domingo, 30 de janeiro de 2011

Manhã de mais um dia




Um papel amassado
jogado na calçada da vida
os transeuntes passam...
Ele os observa.
O que traz escrito
foi mantido em segredo
pelas mãos que o desprezaram
era branco há poucas horas....
Já não o é mais.
Nele se misturam as marcas
de tantas angústias deixadas incógnitas
nesta manhã de mais um dia.
O vento o lança entre asfaltos e esquinas
o homem o pisa e chuta
sempre novas marcas....
O melhor que pode esperar
é que a reciclagem lhe devolva a dignidade
mas o que traz escrito não importa?
E as lições das ruas não interessam ao homem?
Talvez considerem que suas verdades devam ser mesmo esquecidas
o que se deixa nas ruas são os dejetos do inconsciente.
Com o passar das horas,
com o passar das ruas,
com o passar das vidas
já é o papel uma massa compacta, enegrecida e densa
perdeu sua pureza,
deixou de ser leve.
Foi-se o branco ariano da hipocrisia.
Ficou a verdade negra
crua, incontestável, verdadeiramente humana.
Deixou de ser papel,
passou a ser lixo
rico em sabedoria,
esquecido na sarjeta
de mais um dia.

Jorge Elias Neto
(Verdes versos - 2007)

2 comentários:

Jacinta Dantas disse...

Oi Jorge,
vou passando, deixando um abraço, e sentindo seu poema. Interessante a leitura que agora faço, pois já o conhecia. E sinto que a leitura parece mudar embora o poema esteja atualizado com o dia e com o cenário no qual estamos colocados.
Para mim... instigante. Mas creio que essa sensação, também, seja poesia.

Mirze Souza disse...

Excelente!

Um poema que realmente acontece. E quantas jóias, ensaios, desabafos devem estar ali escritos. E depois de maculada a folha, vira lixo. Outro dia encontrei, e não sei porque me fez abaixar e pegar, um papel velho que deve ter sido um recorte de jornal. Apanhei e era uma oração judaica, como pedindo socorro.

Há muito nesse lixo que também trazemos.

Parabéns!

Mirze