segunda-feira, 4 de abril de 2011

Elton Pinheiro

                                              Foto: Janayna Araujo
Canto

Um
rosto descarnado percorre
a rua dos loucos
... rua dos barulhos moucos;

escuta o não falado, anda nu
e abandona os doutos, de copo e cana
na academia ensinando angu.
Mestres no Boulevard com Dulcce & Garbana,

seus rostos alvos, grandes Alexandres
altivos, depois parecem vários Dantes,..
sentem o gosto de Chivas nos odres,
babam as pernas boas das estudantes.

Sem desejo o abissal os deprava
na estória de suas vidas sem dolo.
Para a moral que a castidade lava
roubam das ninfas o seu colo,

para o sonho das raparigas em flor algo dava
aos seus carrosséis corcéis alados...
Para a outra carne de sua lava
o punho escroto dos soldados.

Ele espera o muting e canta ex...
o descontrole futuro do prazer de santo.
A donzela que grita em muitas tvs
É a vítima intensa de seu único canto

e bordava uma noite com duas luas
nas mãos de marfim.
Ele espera uma noite de todas as ruas
no louvor alado de um querubim.

Pela aldeia, no meio das casas
sua voz ecoa. Trazem-lhe a peste na flor
do campo que Freud as Moiras com asas
enquanto a histeria goza olor.

Por que a túnica de José o vestia?
Joio de seu próprio trigo; sacramento...
Quando o último sábio ele consumia
entregava-lhe seu entretenimento,

quando o sonho do barro brilhava
sonhava com asas de um monumento...
para todas as coisas ele inventava
as asas que Hermes roubou do vento,

e as cidades que sempre cantava
existiam numa constelação sem alento
até quando alta noite o mundo descansava
e as estrelas eram seu talento.

Acendei... crivai de luzes o teto
onde a caravana branca atravessa.
No espetáculo roto de tudo exceto
o outro tudo de outra estória nessa

e os heróis digam que suas glórias
estavam escritas nos autos
e que desde sempre se foram em memórias
de párocos, gênios, mendigos, arautos

e que desde sempre morrem de tarde
quando já nem existe por que morrer...
Enlouquecei... acendei o covarde
medo de viver.

Um
rosto descarnado percorre
a rua dos loucos
...rua dos barulhos moucos;




Elton Pinheiro é cantor, compositor, poeta e artista visual. Natural de Vitória, escreveu o livro de poemas Orações com vícios de linguagem, Secult – 2006, indicado pelo poeta Sergio Blank ao Prêmio Taru 2007. Gravou 12 de suas canções no CD Lavrador, produzido por Rodrigo Campello, a ser lançado em 2011. Alguns de seus trabalhos visuais ilustram blog, livro e CD, bem como site e CD do músico Alvaro Gribel e o último livro do escritor Herbert Farias.

Um comentário:

Raíz disse...

Maravilhoso canto!

Pelo que li, além de poeta é músico.
Dom demasiado para um só!

Torcerei sempre por você. Deus capacita os escolhidos!

Beijos, poeta!

Mirze