terça-feira, 27 de setembro de 2011
A NECESSIDADE DA POESIA - José Augusto Carvalho
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Jorge Elias
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Sonho no absurdo
Não tirem do poeta a visão;
podem condená-lo à loucura
do mergulho no poema sem fim.
I
O poeta sabe a textura exata do sonho.
E por perceber que os números são símbolos
que poderiam arrastar seu povo,
foi o primeiro a se equilibrar nos destroços.
Não azulava as dúvidas com preces
e entendia a sujeira como um vício da realidade.
Caminhando em silêncio,
observou que a ausência de espaço
não havia poupado nem mesmo as sombras.
Homens desencontrados
cruzaram o limite da incerteza
e bradavam:
– Não pedi esse conflito.
Mas, na dúvida,
deixo a arma engatilhada!
Nunca foi do poeta o primeiro momento...
II
Aos primeiros que o ouviram disse:
– Se abuso daqui à esquina de minha casa,
perco o controle do dia.
– A vida é ritual de pontes.
Vejo triste que, entre o dito e o pensado,
ficou uma ponte tombada.
– Hoje massacraram nossas verdades,
e enxergamos o abismo.
Choraram juntos a mais temida das mortes.
III
O poeta sente o absurdo do tempo humano.
O homem aquietará.
E juntos, todos os ponteiros
deixarão de ter sentido.
É do homem buscar refúgio nos dias.
IV
Nos escombros,
na esquina antes sem luz,
sentaram as crianças.
Diante delas
o poeta circundou com o dedo
seu corpo na areia.
Com um salto
surpreendeu-as com a facilidade
que superou o limite de sua prisão.
O poeta percebe o momento exato do nascimento do sonho.
Jorge Elias Neto
(Rascunhos do absurdo - 2010)
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Jorge Elias
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quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Mahmoud Darwich
Carteira de identidade
Mahmoud Darwich
Registra-me!
sou árabe
número de minha identidade é cinqüenta mil
tenho oito filhos
e o nono... virá logo depois do verão!
vais te irritar por acaso?
Registra-me!
sou árabe
trabalho com meus companheiros de luta
em uma pedreira
tenho oito filhos
arranco pedras
o pão, as roupas, os cadernos
e não venho mendigar em tua porta
e não me dobro
diante das lajes de teu umbral
vais te irritar por acaso?
Registra-me!
sou árabe
meu nome é muito comum
e sou paciente
em um país que ferve de cólera
minhas raízes...
fixadas antes do nascimento dos tempos
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e oliveiras
antes do crescimento vegetal
meu pai... da família do arado
e não dos senhores do Nujub¹
e meu avô era camponês
sem árvore genealógica
minha casa
uma cabana de guarda
de canas e ramagens
satisfeito com minha condição
meu nome é muito comum
Registra-me
sou árabe
sou árabe
cabelos... negros
olhos... castanhos
sinais particulares
um kuffiah² e uma faixa na cabeça
as palmas ásperas como rochas
arranharam as mãos que estreitam
e amo acima de tudo
o azeite de oliva e o tomilho
meu endereço
sou de um povoado perdido... esquecido
de ruas sem nome
e todos os seus homens... no campo e na pedreira
amam o comunismo
vais te irritar por acaso?
Registra-me
sou árabe
tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados
e da terra que cultivava
com meus filhos
e não os deixastes
nem a nossos descendentes
mais que estes seixos
que nosso governo tomará também
como se diz
vamos!
escreve
bem no alto da primeira página
que não odeio os homens
que eu não agrido ninguém
mas... se me esfomeiam
como a carne de quem me despoja
e cuidado... cuida-te
de minha fome
e minha cólera.
¹ Célebre tribo da Arábia
² Lenço com desenhos quadriculados, usado para cobrir a cabeça e
que tornou-se símbolo nacional palestino pela liberdade e independência.
Originariamente, esse lenço é usado pelos camponeses para
protegerem a cabeça durante o trabalho no campo.
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Jorge Elias
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9:40 AM
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terça-feira, 13 de setembro de 2011
CIORAN E A ARTE DA PROVOCAÇÃO – por Pedro Maciel
(Publicado no caderno "Idéias/Livros", Jornal do Brasil)
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Jorge Elias
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12:29 PM
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sábado, 3 de setembro de 2011
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Cioran - História e Utopia
Vislumbro o dia em que só leremos telegramas e orações. Fato notável: quanto mais o imediato nos absorve, mais sentimos necessidade de tomar a direção oposta, de forma que vivemos, no interior do mesmo instante, dentro e fora do mundo.
Da mesma maneira, ante o desfile dos impérios, só nos resta buscar um meio-termo entre o ricto e a serenidade."
1957
Cioran E M. História e utopia; tradução de José Thomaz Brum. – Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
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Jorge Elias
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8:52 AM
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segunda-feira, 18 de julho de 2011
Àngel González
Para que yo me llame Angel González,
para que mi ser pese sobre el suelo,
fue necesario um ancho espacio
y um largo tiempo:
hombres de todo mar y toda tierra,
fértiles vientres de mujer, y cuerpos
y más cuerpos, fundiéndose incesantes
em outro cuerpo nuevo.
Solstícios y equinoccios alumbraron
com su cambiante luz, su vario cielo,
el viaje milenario de mi carne
trepando por los siglos y los huesos.
De su pasaje lento y doloroso
de su huida hasta el fin, sobreviviendo
naufrágios, aferrándose
al último suspiro de los muertos,
yo no soy más que el resultado, el fruto,
Lo que queda, podrido, entre los restos;
esto que veis aqui,
tan sólo esto:
um escombro tenaz, que se resiste
a su ruína, que lucha contra el viento,
que avanza por caminos que no llevan
a ningún sítio. El êxito
de todos los fracasos. La enloquecida
fuerza del desaliento ...
Eso no es nada
Si tuviésemos la fuerza suficiente
para apretar como es debido um trozo de madera,
sólo nos quedaria entre las manos
um poco de tierra.
Y si tuviésemos más fuerza todavía
para presionar com toda la dureza
esa tierra, sólo nos quedaría
entre lãs manos um poco de agua.
Y si fuese posible aún
oprimir el agua,
ya no nos quedaría entre las manos
nada.
Cumpleaños
Yo lo noto: cómo me voy volviendo
menos cierto, confuso,
disolviéndome en el aire
cotidiano, burdo
jirón de mí, deshilachado
y roto por los puños
yo comprendo: he vivido
un año más, y eso es muy duro.
¡mover el corazón todos los días
casi cien veces por minuto!
Para vivir un año es necesario
morirse muchas veces mucho.
El derrotado
Atrás quedaron los escombros:
humeantes pedazos de tu casa,
veranos incendiados, sangre seca
sobre la que se ceba -último buitre-
el viento.
Tú emprendes viaje hacia adelante, hacia
el tiempo bien llamado porvenir.
Porque ninguna tierra
posees,
porque ninguna patria
es ni será jamás la tuya,
porque en ningún país
puede arraigar tu corazón deshabitado.
Nunca -y es tan sencillo-
podrás abrir una cancela
y decir, nada más: «buen día,
madre».
Aunque efectivamente el día sea bueno,
haya trigo en las eras
y los árboles
extiendan hacia ti sus fatigadas
ramas, ofreciéndote
frutos o sombra para que descanses.
Otro tiempo vendrá distinto a éste...
Otro tiempo vendrá distinto a éste.
Y alguien dirá:
«Hablaste mal. Debiste haber contado
otras historias:
violines estirándose indolentes
en una noche densa de perfumes,
bellas palabras calificativas
para expresar amor ilimitado,
amor al fin sobre las cosas
todas.»
Pero hoy,
cuando es la luz del alba
como la espuma sucia
de un día anticipadamente inútil,
estoy aquí,
insomne, fatigado, velando
mis armas derrotadas,
y canto
todo lo que perdí: por lo que muero.
Son las gaviotas, amor
Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.
Mar de invierno. El agua gris
mancha de frío las rocas.
Tus piernas, tus dulces piernas,
enternecen a las olas.
Un cielo sucio se vuelca
sobre el mar. El viento borra
el perfil de las colinas
de arena. Las tediosas
charcas de sal y de frío
copian tu luz y tu sombra.
Algo gritan, en lo alto,
que tú no escuchas, absorta.
Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.
González À. Antologia poética; – Madrid: Alianza Editorial, terceira reimpressão, 2008.
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Jorge Elias
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domingo, 10 de julho de 2011
Emil Cioran - Breviário de decomposição (parte 1)
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Jorge Elias
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quarta-feira, 15 de junho de 2011
PENHOR
Dezessete anos...
Essa distância
não se mede pelo quanto de terra
cobre teus restos,
teus sonhos...
Tua sombra não tem o gosto
que meu paladar deseja.
Não lambi o granito preto
de teu túmulo;
mas sinto o gosto de cera,
que não me satisfaz – pois não
é teu gosto.
Por isso não te visito.
Meus filhos não te visitam.
Se eu morresse hoje,
e decidisse pelas cinzas,
ficarias perdido na última
alameda, à esquerda da figueira.
Nem teu relógio de ouro me serve.
Fosse de couro a pulseira,
eu a lamberia,
e ficaria refestelado,
com o sal de teu suor.
Jorge Elias Neto
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7:15 PM
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quinta-feira, 9 de junho de 2011
Sonolento
Quisera eu poder contar-te tudo, lúdico luar...
É que pálpebras me pesam de mais um dia...
Mas bem sei que, entre amantes, basta um sutil entreolhar,
para retirar dos guardados a palavra fugidia.
Mesmo assim, me esquivo dos teus olhos, cândida Lua...
É que as verdades fogem mais fácil de um olhar cansado...
Sei, entretanto, que é inútil querer poupar-te do que
[se insinua.
Em cada gesto tenso de meus dedos crispados.
Queria deitar-me em teu colo, luar idílico.
Apagar de minha mente esses pensamentos nômades;
e num ressonar de anjo te dizer de meu medo.
Só que a bruta vida que me faz ridículo
fez-me preso a esse chão de homens distantes.
Parto... outra vez sem ti... para o sono...
[com meus segredos...
Jorge Elias Neto
(Verdes versos - ed. Flor&cultura - 2007)
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quinta-feira, 2 de junho de 2011
Mesmas palavras
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Jorge Elias
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sexta-feira, 27 de maio de 2011
Silêncio
É necessário buscar espaço para o silêncio — ocupar-se dele.
Até que nada mais sobre solucionável pela palavra.
Jorge Elias Neto
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sábado, 21 de maio de 2011
Mme du Deffand - moralista francesa (séc. XVIII)
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domingo, 15 de maio de 2011
Juan Ramón Jiménez
O papagaio
Estávamos brincando com Platero e com o papagaio, no horto do meu amigo, o médico francês, quando uma mulher jovem, desordenada e ansiosa, chegou descendo a ladeira. Até antes de chegar, lançando-me o negro olhar angustiado, havia me suplicado:
- Moço, o médico está?
Atrás dela vinham umas crianças maltrapilhas, que a todo instante, ofegantes, olhavam para o alto do caminho; no fim, vários homens que traziam um outro, lívido e caído. Era um caçador furtivo, desses que caçam veados no couto de DoÑana. A escopeta, uma absurda escopeta velha amarrada com tamiça, tinha disparado, e o caçador levara o tiro no braço.
Meu amigo se aproximou do ferido, com delicadeza, levantou os trapos miseráveis que o cobriam, limpou-lhe o sangue e foi lhe tocando ossos e músculos. De vez em quando, ele me dizia:
- Ce n´est rien...
Caia a tarde. De Huelva chegava um cheiro de maresia, de breu, de peixe... As laranjeiras arredondavam, sobre o fundo do poente cor-de-rosa, seus densos veludos de esmeralda. Em um lilás, lilás e verde, o papagaio, verde e vermelho, ia e vinha, perscrutando-nos com seus olhinhos redondos.
As lágrimas que brotavam do pobre caçador enchiam-se de sol; às vezes soltava um grito sufocado. E o papagaio:
- Ce n´est rien...
Meu amigo aplicava no ferido algodões e vendas ...
O pobre homem:
- Aaai!
E o papagaio, entre os lilás:
- Ce n´est rien... Ce n´est rien...
RAMÓN JIMÉNEZ, Juan. Platero e eu, 1° ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
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Jorge Elias
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sábado, 30 de abril de 2011
Oscar Gama Filho
O AMOR NO FUTURO DO PRESENTE
Pois eu, vidente do amor que virá,
Sei que não tenho presente
de onde possa alcançar o futuro do presente,
Sei que não posso alterar o meu fado,
E sei também que posso alcançar
apenas o futuro do passado.
Estou partindo sem coche.
Há muito, desde ontem, que estou a pé
partindo até hoje.
Com um pé no passado em que fico,
Parto para o presente que renego
e para o caminho hemorrágico
de uma brisa feita de pregos.
Estou partindo à força, sem que haja passagem.
Amanhã, se você me procurar, amada do futuro rico,
Terá de gastar três dias de viagem
para chegar ao passado em que fico,
Para chegar ao passado em que fico sem nós dois.
Mas creia que, em três dias de viagem projetados para depois,
Não se acha aquele que está preso ao passado.
E eu, que um dia amarei seus lados,
Estou cercado pelos meus pés no passado e no presente,
Um rei preso que se ressente,
Estou cercado pelo meu próprio corpo,
Prisão privada que os limites do rei torto demarca e retém,
Um próprio corpo só, em que não existe mais ninguém.
E eu, que um dia a amaria,
que meu corpo estende
no tempo que meu corpo fia.
TEMPO DE MORTOS
Escute, Oscar, com calma me ouça.
Não se emocione sempre e tanto assim.
Este não é um tempo de poetas,
Este não é um tempo de rimas,
Este é um tempo de mortos:
Todos estão empenhados em matar os outros
e em matar a si mesmos,
O amor se tornou um tipo especial de bolsa de valores
a que apenas os ingênuos se dedicam,
Teóricos se empenham em provar que a arte está morta
e que todas as relações, possibilidades e esperanças morreram.
A você, que um dia se mata
mas em outro ressurge,
Cabe a tarefa necessária mas impossível
de ressuscitar os mortos.
Não se assuste com a responsabilidade.
Principalmente, não a leve tão a sério,
Ou correrá o risco de matar e de ser morto.
Arme-se todo de doçura, de ingenuidade, de pureza
e de crença no homem.
Olhe-os nos olhos, como você faz, e eles tremerão.
Verdade, aquilo que você oferece de melhor
e do modo mais amoroso
será alvo de deboche.
Seu nome será arrastado pelas bocas
e seu corpo será esticado nas masmorras
em tom de escárnio.
Palavras duras como pedras serão atiradas.
O alvo, você bem sabe, será sua cabeça
e, principalmente, sua alma
e este seu estranho sentimento do mundo.
Ofereça sua alma e sua emoção aos homens de pedra.
Não tente se desviar dos projéteis.
São mísseis infalíveis teleguiados
atraídos pelo calor da vida que destroem.
Messiânicos e dogmáticos, eles têm uma missão a cumprir.
A única coisa que poderá detê-los é seu sangue.
Com amor, ofereça-lhes o peito, dê-lhes de beber.
É justo: têm sede e são insaciáveis.
E você, Oscaro, é inesgotável.
Pelo menos até um dia se esgotar.
A música em verso do seu sangue
acalmará até mesmo os animais
e lhes restituirá a vitalidade perdida.
Sim, são mortos-vivos, mas o sangue dos poetas
é libertador, delicioso e ressuscita.
Sei, bem sei que seu sonho é não mais escrever,
É abandonar a pena dos outros
e, como os outros, morrer
para o que realmente se vive.
Por que você escreve tanto, então?
Calma, amigo insone, recupera a paz
e não deixa de fazer o que te faz.
Só assim, tranqüilo e sempre-vivo,
Um dia — profundamente — dormirás.
Oscar Gama Filho nasceu em Alegre, E.S., em 31 de março de 1958. Publicou seus poemas em De Amor à Política, 1979; em Congregação do Desencontro, 1980, em O Despedaçado ao Espelho, 1988 e em O Relógio Marítimo, pela Imago, em 2001. Procurou o tempo perdido em obras como História do Teatro Capixaba: 395 Anos, 1981, Teatro Romântico Capixaba, publicado pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas, em 1987, e Razão do Brasil, lançado pela José Olympio Editora em 1991. Traduziu-se para Rimbaud no conto-poema-ensaio-tradução-crítica Eu Conheci Rimbaud, de 1989. Realizou a exposição de arte ambiental poético-plástica Varais de Edifícios, em 1978, e gravou o disco Samblues, em 1992 — incluído no selo histórico Série Fonográfica do Espírito Santo. Em 2005, lançou o CD Antes do Fim-Depois do Começo, contendo músicas em parceria com Mario Ruy. Dirigiu suas peças teatrais A Mãe Provisória, em 1978, e Estação Treblinka Garden, em 1979. Pertence à Academia Espírito-santense de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico. Profissionalmente, é psicólogo clínico.
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Jorge Elias
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segunda-feira, 18 de abril de 2011
Uma carteira e seus sentidos
Observe essa carteira vazia
– ociosa –
desocupada.
Entre na dimensão do absurdo
– no que se contorce –
e resvala,
e desperta,
e nos cala.
Observe essa carteira vazia
–ruidosa–
maculada.
Ventre da omissão confusa
– que nos paralisa –
e enoja,
e perpassa ,
e retalha.
Observe essa carteira vazia
– poderosa –
enfeitada.
Lembre da profusão do sangue
– que se dispersa –
e tinge,
e respinga,
e nos entala.
Observe essa carteira vazia
– fervorosa –
devotada.
Sente a celebração da loucura
– que consente –
e trucida,
e cega,
e nos abala.
Observe essa carteira vazia
– tenebrosa –
mal fadada.
Sente a emanação do ódio
– que se alastra –
e devora,
e abraça,
e nos transpassa.
Observe essa carteira vazia
– silenciosa –
abandonada.
Crente na devassidão do mundo
– que surpreende –
e ignora,
e reproduz,
e nos arrasa.
Observe essa carteira vazia
– deliciosa –
delicada.
Prenhe de ilusão confusa
– que consente –
e insinua,
e seduz,
e nos agarra.
Observe essa carteira vazia
– espaçosa –
desejada.
Crente na criação do sonho
– que compreende –
e ama,
e perdoa,
e nos concede a graça.
Jorge Elias Neto
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Jorge Elias
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domingo, 10 de abril de 2011
Maria
que te encontrei Maria...
Não fosse tão arredia,
não fosse assim – quieta –
até compreenderia
a sua boca aberta,
a sua timidez úmida.
E foi seguindo o dia
que te apreendi Maria ...
Em minhas calças abertas,
Suas mãos buliam, vadias.
Por que tu rias, Maria...
Por que tu rias, Maria ...
E foi seguindo a arrelia.
Ninguém nos interrompia.
Na boca eu te mordia
Na boca você cuspia.
Não te entendo Maria ...
Não te entendo Maria ...
E foi seguindo a folia.
Na rua, o cordel seguia.
Só eu me surpreendia.
O gozo que escorria
de sua boca imensa,
de sua boca macia.
Case comigo Maria....
Case comigo Maria ...
E foi seguindo a orgia...
A noite já se esvaia.
De pé, já não me agüentava.
No corpo, uma brisa fria
e o suor se derramava.
E este sangue Maria?
E este sangue Maria?
E foi seguindo a alegria.
A imagem se dissipava.
No chão, já me estendia,
e Maria se derramava.
Então és virgem, Maria?
Será possível Maria?
E foi seguindo agonia.
Uma multidão imensa
de mim se aproximava.
Eu só queria Maria,
que de mim se apartava.
Vida vazia Maria...
Fica comigo Maria!
Fica comigo Maria!
Enfim entendi – a vadia
vida que se encerrava.
Maria não era donzela;
Maria sequer podia
dizer-se minha amada.
Maria não existia,
foi-se na madrugada.
Jorge Elias Neto
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quinta-feira, 7 de abril de 2011
MANUAL DE PONTUAÇÃO - JOSÉ AUGUSTO CARVALHO
Tamanho é o dinamismo deste Portal que tornou-se uma necessidade para os que pretendem manter-se atualizados à respeito do que de mais novo e fundamental vem sendo publicado nos Países de língua portuguesa. E eis mais uma novidade que só faz confirmar essa afirmativa, tantas vezes repetidas no Café Cronópios: A publicação, em 12 capítulos semanais, do Pequeno Manual de Pontuação em Português escrito pelo linguista José Augusto Carvalho.
Não vou me estender dizendo de minha amizade e admiração por este excepcional conhecedor de nossa língua. Deixo aqui o convite para que os leitores acessem o manual.
Boa leitura para todos!
Apresentação: http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4970
Manual - parte 1: http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4971
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segunda-feira, 4 de abril de 2011
Elton Pinheiro
Canto
Um
rosto descarnado percorre
a rua dos loucos
... rua dos barulhos moucos;
escuta o não falado, anda nu
e abandona os doutos, de copo e cana
na academia ensinando angu.
Mestres no Boulevard com Dulcce & Garbana,
seus rostos alvos, grandes Alexandres
altivos, depois parecem vários Dantes,..
sentem o gosto de Chivas nos odres,
babam as pernas boas das estudantes.
Sem desejo o abissal os deprava
na estória de suas vidas sem dolo.
Para a moral que a castidade lava
roubam das ninfas o seu colo,
para o sonho das raparigas em flor algo dava
aos seus carrosséis corcéis alados...
Para a outra carne de sua lava
o punho escroto dos soldados.
Ele espera o muting e canta ex...
o descontrole futuro do prazer de santo.
A donzela que grita em muitas tvs
É a vítima intensa de seu único canto
e bordava uma noite com duas luas
nas mãos de marfim.
Ele espera uma noite de todas as ruas
no louvor alado de um querubim.
Pela aldeia, no meio das casas
sua voz ecoa. Trazem-lhe a peste na flor
do campo que Freud as Moiras com asas
enquanto a histeria goza olor.
Por que a túnica de José o vestia?
Joio de seu próprio trigo; sacramento...
Quando o último sábio ele consumia
entregava-lhe seu entretenimento,
quando o sonho do barro brilhava
sonhava com asas de um monumento...
para todas as coisas ele inventava
as asas que Hermes roubou do vento,
e as cidades que sempre cantava
existiam numa constelação sem alento
até quando alta noite o mundo descansava
e as estrelas eram seu talento.
Acendei... crivai de luzes o teto
onde a caravana branca atravessa.
No espetáculo roto de tudo exceto
o outro tudo de outra estória nessa
e os heróis digam que suas glórias
estavam escritas nos autos
e que desde sempre se foram em memórias
de párocos, gênios, mendigos, arautos
e que desde sempre morrem de tarde
quando já nem existe por que morrer...
Enlouquecei... acendei o covarde
medo de viver.
Um
rosto descarnado percorre
a rua dos loucos
...rua dos barulhos moucos;
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terça-feira, 29 de março de 2011
Le bruit d’absence
Esperança é uma simples questão
de instinto de sobrevivência.
Mangas curtas.
Mãos sujas – postas –
sob o pano verde.
Cartas esparramadas.
No assoalho – o redemoinho –
espiral ao avesso.
Boca larga, a da sombra...
Escondida,
entre longos dedos.
Copo emborcado.
Guimba pendurada
na boca murcha.
(Como é bela e inútil
a centelha do último cigarro).
Barba imunda,
ralando a ferrugem
da mesa da Brahma.
(Qual vício
substituirá o desespero?)
Ossos – despojos – largados.
Ponte pênsil,
de trêmulos pingentes,
a pressagiar o
chão que se abisma.
(Soluços e baba
dizem da metafísica.)
Arrepio.
Catar gargalhadas
nas vagas que já
recolhe o corpo
(que se distancia.)
E as bordas do sol
roçando o horizonte.
(tempo de crendice,
de terço).
Humores, farrapos,
cachaça.
Rumores, gargalos,
cabaços.
Batuques, bagulhos,
Carcaça...
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Jorge Elias
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sexta-feira, 11 de março de 2011
CONVITE PARA LEITURA
O Portal Cronópios de Literatura Brasileira publicou o ensaio de minha autoria denominado:
"Para tudo existe um peso, uma medida, e uma visão distorcida - Considerações sobre Vanguarda e Tradição na poesia brasileira".
Convido para leitura no endereço: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4920
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Jorge Elias
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quinta-feira, 3 de março de 2011
Poema justo
Não fechar a frase, não.
Deixar a palavra ao relento.
Miguel Marvilla
Raspar as sobras
da imagem – nata
– gordura –
o escorregadio da margem.
O liso da casca.
A paisagem.
Da palavra – o inesperado –
a calda – rasgos e fendas.
Na vastidão – passagem.
Rever emendas.
Acumular entulhos –
vazios.
Cobrir de aragem.
Recolher do baixio – memórias –
aboios –
arrelias.
Desviar das têmporas –
O estampido – tiro –
peleja
de louco!
Repousar no estio.
Aconchego – relento.
Remover farpas – asperezas –
ao vento.
Lambuzar com visgo – isca –
voragem.
Revolver o leitor
no espaço-tempo.
Disparar a contagem.
No continente dos olhos –
despertar do torpor...
A linguagem.
Jorge Elias Neto
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Jorge Elias
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7:49 PM
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