segunda-feira, 7 de maio de 2012

AS MUITAS MORTES DE UM HOMEM

AS MUITAS MORTES DE UM HOMEM


                                                        Affonso Romano de Sant’Anna

Estou tendo certa dificuldade
Com minha morte final.
À primeira
(cotidiana)
me acostumei:
olhava minha pele
o rosto dos amigos, e me dizia:
– eis que sibilina e estabanada
Ela vem vindo.
Cedo nos entendemos
quanto à dissolução.
e por ser progressiva e familiar
a ela me dediquei
desentranhando-a do espelho.
Ela não era apenas o cão
que eu levava a passear
era o amigo com quem
no entardecer, íntimo,
eu me aplicava a jogar.

2
A segunda morte (mais sutil)
aprendi:
            não vem durante, vem depois.
É como a traça, a ratazana, a ferrugem
que corroem o osso e a fama.
Após a devastação da carne
vem a extinção do nome.

3
Talvez houvesse uma terceira morte
da qual até agora escapamos
escapei:
             – sob nuvens de urânio
e cogumelos incubados
sombreando o horizonte
seguimos amando.
Quem sabe, outra morte – a quarta –
cada vez mais previsível
já se intrometeu entre tantas
como uma profecia maldita
igualmente fatal
                         – e eficaz.
Ela
     já manda seus recados
pela boca dos vulcões
fendas, terremotos, tsunamis
e se anuncia
na progressiva morte dos corais.

4
Há, no entanto, uma outra morte
a última, mais completa
mais brutal
que excederá a todas
em seu furor abissal.
Virá quando nesta galáxia
explodir o Sol
                     e a Terra e
                                     os planetas
derivarem frios para o caos.
Não importa que seja daqui a 4
ou 5 bilhões de anos
será, mais que injusta, total.
Bibliotecas e museus
arquiteturas fabulosas, todas as ruínas
a memória das tribos e rituais
os romances, as vitrinas, os pássaros
peixes e os diários
teus álbuns, tua mobília
tudo o que a mente humana perpetrou
Aristóteles, Platão e Nietzche
as pirâmides e os navios
os gatos, as mais lindas manequins e atrizes
os filmes, Shakespeares, Sófocles e Beckett
a máscara de ouro de Micenas
a tumba do faraó ...
Nenhuma invenção e prece
nos salvará.
Não adianta clamar: me poupem!
salvem Florença e minha família
e minha coleção de porcelanas
e estampilhas.
Nosso fim (como o começo)
não dependerá
de nenhum de nós.
Pode um piedoso ponderar:
– não nos alarmemos
o resto do universo
vai continuar.
Sim. Deus (ou que nome se lhe dê)
emergirá uma vez mais
dessa poeira cósmica
                                         para se reorganizar
e soberano
                         em outras galáxias
triunfará uma vez mais
sem precisar de nós.

Sant’Anna, Affonso Romano de, 1937 – Sísifo desce a montanha. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

Um comentário:

Hilton Valeriano disse...

Um dos grandes poemas do livro junto com Parem de jogar cadáveres em minha porta...