quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Papo de passarinho



Papo de passarinho



Acabo de ler Silêncios de Gustavo Felicíssimo. Vejo encerrar-se um ciclo e me ponho a escrever.
Digo previamente ao leitor de minha total parcialidade. Sabemos da prevenção que nos circunda quando lemos as resenhas habitualmente veiculadas em blogs, publicadas em outras mídias. Texto em cima de texto, sobre o texto, incentivo à leitura do texto ... Não é este meu propósito.
Iniciei meu blog por sugestão do poeta Miguel Marvilla – uma forma de divulgar meus poemas e interagir com leitores e outros autores. Um de meus primeiros contatos foi com Gustavo, desde então centenas de emails trocados; minha primeira entrevista como poeta; o aprendizado diário sobre a poesia baiana no belo blog Sopa de poesia http://www.sopadepoesia.blogspot.com/, organizado por Gustavo; um livro publicado (meu livro Rascunhos do absurdo foi organizado – de forma exemplar - por Gustavo); sugestões; discussões sobre livros e autores; uma bela tarde em Ilhéus, na varanda do amigo Pedro, apreciando a beleza dos manguezais com algumas cervejas geladas e boas gargalhadas; o nascimento de Flora (primeira filha de Gustavo) e agora o primeiro livro autoral do poeta. Dito isso, reafirmo o viés do não distanciamento. Prefiro assim, fica mais fácil e honesto quando se conhece um pouco do homem.
Gustavo é papagaio em pé no arame: inquieto, autêntico, honesto (e por isso polêmico) – apaixonado pela literatura. Um paulista em perfeita simbiose com a terra que adotou – com Ilhéus e com o Rio Cachoeira que banha Itabuna (homenageado em Silêncios com uma bela sequência de haicais ...).
O que dizer de um paulista que migrou de Marília, passou por Salvador e pousou em Itabuna e Ilhéus: um nômade.
Mas pode-se esperar consistência, continuidade em tal andarilho?
Quem lê Silêncios sente que o poeta fincou estacas profundas em solo baiano: deixou de ser nômade?
Diz Deleuze citando Toynbee:
Não só existem estranhas viagens numa cidade, também existem viagens no mesmo lugar; não estamos pensando nos drogados, cuja experiência é por demais ambígua, mas antes nos verdadeiros nômades. É o propósito destes nômades: eles não se movem. São nômades por mais que não se movam, não migrem , são nômades por manterem um espaço liso que se recusam a abandonar, e que só abandonam para conquistar ou morrer. Viagem no mesmo lugar, esse é o nome de todas as intensidades, mesmo que elas se desenvolvam também em extensão.
Silêncios é o primeiro resultado do mergulho profundo (já característicos da personalidade de Gustavo Felicíssimo) no universo do haikai, Seryu, Tanka e Haibun. Desde a capa - a imagem de um pássaro estilizado com feições orientais (conheci o autor da pintura durante minha visita a Ilhéus) Silêncios mostra-se irretocável.
Para cada parte (o livro é agrupado em 5 partes conforte os formas poéticas acima enumerados, somados de um breve ensaio sobre o haikai no Brasil) encontramos uma definição didática que permite ao leitor não familiarizado tomar entendimento dessas formas de poesia oriental.
E é então que o pássaro falante, alegre, de riso solto: silencia... E se põe a catar as imagens simples do cotidiano vivido com paixão pelo seu em torno.
Foi Manuel Bandeira quem primeiro me ensinou a beleza da simplicidade ... A dificuldade da simplicidade...
E eis alguns exemplos do que é simples e belo:

        o vento do outono
como um pássaro que passa
        partiu sem adeus


outono ou inverno?
caem as folhas confusas
no seio materno

       algo mais perfeito?
as folhas mortas no campo
       fecundam a terra


Ou ainda no Senryu, uma variação mais irônica do haikai clássico:

da fruta que eu gosto
a namoradinha dela
chupa até o caroço

Como últimos exemplos, esses belos haikais escritos em homenagem à agonia do Rio Cachoeira ( alertado por Gustavo, pude sentir o sofrimento do Rio quando de minha breve passagem por Itabuna)

I

madruguei chorando –

silenciou-se o grande rio

ao me ver nascer


VIII

no dorso de pedra
correm águas maculadas –
tristemente o vejo


XIII

nada singra mais
as correntes deste rio –
só a lama humana

Comecei dizendo de minha parcialidade... Reafirmo aqui que sou parcial quando me deparo com uma escrita simples que trás o belo, e nos dá o que nos preenche a alma – a emoção.
Muito podemos esperar e cobrar de Gustavo Felicíssimo.
                       Ele promete ... E cumpre.


                                                                                Jorge Elias Neto




3 comentários:

Anônimo disse...

Jorge,

A varanda mudou de Oeste para Leste, mas ficou no mesmo ermo outeiro. Perdeu-se o poente, ganhou-se o nascente. Escancarado, o mar vai até Angola.
Quando repetimos a sessão?
Abraço,
Pedro Montalvão

Mirze Souza disse...

Belíssimo texto e haikais!

Aplausos, poeta!

Mirze

Jorge Elias disse...

Mirze:

Agradeço s ua visita.
Estou começando uma leitura mais aprofundada da obra de Dante Milano.
O que já conheço me permite identificar uma convergência com meu pensar...
Forte abraço