aquele não era eu.
Não nego aqui as intenções (inocentes intenções) que me impulsionaram porta adentro. Não, elas sempre foram autênticas. Refiro-me ao personagem descrito. Esse, sim, não era eu.
De tudo que falaram, talvez o que mais se aproximasse do real fosse meu rosto molhado com o suor que passou a escorrer profusamente, quando me ocorreu dividir com os homens minha parcela do descobrimento do mundo humano.
Custou-me entender que não se deve revirar as prateleiras domésticas, desmantelar os espaços, desarranjar a ordem estabelecida para a vida.
Mas também, que besteira!... Não se compartilha o fundilho rasgado para morder o rabo.
Nos últimos tempos, tenho ficado por aqui, zanzando onde posso ser ignorado. Como me restringiram o espaço para o olhar, mantenho meus olhos apontados para o chão.
Mas sou feliz, aprendi que para conquistar a liberdade, bastou chamar-me: “Ninguém”.

Jorge Elias Neto

7 comentários:

Dauri Batisti disse...

Hem Jorge, o texto está muito bom. Aos poucos vou percebendo as voltas do seu estilo. Fui lendo, lendo, lendo como se fosse uma crônica - uma crônica das dificuldades de ser - e no fim deparo-me com sua classificação como mini-conto. Mas tudo bem, o que importa é que leitura correu fácil, boa, com prazer.

Um abraço e que 2010 lhe renda muitos outros bons textos.

Ps.: Jorge, por que você não faz a justificação do texto, para que ele fique mais agradável e bonito também na forma gráfica? É ápenas uma sugestão.

Oliver Pickwick disse...

De igual modo à poesia, a ficção lhe cai bem, amigo Jorge. E o que é melhor, existencialismo intenso e sem chatice, o que é meio escasso neste gênero.
Um abraço!

Oliver Pickwick disse...

P.S.: e ainda, no estilo do melhor thriller de suspense, tem
final surpreendente.

jorge disse...

Daurí,

Agradecerei seus comentários por email.

Jorge Elias disse...

Oliver,

obrigado pelo comentário.
Deixo esse final como uma provocação.


Forte abraço

Mistérios, Magias ou Milagres. disse...

Como é bom ler algo tão inteligente e sadio, parabens pela maravilhosa postagem. Vou voltar mais vezes para ler as mais antigas um enorme abraço Heudes

Jorge Elias disse...

Heudes,

obrigado por sua visita e comentários.
Volte, comente, discuta, dê sua opinião.
Estarei visitando seu espaço.

Abraço