terça-feira, 27 de setembro de 2011

A NECESSIDADE DA POESIA - José Augusto Carvalho


Quem escreve – ainda que um simples bilhete – tenta afastar-se do falar cotidiano, tenta usar uma linguagem diferente da que está habituado a usar. E escrever poemas é distanciar-se ainda mais da fala do dia a dia. É trabalhar a língua, é subverter a sintaxe, é falar à alma. Por isso, as primeiras manifestações literárias de um povo costumam ser em versos. Quando não havia escrita, as histórias se contavam em poemas, porque as rimas ajudavam no processo de memorização e facilitavam a transmissão da cultura, de geração a geração. A perpetuação da ficção da comunidade ágrafa e da sua cultura – essa terá sido a primeira função da poesia.
Penso nisso agora, ao reler o artigo que (pasmem!), um poeta escreveu no caderno Mais!, de 26-01-97, na Folha de São Paulo. Refiro-me ao artigo “A necessidade atual da inútil poesia”, de Régis Bonvicino, em que ele diz, entre outras coisas:
“A poesia não tem, propriamente, uma função. Ela é inútil (...). Sua inutilidade atravessa regimes políticos diversos, bem como Economias (...). Talvez a poesia tenha uma função no quadro das artes e da cultura: a de ser manifestação inútil (“Teoria do inutensílio”, de Paulo Leminski), sem presença no dia a dia das pessoas, o que lhe confere liberdade e arbitrariedade. (...). A poesia está – hoje – dissociada da evolução das línguas. Não tem, assim, nem mesmo sua antiga função de estimular uma língua (sic!) – papel desempenhado pela televisão, pelo rádio, pelos jornais e um pouco pelo cinema. Há um esvaziamento da poesia neste final de século e de milênio.”
E por aí vai. A citação é longa, mas vale para mostrar que o primeiro grande equívoco do articulista foi confundir a poesia (o conteúdo) com o poema (a forma). A poesia existe em toda parte, em todo lugar, em todos os momentos. Compete ao poeta captá-la e transpô-la para o livro, ou para o filme, ou para a televisão, ou para a música, ou para a dança, ou para o rádio... O poeta é o que vê poesia onde o comum dos mortais não vê nada, além do trivial. Baudelaire viu-a no escatológico; Augusto dos Anjos, num escarro de sangue; Castro Alves, na ânsia de liberdade e de igualdade entre os homens. Gérard de Nerval viu na borboleta um traço de união entre a flor e o passarinho, e a borboleta ficou mais bonita para quem passou a ver nela isso também. Como seria a História do Brasil sem os poemas de Castro Alves, contra a escravidão? Como seria a História do Mundo sem os versos da “Chanson d’automne”, de Paulo Verlaine, que serviram de código para informar a resistência sobre a invasão aliada, na II Guerra Mundial? Ou sem os acordes iniciais da Quinta Sinfonia de Beethoven, que, casualmente, reproduzem a letra V de Vitória, segundo o código Morse (três notas breves e uma longa) e que, por isso, também serviram de aviso aos aliados?
O poeta vê o que nós não vemos, e revela-nos a beleza que existe no mundo que nos cerca, tornando-o melhor e mais habitável. Essa beleza escondida é a poesia revelada. Poesia é a visão bonita que Orestes Barbosa, na canção Chão de estrelas, nos transmite da lua que fura o telhado de zinco do barraco pobre e salpica de estrelas o chão que a morena pisa distraidamente. Poesia é a beleza que Vittorio de Sicca revela na cena final do seu filme Ladrões de bicicleta, ao mostrar o rosto endurecido da criança, subitamente transformada em adulto, a conduzir pela mão o pai desesperado e envergonhado por ter sido flagrado pela multidão quando roubava uma bicicleta para trabalhar. Poesia é o drama, mostrado pela televisão, em novembro de 1985, da menininha colombiana Omaira Sanchez, de apenas 13 anos, vítima da erupção do Nevado del Ruiz, ao morrer de hipotermia, soterrada num buraco cheio de lama e de pedras, acenando com esperança de vida para as câmeras que a focalizavam para o mundo inteiro.
A poesia é necessária, porque nos revela, como as lentes dos óculos de quem tem problemas visuais, um mundo de maravilhas que não saberíamos ver sem ela. Além disso, escrever poemas, vale dizer, tentar revelar a poesia do mundo aos outros, é uma forma também de terapia ocupacional, hoje adotada por psicólogos, por psiquiatras e por todos os que se dedicam aos ortopedismos da mente humana. E, posto que não tivesse função pragmática, a poesia seria necessária, porque não haveria sentido nenhum numa vida que se fechasse ao Belo.
Que me desculpe o pobre poeta articulista Régis Bonvicino, mas a poesia é tão importante e necessária que os homens se matam, a si e aos outros, quando não conseguem vê-la ou descobri-la.
Como eu.

José Augusto Carvalho: Escritor, tradutor, jornalista e professor universitário, José Augusto Carvalho é mineiro de nascimento e capixaba por adoção. Um dos principais lingüistas do Brasil.Bacharel e licenciado em Letras Neolatinas, também é mestre em Lingüística pela Unicamp e doutor em Letras pela USP. Atua principalmente como professor, mas traduz desde a década de 1970 textos do francês, inglês e italiano. Possui uma extensa obra publicada tendo também realizado traduções para as principais editoras do País.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sonho no absurdo

Ilustração: Felipe Stefani

                                                 Não tirem do poeta a visão;
                                                 podem condená-lo à loucura
                                                do mergulho no poema sem fim.

I

O poeta sabe a textura exata do sonho.


E por perceber que os números são símbolos
que poderiam arrastar seu povo,
foi o primeiro a se equilibrar nos destroços.


Não azulava as dúvidas com preces
e entendia a sujeira como um vício da realidade.


Caminhando em silêncio,
observou que a ausência de espaço
não havia poupado nem mesmo as sombras.


Homens desencontrados
cruzaram o limite da incerteza
e bradavam:


– Não pedi esse conflito.
Mas, na dúvida,
deixo a arma engatilhada!


Nunca foi do poeta o primeiro momento...

II


Aos primeiros que o ouviram disse:
– Se abuso daqui à esquina de minha casa,
perco o controle do dia.


– A vida é ritual de pontes.
Vejo triste que, entre o dito e o pensado,
ficou uma ponte tombada.


– Hoje massacraram nossas verdades,
e enxergamos o abismo.


Choraram juntos a mais temida das mortes.


III


O poeta sente o absurdo do tempo humano.


O homem aquietará.
E juntos, todos os ponteiros
deixarão de ter sentido.


É do homem buscar refúgio nos dias.

IV

Nos escombros,
na esquina antes sem luz,
sentaram as crianças.


Diante delas
o poeta circundou com o dedo
seu corpo na areia.


Com um salto
surpreendeu-as com a facilidade
que superou o limite de sua prisão.


O poeta percebe o momento exato do nascimento do sonho.


Jorge Elias Neto
(Rascunhos do absurdo - 2010)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Mahmoud Darwich


Carteira de identidade



              Mahmoud Darwich


Registra-me!
sou árabe
número de minha identidade é cinqüenta mil
tenho oito filhos
e o nono... virá logo depois do verão!
vais te irritar por acaso?
Registra-me!
sou árabe
trabalho com meus companheiros de luta
em uma pedreira
tenho oito filhos
arranco pedras
o pão, as roupas, os cadernos
e não venho mendigar em tua porta
e não me dobro
diante das lajes de teu umbral
vais te irritar por acaso?


Registra-me!
sou árabe
meu nome é muito comum
e sou paciente
em um país que ferve de cólera
minhas raízes...
fixadas antes do nascimento dos tempos
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e oliveiras
antes do crescimento vegetal
meu pai... da família do arado
e não dos senhores do Nujub¹
e meu avô era camponês
sem árvore genealógica
minha casa
uma cabana de guarda
de canas e ramagens
satisfeito com minha condição
meu nome é muito comum


Registra-me
sou árabe
sou árabe
cabelos... negros
olhos... castanhos
sinais particulares
um kuffiah² e uma faixa na cabeça
as palmas ásperas como rochas
arranharam as mãos que estreitam
e amo acima de tudo
o azeite de oliva e o tomilho
meu endereço
sou de um povoado perdido... esquecido
de ruas sem nome
e todos os seus homens... no campo e na pedreira
amam o comunismo
vais te irritar por acaso?


Registra-me
sou árabe
tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados
e da terra que cultivava
com meus filhos
e não os deixastes
nem a nossos descendentes
mais que estes seixos
que nosso governo tomará também
como se diz
vamos!
escreve
bem no alto da primeira página
que não odeio os homens
que eu não agrido ninguém
mas... se me esfomeiam
como a carne de quem me despoja
e cuidado... cuida-te
de minha fome
e minha cólera.


¹ Célebre tribo da Arábia
² Lenço com desenhos quadriculados, usado para cobrir a cabeça e
que tornou-se símbolo nacional palestino pela liberdade e independência.
Originariamente, esse lenço é usado pelos camponeses para
protegerem a cabeça durante o trabalho no campo.



terça-feira, 13 de setembro de 2011

CIORAN E A ARTE DA PROVOCAÇÃO – por Pedro Maciel

Filósofo do tédio traça perfis de escritores como Beckett e Borges e se revela a si mesmo ao desvendar seus universos literários


Pedro Maciel

O tédio alimenta o pessimismo. Segundo Cioran “o pessimista deve inventar para si mesmo, a cada dia, outras razões para existir: é uma vítima do sentido da vida”. Entedia-se diante da vida aquele que busca revelar o tempo. “Entediar-se é mascar tempo”. A experiência do tédio nos leva a perambular através do tempo exasperado. A vida só é possível porque não temos consciência dos momentos que passam.
E. M. Cioran (1911-1995), o filósofo do tédio e do êxtase, mestre da desesperação, apresenta em “Exercícios de Admiração”, ensaios e perfis de escritores, filósofos e poetas. As divagações são “exercícios de aprofundamento do conhecimento de si”, um auto-retrato, como no ensaio dedicado a Michaux: “Não tendo nem a sorte nem o azar de se fixar no absoluto, se inventa abismos, suscita sempre novos, mergulha neles e os descreve.“
E prossegue: “Assim conseguiu, com suas inquietações metafísicas, com suas inquietações simplesmente, permanecer _ pela obsessão do conhecimento _ exterior a si mesmo. Enquanto nossas contradições e nossas incompatibilidades nos escravizam e nos paralisam com o tempo, ele conseguiu se tornar senhor das suas, sem escorregar para a sabedoria, sem se afundar nela."
Cioran herdou a descrença de Nietzsche e a forma de narrar de La Rochefoucauld e Pascal, inspirou-se nos filósofos místicos e foi guiado pelos poetas: “Embora freqüentasse os místicos, no meu foro íntimo estive sempre do lado do demônio: não podendo me igualar a ele pela força, tentei ser equivalente ao menos pela insolência, pela aspereza, pelo arbítrio e pelo capricho.”
Em “Exercícios de Admiração”, o autor de aforismos, silogismos e breviários, desvenda o universo literário de Samuel Beckett, autor de Malone Morre: “Muitas de suas páginas me soam como um monólogo após o fim de algum período cósmico. Sensação de entrar num universo póstumo, em alguma geografia imaginada por um demônio, livre de tudo, até mesmo de sua maldição”. Uma das falas do protagonista Malone sintetiza o pensamento de Beckett: “O tempo que temos para passar na terra não é tão longo para que o utilizemos em outra coisa além de nós mesmos”.
Já no perfil de Jorge Luis Borges, Cioran descreve o autor argentino como um intelectual sem pátria, um aventureiro, um “monstro magnífico e condenado”, alguém que poderia “tornar-se um símbolo de uma humanidade sem dogmas nem sistemas e, se existe uma utopia que subscreveria de bom grado, seria aquela em que cada um o tomasse como o modelo, um dos espíritos menos pesados que já existiram, o último dos delicados”.
Há outros ensaios, exercícios, evocações que ajudam a traçar o percurso existencial de Cioran. O filósofo retrata o seu ídolo de juventude, Otto Weinninger, analisa a obra de Joseph de Maistre, o reacionário que defendia a Inquisição, relembra a amizade com Benjamin Fiondane, o judeu romeno discípulo de Léon Chestov, entre outros retratos literários.
Cioran revela-se por inteiro através dos retratos dos seus interlocutores. O filósofo se revela ao desvendar os outros. Segundo Saint-Beuve, o portrait littéraire é uma forma utilizada “para produzir nossos próprios sentimentos sobre o mundo e sobre a vida, para exalar com subterfúgio uma certa poesia oculta.”
A arte da provocação de Cioran encontra-se também em Baudelaire, poeta da “franqueza absoluta”, dos Fusées e de Meu coração desnudado: “O que consideramos verdadeiro devemos dizê-lo e dizê-lo corajosamente. Gostaria de descobrir, mesmo se me custasse caro, uma verdade que chocasse todo o gênero humano. Eu a diria à queima-roupa”.



‘Escrevo para me aliviar’

Só tenho vontade de escrever num estado explosivo, na excitação ou na crispação, num estupor transformado em frenesi, num clima de ajuste de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes. (...) Escrevo para não passar ao ato, para evitar uma crise. A expressão é alívio, desforra indireta daquele que não consegue digerir uma vergonha e que se revolta em palavras contra os seus semelhantes e contra si mesmo. A indignação é menos um gesto moral que literário, é mesmo a mola da inspiração. E a sabedoria? É justamente o oposto. O sábio em nós arruina todos os nossos élans, é o sabotador que nos enfraquece e nos paralisa, que espreita em nós o louco para dominá-lo e comprometê-lo, para desonrá-lo. A inspiração? Um desequilíbrio súbito, volúpia inominável de se afirmar ou de se destruir. Não escrevi uma única linha na minha temperatura normal. (...) Escrever é uma provocação, uma visão infelizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante, algumas vezes odiosa. Nada mais miserável do que a palavra, e no entanto, é através dela que atingimos sensações de felicidade, uma dilatação última em que estamos completamente sós, sem o menor sentimento de opressão. O supremo alcançado pelo vocábulo, pelo próprio símbolo da fragilidade! Pode-se alcançá-lo também, curiosamente, através da ironia, com a condição de que esta, levando ao extremo sua obra de demolição, cause arrepios de um deus às avessas. As palavras como agente de um êxtase invertido... Tudo o que é realmente intenso participa do paraíso e do inferno, com a diferença de que o primeiro só podemos entrevê-lo, enquanto o segundo temos a sorte de percebê-lo e, mais ainda, de senti-lo. Existe uma vantagem ainda mais notável de que o escritor tem o monopólio: a de se livrar de seus perigos. Sem a faculdade de encher as páginas me pergunto o que eu viria a ser. Escrever é desfazer-se de seus remorsos e rancores, vomitar seus segredos. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas ficções que são as palavras para se curar. Quantas angústias, quantas crises sinistras venci graças a esses remédios insubstanciais!

(Confissão Resumida, páginas 123 e 124; “Exercícios de Admiração”, de E. M. Cioran – Editora ROCCO)


(Publicado no caderno "Idéias/Livros", Jornal do Brasil)


Pedro Maciel é autor dos romances “Previsões de um cego”, (ed. LeYa 2011), “Retornar com os pássaros”, (ed. LeYa 2010),“Como deixei de ser Deus”, (ed. Topbooks 2009) e “A hora dos Náufragos”, (ed. Bertrand Brasil 2006).





sábado, 3 de setembro de 2011

Obliquo

Cada qual tem seu Vesúvio,
seu desterro,
e sua gleba nas nuvens...

Jorge Elias Neto

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Cioran - História e Utopia

"No ponto em que as coisas se encontram, só merecem interesse as questões de estratégia e de metafísica, aquelas que nos fixam na história e as que nos afastam dela: a atualidade e o absoluto, os jornais e os Evangelhos...
Vislumbro o dia em que só leremos telegramas e orações. Fato notável: quanto mais o imediato nos absorve, mais sentimos necessidade de tomar a direção oposta, de forma que vivemos, no interior do mesmo instante, dentro e fora do mundo.
Da mesma maneira, ante o desfile dos impérios, só nos resta buscar um meio-termo entre o ricto e a serenidade."

1957

Cioran E M. História e utopia; tradução de José Thomaz Brum. – Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Àngel González

[ Para que yo me llame Ángel González]

Para que yo me llame Angel González,
para que mi ser pese sobre el suelo,
fue necesario um ancho espacio
y um largo tiempo:
hombres de todo mar y toda tierra,
fértiles vientres de mujer, y cuerpos
y más cuerpos, fundiéndose incesantes
em outro cuerpo nuevo.
Solstícios y equinoccios alumbraron
com su cambiante luz, su vario cielo,
el viaje milenario de mi carne
trepando por los siglos y los huesos.
De su pasaje lento y doloroso
de su huida hasta el fin, sobreviviendo
naufrágios, aferrándose
al último suspiro de los muertos,
yo no soy más que el resultado, el fruto,
Lo que queda, podrido, entre los restos;
esto que veis aqui,
tan sólo esto:
um escombro tenaz, que se resiste
a su ruína, que lucha contra el viento,
que avanza por caminos que no llevan
a ningún sítio. El êxito
de todos los fracasos. La enloquecida
fuerza del desaliento ...


Eso no es nada

Si tuviésemos la fuerza suficiente
para apretar como es debido um trozo de madera,
sólo nos quedaria entre las manos
um poco de tierra.
Y si tuviésemos más fuerza todavía
para presionar com toda la dureza
esa tierra, sólo nos quedaría
entre lãs manos um poco de agua.
Y si fuese posible aún
oprimir el agua,
ya no nos quedaría entre las manos
nada.


Cumpleaños

Yo lo noto: cómo me voy volviendo
menos cierto, confuso,
disolviéndome en el aire
cotidiano, burdo
jirón de mí, deshilachado
y roto por los puños
yo comprendo: he vivido
un año más, y eso es muy duro.
¡mover el corazón todos los días
casi cien veces por minuto!

Para vivir un año es necesario
morirse muchas veces mucho.


El derrotado

Atrás quedaron los escombros:
humeantes pedazos de tu casa,
veranos incendiados, sangre seca
sobre la que se ceba -último buitre-
el viento.

Tú emprendes viaje hacia adelante, hacia
el tiempo bien llamado porvenir.
Porque ninguna tierra
posees,
porque ninguna patria
es ni será jamás la tuya,
porque en ningún país
puede arraigar tu corazón deshabitado.

Nunca -y es tan sencillo-
podrás abrir una cancela
y decir, nada más: «buen día,
madre».
Aunque efectivamente el día sea bueno,
haya trigo en las eras
y los árboles
extiendan hacia ti sus fatigadas
ramas, ofreciéndote
frutos o sombra para que descanses.


Otro tiempo vendrá distinto a éste...

Otro tiempo vendrá distinto a éste.
Y alguien dirá:
«Hablaste mal. Debiste haber contado
otras historias:
violines estirándose indolentes
en una noche densa de perfumes,
bellas palabras calificativas
para expresar amor ilimitado,
amor al fin sobre las cosas
todas.»
Pero hoy,
cuando es la luz del alba
como la espuma sucia
de un día anticipadamente inútil,
estoy aquí,
insomne, fatigado, velando
mis armas derrotadas,
y canto
todo lo que perdí: por lo que muero.


Son las gaviotas, amor

Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.
Mar de invierno. El agua gris
mancha de frío las rocas.
Tus piernas, tus dulces piernas,
enternecen a las olas.
Un cielo sucio se vuelca
sobre el mar. El viento borra
el perfil de las colinas
de arena. Las tediosas
charcas de sal y de frío
copian tu luz y tu sombra.
Algo gritan, en lo alto,
que tú no escuchas, absorta.
Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.

González À. Antologia poética; – Madrid: Alianza Editorial, terceira reimpressão, 2008.

domingo, 10 de julho de 2011

Emil Cioran - Breviário de decomposição (parte 1)


“ O plural implícito de “se” e o plural confessado do “nós” constituem o refúgio confortável da existência falsa. Só o poeta assume a responsabilidade do “eu”, só ele fala em seu próprio nome, só ele tem o direito de fazê-lo. A poesia se degrada quando torna-se permeável à profecia ou à doutrina: a “missão” sufoca o canto, a idéia entrava o vôo. O lado “generoso” de Shelley torna caduca a maior parte de sua obra: Shakespeare, felizmente, nunca “serviu” para nada.
O triunfo da autenticidade tem seu acabamento na atividade filosófica, esta complacência no “se”, e na atividade profética (religiosa, moral ou política), esta apoteose do “nós”. A definição é a mentira do espírito abstrato; a fórmula inspirada, a mentira do espírito militante: uma definição encontra-se sempre na origem de um templo; uma fórmula reúne inelutavelmente os fiéis. Assim começam todos os ensinamentos.
Como não se voltar então para a poesia? Ela tem – como a vida – a desculpa de não provar nada.”

“ Escrever seria um ato insípido e supérfluo se pudéssemos chorar à vontade, e imitar as crianças e as mulheres tomadas pelo furor... Na matéria de que somos moldados, em sua mais profunda impureza, encontra-se um princípio de amargura que só as lágrimas suavizam. Se cada vez que os desgostos nos assaltam tivéssemos a possibilidade de nos livrar deles pelo pranto, as doenças vagas e a poesia desapareceriam. Mas uma reticência inata, agravada pela educação, ou um funcionamento defeituoso das glândulas lacrimais, condena-nos ao martírio dos olhos secos. Aliás, as tempestades de pragas, a automaceração e as unhas cravadas na carne, com as consolações de um espetáculo de sangue, não figuram mas entre nossos procedimentos terapêuticos."

O EQUIVOCO DO GÊNIO

“Toda inspiração procede de uma faculdade de exagero: o lirismo – e todo o mundo da metáfora – seria uma excitação lamentável sem esse ardor que incha as palavras até fazê-las estourar. Quando os elementos ou as dimensões do cosmo parecem demasiado reduzidos para servir de termos de comparação a nossos estados, a poesia só espera – para superar sua fase de virtualidade e de iminência – um pouco de claridade nas emoções que a prefiguram e a fazem nascer. Não há verdadeira inspiração que não surja da anomalia de uma alma mais vasta que o mundo ... No incêndio verbal de Shakespeare e de um Shelley, sentimos a cinza das palavras, resíduo e traço da impossível demiurgia. Os vocábulos se incrustam uns nos outros, como se nenhum pudesse alcançar o equivalente da dilatação interior; é a hérnia da imagem, a ruptura transcendente das pobres palavras, nascidas do uso cotidiano e alçadas milagrosamente às alturas do coração.
As verdades da beleza nutrem-se de exageros que, ante um pouco de análise, revelam-se monstruosos e ridículos. A poesia: divagação cosmogônica do vocabulário ... Já se combinou mais eficazmente o charlatanismo e o êxtase? A mentira, fonte das lágrimas!, esta é a impostura do gênio e o segredo da arte. Ninharias infladas até o céu; o inverossímil, gerador de universos! É que em todo gênio coexiste um marselhês e um Deus.”

Cioran E M. Breviário de decomposição; tradução de José Thomaz Brum. – Rio de Janeiro: Rocco, 2011.





quarta-feira, 15 de junho de 2011

PENHOR

                       Para Gabriel, meu pai


Dezessete anos...
Essa distância
não se mede pelo quanto de terra
cobre teus restos,
teus sonhos...


Tua sombra não tem o gosto
que meu paladar deseja.
Não lambi o granito preto
de teu túmulo;
mas sinto o gosto de cera,
que não me satisfaz – pois não
é teu gosto.
Por isso não te visito.
Meus filhos não te visitam.
Se eu morresse hoje,
e decidisse pelas cinzas,
ficarias perdido na última
alameda, à esquerda da figueira.


Nem teu relógio de ouro me serve.
Fosse de couro a pulseira,
eu a lamberia,
e ficaria refestelado,
com o sal de teu suor.


Jorge Elias Neto

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sonolento


Quisera eu poder contar-te tudo, lúdico luar...
É que pálpebras me pesam de mais um dia...
Mas bem sei que, entre amantes, basta um sutil entreolhar,
para retirar dos guardados a palavra fugidia.


Mesmo assim, me esquivo dos teus olhos, cândida Lua...
É que as verdades fogem mais fácil de um olhar cansado...
Sei, entretanto, que é inútil querer poupar-te do que
                                                         [se insinua.
Em cada gesto tenso de meus dedos crispados.

Queria deitar-me em teu colo, luar idílico.
Apagar de minha mente esses pensamentos nômades;
e num ressonar de anjo te dizer de meu medo.


Só que a bruta vida que me faz ridículo
fez-me preso a esse chão de homens distantes.
Parto... outra vez sem ti... para o sono...
                                         [com meus segredos...

Jorge Elias Neto
(Verdes versos - ed. Flor&cultura - 2007)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mesmas palavras

Muitas vezes, uma avaliação mais simplória, feita sobre a palavra, nos faz pensar ser impossível algo de novo – todas as palavras já foram ditas – salvo raros neologismos, por vezes até brilhantes. Posso assim desistir e encerrar por aqui este texto. Mas isso é um sofisma. Isso só seria verdade se considerássemos a palavra existindo sem o homem para nortear seus caminhos e sentidos.
Cada boca sabe de sua palavra. A palavra esta sujeita a toda a mecânica respiratória, ao vibrar das cordas vocais; ao segundo sentido do canto dos lábios. Todo invólucro humano se expressa através da palavra ofertada, da palavra jogada, da palavra beijada, da palavra interrompida ao meio (mas mesmo assim entendida), por conta de um arrependimento tardio.
Uma mesma palavra pode ter seu sentido alterado na dependência se proferida revestida pelo vermelho do entardecer do verão ou no calor entre dois olhos aferventados de ódio.
A palavra goza do paradoxo de ser atemporal e, ao mesmo tempo, ser sujeita às tempestades do instante. A palavra pode ser verdade, pode ser mentira; mas geralmente é revestida de sedução, podendo assim ser classificada como meia-verdade.
Já a palavra, quando escrita, fica a mercê da capacidade de quem a garimpa, de quem a transfigura em arte: a palavra bem escrita é a própria arte.
Pois bem, eu saúdo as palavras.
Palavras ... Razão pela qual venho degladiando com minhas limitações, tentando elaborar algo que realmente me faça sentido.

Jorge Elias Neto

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Silêncio


É necessário buscar espaço para o silêncio — ocupar-se dele.
Até que nada mais sobre solucionável pela palavra.

Jorge Elias Neto

sábado, 21 de maio de 2011

Mme du Deffand - moralista francesa (séc. XVIII)


" [...]
A mim me cabe falar-vos deste mundo de cá. Em primeiro lugar digo-vos que ele é detestável, abominável etc. Há pessoas virtuosas, ao menos que podem parece-lo, enquanto não atacamos sua paixão dominante, que é de ordinário, naquelas pessoas, o amor da glória e da reputação. Embriagadas com elogios, muitas vezes parecem modestas; mas os cuidados que tomam para consegui-los denunciam o motivo e deixam entrever a vaidade e o orgulho. Eis o retrato da maioria das pessoas de bem. Nas outras são o interesse, a inveja, o ciúme, a crueldade, a maldade, a perfídia. Não há uma só pessoa a quem se possa confiar as aflições sem lhe proporcionar uma alegria maligna e sem se aviltar a seus olhos. Falar de prazeres e êxitos? Isso faz nascer o ódio. Praticais o bem? O reconhecimento pesa, e encontram-se razões para se eximir dele. Cometeis algumas faltas?
Elas jamais se apagam; nada pode repara-las. Vedes pessoas inteligentes? Só estão ocupadas com elas mesmas; desejam ofuscar-vos e não se darão ao trabalho de vos instruir. Tendes negócio com espíritos mesquinhos? Eles estão atrapalhados com o próprio papel, manifestarão descontentamento com sua esterilidade e sua pouca inteligência. Na falta de espírito encontram-se sentimentos? Alguns, nem sinceros, nem constantes. A amizade é uma quimera: só reconhecem o amor; e que amor! Mas basta, não quero levar mais longe minhas reflexões: elas são o produto da insônia; reconheço que um sonho seria preferível."

Mme du Deffand - carta endereçada à Walpole - 1-04-1769


Marie Anne de Vichy-Chamrond, marquise du Deffand (1697– 23 September 1780)

domingo, 15 de maio de 2011

Juan Ramón Jiménez

O papagaio


Estávamos brincando com Platero e com o papagaio, no horto do meu amigo, o médico francês, quando uma mulher jovem, desordenada e ansiosa, chegou descendo a ladeira. Até antes de chegar, lançando-me o negro olhar angustiado, havia me suplicado:
- Moço, o médico está?
Atrás dela vinham umas crianças maltrapilhas, que a todo instante, ofegantes, olhavam para o alto do caminho; no fim, vários homens que traziam um outro, lívido e caído. Era um caçador furtivo, desses que caçam veados no couto de DoÑana. A escopeta, uma absurda escopeta velha amarrada com tamiça, tinha disparado, e o caçador levara o tiro no braço.
Meu amigo se aproximou do ferido, com delicadeza, levantou os trapos miseráveis que o cobriam, limpou-lhe o sangue e foi lhe tocando ossos e músculos. De vez em quando, ele me dizia:
- Ce n´est rien...
Caia a tarde. De Huelva chegava um cheiro de maresia, de breu, de peixe... As laranjeiras arredondavam, sobre o fundo do poente cor-de-rosa, seus densos veludos de esmeralda. Em um lilás, lilás e verde, o papagaio, verde e vermelho, ia e vinha, perscrutando-nos com seus olhinhos redondos.
As lágrimas que brotavam do pobre caçador enchiam-se de sol; às vezes soltava um grito sufocado. E o papagaio:
- Ce n´est rien...
Meu amigo aplicava no ferido algodões e vendas ...
O pobre homem:
- Aaai!
E o papagaio, entre os lilás:
- Ce n´est rien... Ce n´est rien...


RAMÓN JIMÉNEZ, Juan. Platero e eu, 1° ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

sábado, 30 de abril de 2011

Oscar Gama Filho


O AMOR NO FUTURO DO PRESENTE


                     Pois eu, vidente do amor que virá,
                      Sei que não tenho presente
                       de onde possa alcançar o futuro do presente,
                        Sei que não posso alterar o meu fado,
                         E sei também que posso alcançar
                          apenas o futuro do passado.



Estou partindo sem coche.
Há muito, desde ontem, que estou a pé
partindo até hoje.


Com um pé no passado em que fico,
Parto para o presente que renego
e para o caminho hemorrágico
de uma brisa feita de pregos.


Estou partindo à força, sem que haja passagem.
Amanhã, se você me procurar, amada do futuro rico,
Terá de gastar três dias de viagem
para chegar ao passado em que fico,
Para chegar ao passado em que fico sem nós dois.
Mas creia que, em três dias de viagem projetados para depois,
Não se acha aquele que está preso ao passado.


E eu, que um dia amarei seus lados,
Estou cercado pelos meus pés no passado e no presente,
Um rei preso que se ressente,
Estou cercado pelo meu próprio corpo,
Prisão privada que os limites do rei torto demarca e retém,
Um próprio corpo só, em que não existe mais ninguém.


E eu, que um dia a amaria,


que meu corpo estende
no tempo que meu corpo fia.




TEMPO DE MORTOS


Escute, Oscar, com calma me ouça.
Não se emocione sempre e tanto assim.
Este não é um tempo de poetas,
Este não é um tempo de rimas,
Este é um tempo de mortos:
Todos estão empenhados em matar os outros
e em matar a si mesmos,
O amor se tornou um tipo especial de bolsa de valores
a que apenas os ingênuos se dedicam,
Teóricos se empenham em provar que a arte está morta
e que todas as relações, possibilidades e esperanças morreram.


A você, que um dia se mata
mas em outro ressurge,
Cabe a tarefa necessária mas impossível
de ressuscitar os mortos.


Não se assuste com a responsabilidade.
Principalmente, não a leve tão a sério,
Ou correrá o risco de matar e de ser morto.


Arme-se todo de doçura, de ingenuidade, de pureza
e de crença no homem.


Olhe-os nos olhos, como você faz, e eles tremerão.
Verdade, aquilo que você oferece de melhor
e do modo mais amoroso
será alvo de deboche.
Seu nome será arrastado pelas bocas
e seu corpo será esticado nas masmorras
em tom de escárnio.


Palavras duras como pedras serão atiradas.
O alvo, você bem sabe, será sua cabeça
e, principalmente, sua alma
e este seu estranho sentimento do mundo.


Ofereça sua alma e sua emoção aos homens de pedra.
Não tente se desviar dos projéteis.
São mísseis infalíveis teleguiados
atraídos pelo calor da vida que destroem.
Messiânicos e dogmáticos, eles têm uma missão a cumprir.
A única coisa que poderá detê-los é seu sangue.
Com amor, ofereça-lhes o peito, dê-lhes de beber.
É justo: têm sede e são insaciáveis.
E você, Oscaro, é inesgotável.
Pelo menos até um dia se esgotar.
A música em verso do seu sangue
acalmará até mesmo os animais
e lhes restituirá a vitalidade perdida.


Sim, são mortos-vivos, mas o sangue dos poetas
é libertador, delicioso e ressuscita.


Sei, bem sei que seu sonho é não mais escrever,
É abandonar a pena dos outros
e, como os outros, morrer
para o que realmente se vive.


Por que você escreve tanto, então?


Calma, amigo insone, recupera a paz
e não deixa de fazer o que te faz.
Só assim, tranqüilo e sempre-vivo,
Um dia — profundamente — dormirás.


Oscar Gama Filho nasceu em Alegre, E.S., em 31 de março de 1958. Publicou seus poemas em De Amor à Política, 1979; em Congregação do Desencontro, 1980, em O Despedaçado ao Espelho, 1988 e em O Relógio Marítimo, pela Imago, em 2001. Procurou o tempo perdido em obras como História do Teatro Capixaba: 395 Anos, 1981, Teatro Romântico Capixaba, publicado pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas, em 1987, e Razão do Brasil, lançado pela José Olympio Editora em 1991. Traduziu-se para Rimbaud no conto-poema-ensaio-tradução-crítica Eu Conheci Rimbaud, de 1989. Realizou a exposição de arte ambiental poético-plástica Varais de Edifícios, em 1978, e gravou o disco Samblues, em 1992 — incluído no selo histórico Série Fonográfica do Espírito Santo. Em 2005, lançou o CD Antes do Fim-Depois do Começo, contendo músicas em parceria com Mario Ruy. Dirigiu suas peças teatrais A Mãe Provisória, em 1978, e Estação Treblinka Garden, em 1979. Pertence à Academia Espírito-santense de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico. Profissionalmente, é psicólogo clínico.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Uma carteira e seus sentidos

                        para as crianças - Realengo


Observe essa carteira vazia
– ociosa –
desocupada.
Entre na dimensão do absurdo
– no que se contorce –
e resvala,
e desperta,
e nos cala.


Observe essa carteira vazia
–ruidosa–
maculada.
Ventre da omissão confusa
– que nos paralisa –
e enoja,
e perpassa ,
e retalha.


Observe essa carteira vazia
– poderosa –
enfeitada.
Lembre da profusão do sangue
– que se dispersa –
e tinge,
e respinga,
e nos entala.


Observe essa carteira vazia
– fervorosa –
devotada.
Sente a celebração da loucura
– que consente –
e trucida,
e cega,
e nos abala.


Observe essa carteira vazia
– tenebrosa –
mal fadada.
Sente a emanação do ódio
– que se alastra –
e devora,
e abraça,
e nos transpassa.


Observe essa carteira vazia
– silenciosa –
abandonada.
Crente na devassidão do mundo
– que surpreende –
e ignora,
e reproduz,
e nos arrasa.


Observe essa carteira vazia
– deliciosa –
delicada.
Prenhe de ilusão confusa
– que consente –
e insinua,
e seduz,
e nos agarra.


Observe essa carteira vazia
– espaçosa –
desejada.
Crente na criação do sonho
– que compreende –
e ama,
e perdoa,
e nos concede a graça.

Jorge Elias Neto

domingo, 10 de abril de 2011

Maria

E foi seguindo a viela
que te encontrei Maria...
Não fosse tão arredia,
não fosse assim – quieta –
até compreenderia
a sua boca aberta,
a sua timidez úmida.

E foi seguindo o dia
que te apreendi Maria ...
Em minhas calças abertas,
Suas mãos buliam, vadias.
Por que tu rias, Maria...
Por que tu rias, Maria ...

E foi seguindo a arrelia.
Ninguém nos interrompia.
Na boca eu te mordia
Na boca você cuspia.
Não te entendo Maria ...
Não te entendo Maria ...

E foi seguindo a folia.
Na rua, o cordel seguia.
Só eu me surpreendia.
O gozo que escorria
de sua boca imensa,
de sua boca macia.
Case comigo Maria....
Case comigo Maria ...

E foi seguindo a orgia...
A noite já se esvaia.
De pé, já não me agüentava.
No corpo, uma brisa fria
e o suor se derramava.
E este sangue Maria?
E este sangue Maria?

E foi seguindo a alegria.
A imagem se dissipava.
No chão, já me estendia,
e Maria se derramava.
Então és virgem, Maria?
Será possível Maria?

E foi seguindo agonia.
Uma multidão imensa
de mim se aproximava.
Eu só queria Maria,
que de mim se apartava.
Vida vazia Maria...
Fica comigo Maria!
Fica comigo Maria!

Enfim entendi – a vadia
vida que se encerrava.
Maria não era donzela;
Maria sequer podia
dizer-se minha amada.
Maria não existia,
foi-se na madrugada.

Jorge Elias Neto

quinta-feira, 7 de abril de 2011

MANUAL DE PONTUAÇÃO - JOSÉ AUGUSTO CARVALHO

É impossível deixar de repetir: Habemus Cronopios!


Tamanho é o dinamismo deste Portal que tornou-se uma necessidade para os que pretendem manter-se atualizados à respeito do que de mais novo e fundamental vem sendo publicado nos Países de língua portuguesa. E eis mais uma novidade que só faz confirmar essa afirmativa, tantas vezes repetidas no Café Cronópios: A publicação, em 12 capítulos semanais, do Pequeno Manual de Pontuação em Português escrito pelo linguista José Augusto Carvalho.

Não vou me estender dizendo de minha amizade e admiração por este excepcional conhecedor de nossa língua. Deixo aqui o convite para que os leitores acessem o manual.
Boa leitura para todos!

Apresentação: http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4970
Manual - parte 1: http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4971

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Elton Pinheiro

                                              Foto: Janayna Araujo
Canto

Um
rosto descarnado percorre
a rua dos loucos
... rua dos barulhos moucos;

escuta o não falado, anda nu
e abandona os doutos, de copo e cana
na academia ensinando angu.
Mestres no Boulevard com Dulcce & Garbana,

seus rostos alvos, grandes Alexandres
altivos, depois parecem vários Dantes,..
sentem o gosto de Chivas nos odres,
babam as pernas boas das estudantes.

Sem desejo o abissal os deprava
na estória de suas vidas sem dolo.
Para a moral que a castidade lava
roubam das ninfas o seu colo,

para o sonho das raparigas em flor algo dava
aos seus carrosséis corcéis alados...
Para a outra carne de sua lava
o punho escroto dos soldados.

Ele espera o muting e canta ex...
o descontrole futuro do prazer de santo.
A donzela que grita em muitas tvs
É a vítima intensa de seu único canto

e bordava uma noite com duas luas
nas mãos de marfim.
Ele espera uma noite de todas as ruas
no louvor alado de um querubim.

Pela aldeia, no meio das casas
sua voz ecoa. Trazem-lhe a peste na flor
do campo que Freud as Moiras com asas
enquanto a histeria goza olor.

Por que a túnica de José o vestia?
Joio de seu próprio trigo; sacramento...
Quando o último sábio ele consumia
entregava-lhe seu entretenimento,

quando o sonho do barro brilhava
sonhava com asas de um monumento...
para todas as coisas ele inventava
as asas que Hermes roubou do vento,

e as cidades que sempre cantava
existiam numa constelação sem alento
até quando alta noite o mundo descansava
e as estrelas eram seu talento.

Acendei... crivai de luzes o teto
onde a caravana branca atravessa.
No espetáculo roto de tudo exceto
o outro tudo de outra estória nessa

e os heróis digam que suas glórias
estavam escritas nos autos
e que desde sempre se foram em memórias
de párocos, gênios, mendigos, arautos

e que desde sempre morrem de tarde
quando já nem existe por que morrer...
Enlouquecei... acendei o covarde
medo de viver.

Um
rosto descarnado percorre
a rua dos loucos
...rua dos barulhos moucos;




Elton Pinheiro é cantor, compositor, poeta e artista visual. Natural de Vitória, escreveu o livro de poemas Orações com vícios de linguagem, Secult – 2006, indicado pelo poeta Sergio Blank ao Prêmio Taru 2007. Gravou 12 de suas canções no CD Lavrador, produzido por Rodrigo Campello, a ser lançado em 2011. Alguns de seus trabalhos visuais ilustram blog, livro e CD, bem como site e CD do músico Alvaro Gribel e o último livro do escritor Herbert Farias.

terça-feira, 29 de março de 2011

Le bruit d’absence

                                                                                                 photograph © 2005 Steven Smith

                                     Esperança é uma simples questão
                                                 de instinto de sobrevivência.
Mangas curtas.
Mãos sujas – postas –
sob o pano verde.
Cartas esparramadas.
No assoalho – o redemoinho –
espiral ao avesso.

Boca larga, a da sombra...
Escondida,
entre longos dedos.

Copo emborcado.
Guimba pendurada
na boca murcha.
(Como é bela e inútil
a centelha do último cigarro).

Barba imunda,
ralando a ferrugem
da mesa da Brahma.

(Qual vício
substituirá o desespero?)

Ossos – despojos – largados.
Ponte pênsil,
de trêmulos pingentes,
a pressagiar o
chão que se abisma.

(Soluços e baba
dizem da metafísica.)

Arrepio.
Catar gargalhadas
nas vagas que já
recolhe o corpo
(que se distancia.)

E as bordas do sol
roçando o horizonte.
(tempo de crendice,
                de terço).

Humores, farrapos,
cachaça.
Rumores, gargalos,
cabaços.
Batuques, bagulhos,

                                                 Carcaça...

sexta-feira, 11 de março de 2011

CONVITE PARA LEITURA

Prezados leitores e amigos:

O Portal Cronópios de Literatura Brasileira publicou o ensaio de minha autoria denominado:
"Para tudo existe um peso, uma medida, e uma visão distorcida - Considerações sobre Vanguarda e Tradição na poesia brasileira".
Convido para leitura no endereço: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4920

quinta-feira, 3 de março de 2011

Poema justo



                                                                       Não fechar a frase, não.
                                                                    Deixar a palavra ao relento.
                                                                                                                       Miguel Marvilla

Raspar as sobras
da imagem – nata
– gordura –
o escorregadio da margem.
O liso da casca.
A paisagem.
Da palavra – o inesperado –
a calda – rasgos e fendas.
Na vastidão – passagem.


Rever emendas.
Acumular entulhos –
vazios.
Cobrir de aragem.


Recolher do baixio – memórias –
aboios –
arrelias.


Desviar das têmporas –
O estampido – tiro –
peleja
de louco!


Repousar no estio.
Aconchego – relento.
Remover farpas – asperezas –
ao vento.

Lambuzar com visgo – isca –
voragem.


Revolver o leitor
no espaço-tempo.
Disparar a contagem.

No continente dos olhos –
despertar do torpor...
                                                       A linguagem.

Jorge Elias Neto