quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Borgiana I


Atiro os cacos
do espelho partido.
Busco-os no chão,
onde as imagens já se dispersaram.


Com o que resta na moldura,
brinco de cortar os dedos,
encaixando respostas
no rosto trincado.


E se, no entanto, a figura
se assemelha ao medo,
remisturo todo
o ser desfigurado.


Pois a faina louca
de remexer segredos
fez-me encontrar as sombras
dos dias passados.


Jorge Elias Neto


Vitória, 05 de outubro de 2010

5 comentários:

nydia bonetti disse...

Mosaicos incompletos, seguimos, tentando recompor o que já não mais se recompõe. Falta sempre um pedaço - o que virou pó.
Lindo poema, Jorge. Que venha o II! Abraço.

Carla disse...

Reencontrar-se nos cacos é quase um renascer. Lindo poema!

Bjos

livia soares disse...

Jorge,
a minha leitura é que a memória nos prende e nos liberta, ao mesmo tempo... ficou bem urdido o poema.
Armadilha?
Um abraço.

Lara Amaral disse...

Perfeito retalho. Juntando todos os meus cacos, mal pude chegar ao tamanho de um pedacinho seu.

Abraço!

Jorge Elias disse...

A metáfora do espelho, recorrente na obra de Borges (e todos nós poetas) nos possibilita muitas interpretações.
Revisito este tema sem nenhuma pretenção de originalidade. O faço principalmente como parte de um projeto de homenagem a este autor que admiro imensamente.
Agora, o que engrandece o texto são os comentários aqui deixados. Esta interlocução abre um horizonte para o poeta (ora leitor).
Obrigado.