quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Caligrafia do bruto



                                      Para Sakineh Mohammadi-Ashtia



                 Quem  não tiver pecados que atire a primeira pedra!


Pedra atirada.
No ar,
uma réstia
da caligrafia do bruto.

Apedreja-se com força.
Quem sabe assim
desencarnam as frustações!...

Reconheço o homem na pedra.
Cada pedra trás seu nome.
A figura de um deus incompleto,
incoerentemente arremessada,
invalida a palavra: Humanidade.

Mas aqui,
neste instante,
em conformidade com os dogmas,
corrompe-se a alma,
deforma-se o molde.

A estranheza de lapidar o corpo.
A ironia de deformar o nome
do delicado gesto do artesão.

Garganta seca de suplicas.
Olhos vazados por lascas.
O ventre fendido
Já não tem fome de amor.

Despedaçado,
jaz o corpo da criatura humana,
jaz a beleza.
Sob o lençol branco maculado
pelo sangue dos opressores,
desfeito,
o arco dos lábios.

A mais terna face desfigurada.
Deixaram-na de lado;
é impura.
Já não se presta mais a prazeres
a carne macerada.



Jorge Elias Neto

9 comentários:

Hilton Valeriano disse...

Nenhuma religião importa quando se despreza o humano! Belo e trágico poema!

Tania regina Contreiras disse...

O poema é um confronto. A pedra provoca um estrondo antes de cair, tão logo é arremessada. Tua escrita é forte. Sigo com o olhar atônito o risco que a pedra faz. Lendo a caligrafia do bruto.
Abraços e parabéns pela qualidade da escrita.

Jorge Elias disse...

Tania, obrigado por me sinalizar com o nome adequado para o poema.

Abraço

Jorge Elias disse...

Caro Hilton,

você tem toda razão.

Abraço

nydia bonetti disse...

Que belo poema, Jorge. Este tema também me toca profundamente. E o tom dos versos me fez lembrar dos "landays" recolhidos por Sayd Bahodine Majrouh, poeta afegão e traduzidos por Ana Hatherly. Vou deixar alguns aqui, que falam por si:

Ontem à noite estive com o meu amado
uma noite de amor que não se repetirá.

Dá-me a tua mão, amor, vamos para os campos
para nos amarmos ou cairmos juntos apunhalados.

Amanhã os famintos do meu amor serão satisfeitos
porque quero atravessar a aldeia com o rosto descoberto e os cabelos ao vento.

É a caligrafia da revolta, do desespero, da paixão e do ódio, que revela a condição feminina neste contexto. Angustiante.

um abraço, nydia.

livia soares disse...

Meu caro Jorge,
você apreendeu a mensagem com muita propriedade: "quem não tiver pecado..." a grande evolução humana para além de toda falácia, é quando Jesus Cristo faz os que vão apedrejar a adúltera se voltarem para dentro de si mesmos e refletirem sobre os seus atos. Valorização da vida humana, valorização da mulher e do homem - o começo de uma nova humanidade. Tem raízes nesse instante o sentimento de compaixão que lhe inspirou seu belo poema.
Um abraço.

Pedro Du Bois disse...

Caro Poeta, quando a palavra se faz guardiã da civilização, vale a pena. Abraços, Pedro.

livia soares disse...

Saudades de vc.
Um abraço.

eitasarau disse...

Jorge Elias, lindo seu poema... Gostaria de publicá-lo no blog do Eita! Encontro integradado de todas as artes, sarau que organizo aqui em São Paulo... www.eitasarau.wordpress.com Faça uma visita no blog, nos conheça e me diz se posso publicá-lo por lá... Foi um prazer encontrá-lo... Fui apresentada pela Nydia Bonetti