quinta-feira, 3 de março de 2011

Poema justo



                                                                       Não fechar a frase, não.
                                                                    Deixar a palavra ao relento.
                                                                                                                       Miguel Marvilla

Raspar as sobras
da imagem – nata
– gordura –
o escorregadio da margem.
O liso da casca.
A paisagem.
Da palavra – o inesperado –
a calda – rasgos e fendas.
Na vastidão – passagem.


Rever emendas.
Acumular entulhos –
vazios.
Cobrir de aragem.


Recolher do baixio – memórias –
aboios –
arrelias.


Desviar das têmporas –
O estampido – tiro –
peleja
de louco!


Repousar no estio.
Aconchego – relento.
Remover farpas – asperezas –
ao vento.

Lambuzar com visgo – isca –
voragem.


Revolver o leitor
no espaço-tempo.
Disparar a contagem.

No continente dos olhos –
despertar do torpor...
                                                       A linguagem.

Jorge Elias Neto

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Vinicius de Moraes - Sobre poesia


Sobre poesia

Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade. Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude furtar à vaidade de fazer os meus mots de finesse em causa própria - coisa que hoje me parece senão irresponsável, pelo menos bastante literária.

Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para - sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto - levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe nele beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução.

Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos.

O material do poeta é a vida, dissemos. Por isso me parece que a poesia é a mais humilde das artes. E, como tal, a mais heróica, pois essa circunstância determina que o poeta constitua a lenha preferida para a lareira do alheio, embora o que se mostre de saída às visitas seja o quadro em cima dela, ou a escultura no saguão, ou o último long-playing em alta- fidelidade, ou a própria casa se ela for obra de um arquiteto de nome. E eu vos direi o porquê dessa atitude, de vez que não há nisso nenhum mistério, nem qualquer demérito para a poesia. É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus pólos contrários. O homem não poderia viver sob o sentimento permanente dessas contradições e desses contrários, que procura constantemente esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de uma natureza em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e mais desarmônica. Ou melhor: para não perder a razão tout court.

Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se á certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à história, dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta é, ai dele, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída.

Diz-se que o poeta é um criador, ou melhor, um estruturador de línguas e, sendo assim, de civilizações. Homero, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Camões, os poetas anônimos do Cantar de Mío Cid vivem à base dessas afirmações. Pode ser. Mas para o burguês comum a poesia não é coisa que se possa trocar usualmente por dinheiro, pendurar na parede como um quadro, colocar num jardim como uma escultura, pôr num toca-discos como uma sinfonia, transportar para a tela como um conto, uma novela ou um romance, nem encenar, como um roteiro cinematográfico, um balé ou uma peça de teatro. Modigliani - que se fosse vivo seria multimilionário como Picasso - podia, na época em que morria de fome, trocar uma tela por um prato de comida: muitos artistas plásticos o fizeram antes e depois dele. Mas eu acho difícil que um poeta possa jamais conseguir o seu filé em troca de um soneto ou uma balada. Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta e heróica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranqüilidade.


Vinicius de Moraes

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Das sombras

Foto: Luis Henrique Borges


A sombra subsiste no oco
do tronco posto
à beira do medo.
Risonha e sínica,
desafia as mãos
a penetrar-lhe a boca,
intestinos – segredos.

(Uma voz rouca chama do silêncio.)

E mais tarde, então,
ouvindo o eco do nada,
a matéria frouxa,
caberá perfeita
em suas entranhas rombas.
Deixará para sempre,
o vazio das formas,
enveredando nas sombras, sem pavor, sem volta.
Sem amor,
sem pressa –
                       sem desejo.

                                   
Jorge Elias Neto 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A SANTÍSSIMA TRINDADE


A SANTÍSSIMA TRINDADE


                                                    José Augusto Carvalho

O cristianismo, em seu início, era bem diferente do catolicismo de hoje, em matéria de fé. Não se cogitava, nos primórdios da era cristã, da Santíssima Trindade, “mistério” que só mais de três séculos depois da morte de Cristo passou a fazer parte da religião católica.
Qual é a origem dessa crença?
Flavius Valerius Aurelius Claudius Constantinus, ou simplesmente, Constantino, o Grande, (nascido entre 280 e 288 e falecido em 337), às vésperas da batalha da ponte Mílvia, ocorrida em 28-X-312, teria visto no céu, de acordo com seu biógrafo Eusébio Pânfilo, uma cruz com dizeres em grego que a tradição manteve em latim: "In hoc signo vinces", isto é, "com este sinal vencerás". Constantino mandou pôr nos escudos de seus soldados essa frase, antes da batalha da Ponte Mílvia. De fato, Constantino venceu seu inimigo Maxêncio nessa batalha, mas foi só em 324, ao vencer Licínio, que Constantino se tornou senhor absoluto de todo o império romano, depois de ter garantido, pelo Edito de Milão (313), o cristianismo como religião oficial do Império. Vendo que Roma não era mais um bom lugar para sede do império romano, ele construiu no lugar em que se encontrava Bizâncio (hoje Istambul, na Turquia), a nova sede do governo, Constantinopla, a capital do império romano do Oriente, conhecido como "império bizantino". Foi durante o seu reinado que se construíram os primeiros monumentos cristãos, como a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, a igreja de Santa Sofia, em Constantinopla, a basílica do Vaticano e a igreja dos Santos Apóstolos, em Roma, entre outros.
Em 325, no primeiro Concílio de Niceia, sob o papado de Silvestre I, Constantino condenou as ideias e os seguidores do egípcio Arius, sacerdote de Alexandria, fundador do arianismo, que negava a igualdade de natureza entre o Pai e o Filho e não reconhecia divindade em Jesus Cristo. Foi durante esse Concílio, em que se estabeleceram os dogmas principais do catolicismo, que houve uma discussão: Jesus seria apenas mais um profeta, como entendiam os Judeus, além de Arius, ou seria um Deus? Fausta, filha de Maximiano,
era casada com Constantino desde 307. Ela queria que Jesus fosse considerado Deus, apesar da relutância de Constantino. Mas ela lembrou-lhe o sinal que ele havia recebido e a vitória que ele acreditava ter sido o resultado de uma intervenção sobrenatural. Constantino concordou. Por votação, Cristo foi considerado Deus nesse primeiro Concílio de Niceia.
O Espírito Santo que era sugerido não como Deus, mas como manifestação de
Deus para justificar a virgindade de Maria, tornou-se dogma de fé e o terceiro Deus católico, no Concílio de Constantinopla, em 381 (sob o papado de Damaso I). Esse concílio voltou a condenar as ideias de Arius.
Acredito que Jesus Cristo tenha recusado, implicitamente, ser considerado Deus. Em Mt. 24:34-36, lê-se: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.
Porém daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente meu Pai.” A onisciência é um atributo de Deus e, portanto, tem valor absoluto.
Ora, a onisciência é o saber absoluto sobre todas as coisas. Se o Filho não sabe algo que apenas o Pai sabe, então o Filho não é onisciente e, portanto, não é Deus.
Pensemos nisso.




( Texto publicado originalmente no Jornal A GAZETA em 06-08-10)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Felipe Stefani

Círculo Místico



Todo homem tem uma beleza terrível
na órbita de seu abismo.
Ela alcança sua própria distância
e diz adeus.
Aqueles que a procurarem
nas horas que dançam
ouvirão anjos.


Ela dança num círculo místico,
nas correntezas que abrigam o mundo.
Aqueles que a alcançarem
ouvirão anjos.


Nunca mais amou os presságios,
os perigos do mar,
o medo.
Para além das margens ele morreria.
Esqueceu em si mesmo seus cantos profundos.


Todo homem tem uma dinastia
cravada em seu silêncio.
Aqueles que a alcançarem
ouvirão anjos.



Felipe Stefani é poeta, artista plástico e fotógrafo. Nasceu em São Paulo em 1975. Já fez de tudo, até biologia, maz foi na arte que encontrou meios de se relacionar com o mundo, como que dentro de um silêncio lírico... Tem ilustrado livro de outros escritores e já publicou seus poemas em diversos sites literários. Em 2009 publicou o livro “O Corpo Possível”, editado pelo coletivo Dulcinéia Catadora. Ilustrou “Rascunhos do absurdo” de Jorge Elias Neto. Em 2010 publicou “Verso Para Outro Sentido”, pela Escritura Editora. Tem seus desenhos publicados no site: WWW.pbase.com/sodesenho/felipe_stefani


Escreve também em seu blog: http://cultuar.blogspot.com/E-mail: felipe.stefani@uol.com.br


domingo, 30 de janeiro de 2011

Manhã de mais um dia




Um papel amassado
jogado na calçada da vida
os transeuntes passam...
Ele os observa.
O que traz escrito
foi mantido em segredo
pelas mãos que o desprezaram
era branco há poucas horas....
Já não o é mais.
Nele se misturam as marcas
de tantas angústias deixadas incógnitas
nesta manhã de mais um dia.
O vento o lança entre asfaltos e esquinas
o homem o pisa e chuta
sempre novas marcas....
O melhor que pode esperar
é que a reciclagem lhe devolva a dignidade
mas o que traz escrito não importa?
E as lições das ruas não interessam ao homem?
Talvez considerem que suas verdades devam ser mesmo esquecidas
o que se deixa nas ruas são os dejetos do inconsciente.
Com o passar das horas,
com o passar das ruas,
com o passar das vidas
já é o papel uma massa compacta, enegrecida e densa
perdeu sua pureza,
deixou de ser leve.
Foi-se o branco ariano da hipocrisia.
Ficou a verdade negra
crua, incontestável, verdadeiramente humana.
Deixou de ser papel,
passou a ser lixo
rico em sabedoria,
esquecido na sarjeta
de mais um dia.

Jorge Elias Neto
(Verdes versos - 2007)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Gilles Deleuze



“É preciso falar da criação como trançando seu caminho entre impossibilidades...
A criação se faz em gargalos de estrangulamento. Se um criador não é agarrado pelo pescoço por um conjunto de impossibilidades, não é um criador. Um criador é alguém que cria suas próprias impossibilidades, e ao mesmo tempor cria um possível. É preciso lixar a parede, pois sem um conjunto de impossibilidades não se terá essa linha de fuga, essa saída que constitui a criação, essa potência do falso que constitui a verdade. É preciso escrever líquido ou gasoso, justamente porque a percepção e a opinião ordinária são sólidas, geométricas. Nada de abandonar a terra. Mas tornar-se tanto mais terrestre quanto se inventa leis do líquido e do gasoso de que a terra depende. O estilo, então, tem necessidade de muito silêncio e trabalho para produzir um turbilhão no mesmo lugar, depois, lança-se como um fósforo que as crianças vão seguindo na água da sarjeta. Pois certamente não é compondo palavras, combinando frases, utilizando ideias que se faz um estilo. É preciso abrir as palavras, rachar as coisas, para que se liberem vetores que são os da terra. Todo escritor, todo criador é uma sombra. Como fazer a biografia de Proust ou Kafka? A partir do momento em que se escreve, a sombra é primeira em relação ao corpo. A verdade é da ordem da produção de existência. Não está dentro da cabeça, é algo que existe. O escritor emite corpos reais. No caso de Pessoa são personagens imaginários, não tão imaginários, porque ele lhes dá uma escrita, uma função. Mas ele sobretudo não faz, ele mesmo, o que os personagens fazem. Não se pode ir longe na literatura com o sistema "Viajamos e vimos muito", onde o autor primeiro faz as coisas e em seguida relata. O narcisismo dos autores é odioso porque não pode haver narcisismo de uma sombra. Então a entrevista acabou. O que é grave, não é atravessar o deserto, tendo a idade e a paciência para isto; grave é para os jovens escritores que nascem no deserto, porque correm o risco de verem sua empreitada anulada antes mesmo que aconteça. E no entanto, é impossível que não nasça a nova raça de escritores que estão aí para os trabalhos e estilos.”


Fragmento de entrevista de Gilles Deleuze

(L´Autre Journal, outubro de 1985)
in: Conversações -Gilles Deleuze - editora 34

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dante Milano



Salmo perdido



                                        Dante Milano


Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.


Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.


O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.


Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Papo de passarinho



Papo de passarinho



Acabo de ler Silêncios de Gustavo Felicíssimo. Vejo encerrar-se um ciclo e me ponho a escrever.
Digo previamente ao leitor de minha total parcialidade. Sabemos da prevenção que nos circunda quando lemos as resenhas habitualmente veiculadas em blogs, publicadas em outras mídias. Texto em cima de texto, sobre o texto, incentivo à leitura do texto ... Não é este meu propósito.
Iniciei meu blog por sugestão do poeta Miguel Marvilla – uma forma de divulgar meus poemas e interagir com leitores e outros autores. Um de meus primeiros contatos foi com Gustavo, desde então centenas de emails trocados; minha primeira entrevista como poeta; o aprendizado diário sobre a poesia baiana no belo blog Sopa de poesia http://www.sopadepoesia.blogspot.com/, organizado por Gustavo; um livro publicado (meu livro Rascunhos do absurdo foi organizado – de forma exemplar - por Gustavo); sugestões; discussões sobre livros e autores; uma bela tarde em Ilhéus, na varanda do amigo Pedro, apreciando a beleza dos manguezais com algumas cervejas geladas e boas gargalhadas; o nascimento de Flora (primeira filha de Gustavo) e agora o primeiro livro autoral do poeta. Dito isso, reafirmo o viés do não distanciamento. Prefiro assim, fica mais fácil e honesto quando se conhece um pouco do homem.
Gustavo é papagaio em pé no arame: inquieto, autêntico, honesto (e por isso polêmico) – apaixonado pela literatura. Um paulista em perfeita simbiose com a terra que adotou – com Ilhéus e com o Rio Cachoeira que banha Itabuna (homenageado em Silêncios com uma bela sequência de haicais ...).
O que dizer de um paulista que migrou de Marília, passou por Salvador e pousou em Itabuna e Ilhéus: um nômade.
Mas pode-se esperar consistência, continuidade em tal andarilho?
Quem lê Silêncios sente que o poeta fincou estacas profundas em solo baiano: deixou de ser nômade?
Diz Deleuze citando Toynbee:
Não só existem estranhas viagens numa cidade, também existem viagens no mesmo lugar; não estamos pensando nos drogados, cuja experiência é por demais ambígua, mas antes nos verdadeiros nômades. É o propósito destes nômades: eles não se movem. São nômades por mais que não se movam, não migrem , são nômades por manterem um espaço liso que se recusam a abandonar, e que só abandonam para conquistar ou morrer. Viagem no mesmo lugar, esse é o nome de todas as intensidades, mesmo que elas se desenvolvam também em extensão.
Silêncios é o primeiro resultado do mergulho profundo (já característicos da personalidade de Gustavo Felicíssimo) no universo do haikai, Seryu, Tanka e Haibun. Desde a capa - a imagem de um pássaro estilizado com feições orientais (conheci o autor da pintura durante minha visita a Ilhéus) Silêncios mostra-se irretocável.
Para cada parte (o livro é agrupado em 5 partes conforte os formas poéticas acima enumerados, somados de um breve ensaio sobre o haikai no Brasil) encontramos uma definição didática que permite ao leitor não familiarizado tomar entendimento dessas formas de poesia oriental.
E é então que o pássaro falante, alegre, de riso solto: silencia... E se põe a catar as imagens simples do cotidiano vivido com paixão pelo seu em torno.
Foi Manuel Bandeira quem primeiro me ensinou a beleza da simplicidade ... A dificuldade da simplicidade...
E eis alguns exemplos do que é simples e belo:

        o vento do outono
como um pássaro que passa
        partiu sem adeus


outono ou inverno?
caem as folhas confusas
no seio materno

       algo mais perfeito?
as folhas mortas no campo
       fecundam a terra


Ou ainda no Senryu, uma variação mais irônica do haikai clássico:

da fruta que eu gosto
a namoradinha dela
chupa até o caroço

Como últimos exemplos, esses belos haikais escritos em homenagem à agonia do Rio Cachoeira ( alertado por Gustavo, pude sentir o sofrimento do Rio quando de minha breve passagem por Itabuna)

I

madruguei chorando –

silenciou-se o grande rio

ao me ver nascer


VIII

no dorso de pedra
correm águas maculadas –
tristemente o vejo


XIII

nada singra mais
as correntes deste rio –
só a lama humana

Comecei dizendo de minha parcialidade... Reafirmo aqui que sou parcial quando me deparo com uma escrita simples que trás o belo, e nos dá o que nos preenche a alma – a emoção.
Muito podemos esperar e cobrar de Gustavo Felicíssimo.
                       Ele promete ... E cumpre.


                                                                                Jorge Elias Neto




segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

1°de janeiro

Um poema já conhecido de muitos que acompanham este blog.
Mas não tenho nada mais significativo para postar neste momento ...



1°de janeiro







Após o pão e circo,
sigo em busca da ciência de desinventar.


No vazio do salão amanhecido
ainda ressoam os ecos dos champanhes,
os alaridos esperançosos,
os sussurros de cumplicidade.

De sólido,
ficaram os confetes e serpentinas,
que nada entendem da solidão.



(do livro Rascunhos do absurdo)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CONVITE - COLETÂNEA NA PAISAGEM DOMÉSTICA - PORTAL CRONÓPIOS

Prezados leitores:

Convido para leitura de uma coletânea de meus poemas entitulada Na paisagem doméstica
no Portal Literário Cronópios. http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4845
Aproveito para desejar à todos um fim de ano de descanso e harmonia.
Muita saúde, felicidade e poesia em 2011.
Muito amor e atitude ética.
Beijo para todos.

Jorge Elias Neto

domingo, 12 de dezembro de 2010

Nydia Bonetti

havana



na rota dos meus sonhos
ainda te encontro
con sus guitarras y cantos
sus poemas de arcilla y piedra
minerales y hojas
ojos de tabaco y doçura
manos de esperanza
fuegos de ternura
habana
(reconheço-me ilha)
cenizas de lo que soñé



setembros


o tempo
corrói a vida pelas bordas
insaciável
já devorou
mais da metade do que sou
[...ou do que fui?
e nos setembros
ele arranca pedaços
inteiros



Nydia Bonetti, 1958, do interior de São Paulo, poeta e engenheira civil, tem poemas publicados na Revista ZUNAI e outras mídias eletrônicas. Bloga no LONGITUDES, trabalha atualmente no projeto do seu primeiro livro, ainda sem título definitivo.
blog: http://nydiabonetti.blogspot.com/

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

FERNANDO PESSOA


A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada feliz - tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra.
Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para ti, em amá-los. Veste teu ser do ouro da tarde morta, como um rei deposto numa manhã de rosas, com Maio nas nuvens brancas e o sorriso das virgens nas quintas afastadas. Tua ânsia morra entre mirtos, teu tédio cesse entre tamarindos e o som da água acompanhe tudo isto como um entardecer ao pé de margens, e o rio, sem sentido salvo correr, eterno, para marés longínquas. O resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos, a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio sobre a nossa hora de desengano. Assídua, a máguo estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.
Meu destino é a decadência.
Meu domínio foi outrora em vales fundos. O som de águas que nunca sentiram sangue rega o ouvido dos meus sonhos. O copado das árvores que esquece a vida era verde sempre nos meus esquecimentos. A lua era fluida como água entre pedras. O amor nunca veio àquele vale e por isso tudo ali era feliz. Nem sonho, nem amor, nem deuses em templo, passando entre a brisa e a hora una e sem que soubesse saudades das crenças mais bêbadas, mas escusas.


Fernando Pessoa
(Livro do desassossego - Companhia das Letras)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Massa


Para uns,
ruínas – degredo.
Para outros,
planície Divina,
colinas de nuvens.
Eu,
banido pela consciência,
permaneço – altivo.
Massa amorfa
dentre os dejetos
do Universo.

 
 
Jorge Elias Neto

sábado, 27 de novembro de 2010

das sombras

A mínima distância
já é um desencontro.

(Vestia seu corpo
com as rendas da íris...)

Restam noites de dilatadas pupilas
a vasculhar indícios do derradeiro gozo.

No horizonte dos lençóis,
a sombra da silueta persiste.

Como persiste os miasmas
dos pés enlaçados.

Só miragem na depressão do leito.
E um em torno de sombras devassas.


Jorge Elias Neto

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Fotografia






Rosto obliquo – velado
Desvio na fenda da fala
Gestos sem crias
Vazias mãos incestuosas
Obscuras manchas
na pele clara
Mãos em posição de intriga
Coto de vela escorrida
nos cabelos de fogo
Ombro suspenso,
derradeiro encosto
Olhar fitando intervalos
Sob um fundo de rosas
o sol posto

Jorge Elias Neto

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Antonio Carlos Secchin

Não, não era ainda a era da passagem
do nada ao nada, e do nada ao restante.
Viver era tanger o instante, era linguagem
de se inventar o visível, e era bastante.
Falar é tatear o nome do que se afasta.
Além da terra, há só o sonho de perdê-la.
Além do céu, o mesmo céu, que se alastra.
num arquipélago de escuro e de estrelas.

(Antonio Carlos Secchin in: Todos os Ventos - 2002 - Ed. Nova Fronteira)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Romério Rômulo


"vejam bem ” ( para zeca afonso )



é difícil o caminho do corpo,
mais estranho é o caminho do pão.
são estradas, vieses malditos
repisados e feitos à mão.

as estradas do corpo, aventura,
velhas carnes postadas no chão
são estradas ardidas, agrura,
entranhadas no teu coração.

quando o vale da noite ensurdece,
acontece na vida um desvão,
todo o pão se resvala na noite
que te sobra na palma da mão.


romério rômulo, julho/2010

Romério Rômulo nasceu em Felixlândia, Minas Gerais, e mora em Ouro Preto, onde é professor de Economia Política da UFOP. Prefaciou a primeira edição assinada das poesias eróticas de Bernardo Guimarães, “O Elixir do Pajé” (Dubolso, 1988), mais de 100 anos depois da edição original. Já publicou diversos livros, como “Só pedras no caminho pedras pedras só pedras nada mais” (Lemi, BH, 1979), “Anjo Tardio” (Edição do Autor, Ouro Preto, 1983), “Bené para Flauta e Murilo” (Edições Dubolso, Sabará, 1990) e a caixa “Tempo Quando” (contendo 4 livros em 2 volumes, Dubolso, 1996). Seu último livro é “Matéria Bruta” (Altana, SP, 2006). Atualmente, prepara um livro de poemas sobre o amor.



Contato: romerioromulo@hotmail.com

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Borgiana II


Repousa o veludo da pele
tigre selvagem,
nessa distante gleba
a qual chegastes por caminhos incertos.

Lembranças grisalhas, velho tigre ...
Compartilho teus dentes nada castos...

Restou-nos o passado...
E suas páginas
de bordas marcadas.
Sempre reviradas, velho tigre,
para não esquecer de outros dias.

(O que nos resta quando o orvalho se perde no esquecimento?)

Nas catedrais, teu ouro roubado.
Depois raspado dos pilares
para cobrir os dentes.
Como se sorrir dourado
os fizesse arremedo de gente...

(Quanto de tua mordedura permeia nossos sonhos?)

Não se traduz o mistério de tuas escápulas,
nem a névoa em teus olhos...
Quem sabe a milonga nos taquarais
ou tuas listras obliquas,
resistam ao imprevisível fim.

Tardam as horas ...
Cada expectativa tem teu cheiro.
E se esforça
para caber no poema.

Jorge Elias Neto

Vitória, 29 de outubro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

CONVITE PARA LEITURA - PORTAL CRONÓPIOS DE LITERATURA BRASILEIRA





Convido para leitura do texto com poemas que
publiquei no Portal Cronópios de Literatura Brasileira.
Forte abraço para todos.
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4775

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Íntimo


Ondas guardadas,
não devolvem o gosto de sal
aos lábios despidos
de lembranças.

Deixados sós,
os lábios,
não se desviam do destino.
Mas o súbito tranco
da cancela dos dentes
intimida o deslizar da língua.

Hóstias - estrelas
no firmamento
da boca -
aprisionaram o desejo.

O corpo se abre
e se fecha
à partir da boca.

Os lábios escancaram
um vermelho escandaloso;
                                   e se cala.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Borgiana I


Atiro os cacos
do espelho partido.
Busco-os no chão,
onde as imagens já se dispersaram.


Com o que resta na moldura,
brinco de cortar os dedos,
encaixando respostas
no rosto trincado.


E se, no entanto, a figura
se assemelha ao medo,
remisturo todo
o ser desfigurado.


Pois a faina louca
de remexer segredos
fez-me encontrar as sombras
dos dias passados.


Jorge Elias Neto


Vitória, 05 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Despedida

Existe uma impossibilidade
nas flores que brotam
na boca da menina adormecida.

Mas a menina apenas dorme
com a ilusão do beijo
brotando entre os dentes.

Jorge Elias Neto

domingo, 3 de outubro de 2010

Arquétipo – Um facho de luz sobre a sombra

"Nenhuma circunstância exterior substitui a experiência interna. E é
só à luz dos acontecimentos internos que entendo a mim mesmo. São
eles que constituem a singularidade de minha vida".
Carl Gustav Jung


                              O que se dispersa além dos olhos

                              diz do vacilo de não se ter sorvido o tempo.

Estarei na ultima idade.
Quando ruir a biblioteca
não restará mais nada.
Sem nenhum escrúpulo, já estarei
a mijar nas calças todas as cervejas
que pensei esquecidas.
Aprenderei que não só a memória,
mas também a bexiga dos velhos,
despejam seus guardados...
E como ancião,
terei em meus ouvidos um ruído agudo
a dizer da morte ...
(esse crepúsculo atravessado na garganta).
Mas minha memória recente, sempre desatenta,
privilegiará as flautas de antanho,
olvidando a impertinência dos últimos segundos.
Saberei que retive com primor
uma certa dignidade burguesa.
Execrada nos versos.
Denunciada no franzir da testa.
Em minha face retalhada,
Será definitivo
o rendado da ironia.
Recearei de alguns saberes, sem dúvida.
Mas um cristão tardio, espero não ser.
Lembrar: não fechar o ciclo previsível de tantos homens.
Não me permitir, ao menos, essa contradição.


Jorge Elias Neto

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um poema a ser escrito


                              Foto: Luis Henrique Borges

Que homem ruidoso medrou minha carne?

domingo, 26 de setembro de 2010

O poema acima de mim

Se disser tudo,
me restará apenas a última mentira.


Mas rente ao chão,
toda mentira resvala  na inutilidade.


Jorge Elias Neto

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Desejo


Rasgo-te entre os nós,
para ver desfiar tuas esperanças.

Esvazio a palavra,
para te corroer as entranhas.

Busco assombrar-te em teus sonhos,
para assim te sugar a alma.

Em tí despejo os dejetos de minhas vidas,
para te ver culpado pela minha existência.


Grito enlouquecido as minhas trôpegas verdades,
para que se faça cruel o teu destino.

Imagino e sorrio como o falso profeta,
para te ensandecer com verdades distorcidas.

Uso a sedução dos demônios convictos,
para te assinalar o abismo das excrescências humanas.

Por fim te beijo.....
O marco final do falso testemunho do que me fiz por teu amor.




Jorge Elias Neto - 2005

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Lente

FOTO: Luis Henrique B. Borges


Lente


Era outono...


Duas meninas
deixaram suas casas para trás,
na lonjura da esquina.


Eram crianças...


No pires dos olhos
ainda não transbordara a mentira;
ela apenas rodopiava...


E, por não bastar o milagre
da inocência,


era outono...

 
 
(Rascunhos do absurdo - 2010)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Caligrafia do bruto



                                      Para Sakineh Mohammadi-Ashtia



                 Quem  não tiver pecados que atire a primeira pedra!


Pedra atirada.
No ar,
uma réstia
da caligrafia do bruto.

Apedreja-se com força.
Quem sabe assim
desencarnam as frustações!...

Reconheço o homem na pedra.
Cada pedra trás seu nome.
A figura de um deus incompleto,
incoerentemente arremessada,
invalida a palavra: Humanidade.

Mas aqui,
neste instante,
em conformidade com os dogmas,
corrompe-se a alma,
deforma-se o molde.

A estranheza de lapidar o corpo.
A ironia de deformar o nome
do delicado gesto do artesão.

Garganta seca de suplicas.
Olhos vazados por lascas.
O ventre fendido
Já não tem fome de amor.

Despedaçado,
jaz o corpo da criatura humana,
jaz a beleza.
Sob o lençol branco maculado
pelo sangue dos opressores,
desfeito,
o arco dos lábios.

A mais terna face desfigurada.
Deixaram-na de lado;
é impura.
Já não se presta mais a prazeres
a carne macerada.



Jorge Elias Neto

domingo, 29 de agosto de 2010

Luz e sombra, uma questão semântica?


Luz e sombra, uma questão semântica?




Hoje sei que também a sombra se recolhe.

Resfria o solo

para o corpo que tomba,

no interminável instante

do anônimo suspiro.

O baque expande

as possibilidades da sombra.

Que se debate,

e rompe, deparando

num deslumbramento, com o Sol.

O paradoxo da despedida.

Parte se dispersa.

Parte se integra aos mortos.

A sombra debruçada

na mansarda da eternidade.

(Os ossos da baleia)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010




Na paisagem doméstica



E se dissesse: fica ...
Varreríamos de vez nossas obscenidades,
ou deixaríamos estendido
sob o chão de casa
esse falso tapete de culpas?
Vê essas garrafas enfileiradas?
Os silêncios que rasguei das paredes,
colei nos gargalos em que me perdi.
Na profundeza úmida,
resta, olvidado, seu nome.

(Os ossos da baleia



domingo, 22 de agosto de 2010

Mário Faustino


O HOMEM E SUA HORA


Et in saecula saeculorum: mas
Que século, este século - que ano
Mais-que-bissexto, este -
Ai, estações -
Esta estação não é das chuvas, quando
Os frutos se preparam, nem das secas,
Quando os pomos preclaros se oferecem.
(Nem podemos chamá-la primavera,
Verão, outono, inverno, coisas que
Profundamente, Herói, desconhecemos...)
Esta é outra estação, é quando os frutos
Apodrecem e com eles quem os come.
Eis a Quinta estação, quando um mês tomba,
O décimo-terceiro, o Mais-Que-Agosto,
Como este dia é mais que Sexta-feira
E a Hora mais que Sexta e roxa.
Aqui,
Sábia sombra de João, fumo sacro de Febo,
Venho a Delfos e Patmos consultar-vos,
Vós que sabeis que conjunções de agouros
E astros forma esta Hora, que soturnos
Vôos de asas pressagas este instante.
Nox ruit, Aenea, tudo se acumula
Contra nós, no horizonte. As velas que ontem
Acendemos ou brancas enfunamos
O vento apaga e empurra para o abismo.
As cidades que erguemos, nós e nossos
Serenos ascendentes se arruinam
(Muros que escravos levantamos, campos
Ubi Troja - Nossa Tróia, Tróia! - fruit ...)
E no céu onde a noite rui só vemos
Pálidos anjos, livros e balanças,
Candelabros, cavalos, crocodilos
Vomitando tranqüilos cogumelos
Róseos de sangue e lava - bestas, bestas
Aladas pairam, à hora de o futuro
Fazer-se flama, e a nuvem derreter-se
Em cinza presente.- Vê, em torno
De mesas tortas jogam meus sonâmbulos,
Meus líderes, meus deuses. Como ocultam
As cartas limpas, como atiram negros
Naipes no vale glauco de meu sonho!
Erza, trazem mais putas para Elêusis
E hoje Amatonte é todo o vasto mundo:
Prostitutas sagradas! - Se esta carne
Demais sólida pudesse dissolver-se,
Derreter-se e em rocio transformar-se!
Príncipe louro, oh náusea, proibição
Do mais ilustre amor, oh permissão,
Oh propaganda santa do mais rude!
L'amor che move il sole e l'altre stelle
Aqui parou, em ponto morto. Nem
Cometas hoje aciona, ou gestos de
Ternura move rumo aos eixos trêmulos
De seres enlaçados; nem desperta
Encantados centauros de seu sono.
Amor represo em ritos e remorsos,
Eros defunto e desalado. Eros!
(...)
Aqui devo deixar-te, Herói. Retiro-me
Para uma ilha, Chipre, onde nascido
Outrora fui, onde erguerei não uma
Turris ebúrnea, torre inversa, torre
Subterrânea, defesa contra as pombas
Cobálticas, columbas de outro Espírito -
Torre abolida! No marfim que leves
Lunares unicórnios cumularam
Em cemitérios amorosos, eu,
Pigmalion, talharei a nova estátua:
Estátua de marfim, cândida estátua,
Mulher primeira, fêmea de ar, de terra,
De água, de fogo - Hephaistos, sobe, ajuda-me
A compor essa estátua; fácil corpo
Difícil Face, Santa Face - falta
O sopro acendedor de tua esperta
Inspiração... à noite, enquanto durmo,
128 Cava-lhe, oh coxo, o gesto e o peito, pede
À deusa tua esposa dê-lhe quantos
Encantos pendem de seu cinto. Phanos,
Phanos, imagens de beleza, chagas
Na memória dos homens... pede a Hermes
Idéias que asas gerem nos tendões
Das palavras certeiras - logos, logos
Carregando de força os sons vazios -
Dá-lhe tu mesmo, Fabro, o mel, a voz
Densa, eficaz, dourada, melopaico
Néctar de sete cordas, musical
Pandora de salvar, não de perder...
Orfeu retesa a lira e solta o pássaro.
Pronta esta estátua, agora, os deuses e eu
Miramos o milagre: branca estátua
De leite, gala, Galatéia, límpida
Contrafação de canto e eternidade ...
(...)
Vai, estátua, levar ao dicionário
A paz entre as palavras conflagradas.
Ensina cada infante a discursar
Exata, ardente, claramente: nomes
Em paz com suas coisas, verbos em
Paz com o baile das coisas, oradores
Em paz com seus ouvintes, alvas páginas
Em paz com os planos atros do universo -
(...)
Vênus fará de teu marfim fecunda
Carne que tomarei por fêmea, carne
Feita de verbo, cara carne, mãe
de Paphos, filho nosso, que outra ilha
Fundará, consagrada a tua música,
Teu pensamento, paisagem tua.
Ilha sonora e redolente, cheia
De pios templos, cujos sacerdotes
Repetirão a cada aurora (hrodo,
Hrododaktulos Eos, brododaktulos!)
Que Santo, Santo, Santo é o Ser Humano
Flecha partindo atrás de flecha eterna -
Agora e sempre, sempre, nunc et semper...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Poema

Nada saberei dizer de tuas agruras.
A fenda obscura de teu beijo cala;
é ironia pura.
Disfarça a dura pele que trazes
a sustentar a boca
cariada de desejos.

Lembrarei apenas a distraída forma
que contornou certa manhã meus desencontros.
E percorreu-me afoita a alma,
e num enlace torto, desvendou meus medos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Hilton Valeriano




O JANSENISTA

A promiscuidade dos séculos.
Estar morto e não sabê-lo.


PASCAL


Ser e não obstante sucumbir
ante razões que não justificam
a recusa de ser perecível.


CIRCUNSTÂNCIAS

Vês a aparente necessidade de todas as coisas?
Aceite-as em sua fragilidade essencial.

Acolhimento e recusa aguardam incautos andarilhos.

Vês a perplexidade de todos os fatos?
Aceite-os em sua precária alegria de ser.

Resignação e esquecimento aguardam altivos andarilhos.

Acaso reclamas os despojos de tua derrota?
Soma de nulidades!

Todas as circunstâncias são inelutáveis.


Hilton Valeriano. Formado em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Residente em Hortolândia-SP. Tem poemas publicados nas revistas Zunái, Germina, Sibila, Jornal de Poesia, Veropoema, A Cigarra, Diversos e afins. Edita o blog Poesia Diversa:http://poesiadiversidade.blogspot.com

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

POMPEI


Foto: grávida - Pompéia


Revisito o silêncio das trevas.
Sonhos adormecidos,
desfeitos por gestos
que precedem a consciência.
Sigo nos séculos,
interrompido no ventre da mãe.
Restos calcinados,
dispersos, estremados,
entrecortados pelo espanto.
O Céu sabe das cinzas.
Sempre soube...
E aproveitou-se da inocência
dos que não me conheceram
para dizer que me negaram a existência
ao renegar o Deus, o Cristo.
O Céu, criação humana, é ilusório.
Não este céu furioso,
de fuligem e chamas;
este é terreno, pragmático,
irrespirável,
eficiente em devolver à Terra
suas entranhas.
Não este céu preciso,
entornando água,
moldando,
fazendo onipresente
o ventre que me gerou.
Estou onde não existo.
Persisto.
Desafio o intransponível tempo
nesse ventre vazio
que seu olhar disperso fita.
Parto contigo.
Em sua memória o calor da sombra que não fui.
Assim o caos, serenamente,
retingirá de verde o olhar baço.
Estou além do pretenso molde
que permaneceu guardado pela redoma de vidro.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Os ossos da baleia (Fragmento)


XXIV

Eis a introdução não escrita.
Alijada da obra.

Pensá-la, virou um hábito de reinicio;
pausa no entreposto das suposições.

Passado?
Mas os tomates podres são de um vermelho tão sincero...

(do livro Os ossos da baleia – inédito)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Silvério Duque



LÚCIFER
SOBRE UM POEMA DE MIHAI EMINESCU


à Cristina Nicoleta Mănescu, por sua história.


Sobrou de toda mágoa – e destas ânsias –
este anjo cujos olhos renasciam
entre os vôos que, nas asas, se insurgiam
por entre os céus sem fim e sem distâncias.

Ele girou em torno de seu rosto
num estertor de infinito que o nutria,
e, na manhã reescrita que o seguia,
vi a rosácea inconsútil de um sol-posto.

O anjo, de asas de sombra e luz que medra,
deixou seu nome em tudo quanto existe,
por ser, entre as estrelas, a mais triste.

Tudo que o anjo quis, perdeu na queda...
O ardor pelo que morre e o rosto terno
de alguém que se cansou de amar o Eterno.

(do livro Ciranda de sombras - inédito)


SONETO

Que sabes tu dos frutos, das sementes,
da dureza das flores contra o vento?
A aurora vem tragar a noite espessa
de onde brotou, sem dores, o teu grito.

Se a afirmação do amor nos aborrece,
morrer é mera vocação dos vivos,
pois, no morrer de tudo, há um recomeço.
Não queiras mal ao tempo ou ao espanto;

não queiras mal ao grão, à terra escura...
Que sabes tu das trevas ou da carne?
Que sabes tu das noites, dos princípios?

Hoje, é chegado o tempo dos retornos
e toda forma espera o seu ofício
como o vaso existente em todo barro.

(do livro A pele de Esaú - 2010)



SONETO

E o que eu adoro em ti é a tua carne,
porque tudo o que é vivo se deseja;
assim, desejo em ti o meu tormento
que há-de crescer na proporção do tempo.

O que eu almejo em ti é a tua sombra,
pois toda boca habita as mesmas vozes
que hão-de tecer com gritos o teu nome
na tarde azul tragada pela noite.

Beijo o teu rosto como se existisse
algum lugar pr’além do Precipício,
e, junto ao gosto de teu lábio esquivo,

uma palavra, sobrescrita em sangue,
há-de adornar o verso em que eu me esqueço
e há-de extirpar, do amor, a fúria imensa.

(do livro A pele de Esaú - 2010)


SILVÉRIO DUQUE – Feira de Santana, Bahia, aos 31 de março de 1978. Sua primeira grande paixão foi a música, a qual exerce profissionalmente desde os seus 12 anos, participando, como clarinetista, das Bandas Filarmônicas 14 se Agosto e Maria Quitéria, na cidade de Tanquinho. Mais tarde, coordenará por certo tempo a escola de música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense, em sua terra-natal. Após trabalhar como desenhista, restaurador e até mesmo como ajudante de mecânico descobre, bem antes de ingressar no Curso de Licenciatura em Letras Vernáculas da Universidade Estadual de Feira de Santana, seu mais verdadeiro ofício: o Magistério. Sua primeira obra publicada foi o opúsculo O crânio dos peixes (Edições MAC/2002), seguindo-se de Baladas e outros aportes de viagem (Edições Pirapuama/2006). Entre um livro e outro, participou de concursos literários, periódicos, bienais e vários projetos musicais e literários. Foi primeiro lugar, na categoria Poesia, da 3ª edição do concurso literário Bahia de Todas as Letras 2007/2008, realizado pelas editoras Via Litterarum e Editus/UESC, com patrocínio da Fundação Chagas. Seu trabalho também é encontrado nas antologias: II Prêmio Literário Canon de Poesia 2009 e Concurso Feirense de Poesia Godofredo Filho, como em vários sites de Literatura espalhados pela Internet A pele de Esaú (Ed. Via Literarum/ 2010) é o seu mais novo trabalho e, segundo as palavras do próprio autor, sua “obra mais madura, até então”. Seu próximo livro, Ciranda de sombras está no prelo.
Blog: http://poetasilverioduque.blogspot.com

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Alvorada



Há dias em que não amanhecemos. Somos ejetados da cama pela lembrança de nossas obrigações. Em dias como esses, confesso perder o senso do ecologicamente correto; demoro-me vaporejando pensamentos debaixo de uma ducha quente.
A pouca luz natural que se esforça em me lembrar que já é dia, é absorvida pelo negro dos azulejos. Lâmpadas apagadas; dia apagado.
São seis horas da manhã _ minto para meu reflexo no espelho.
Rapidamente a névoa recobre o ambiente e embaça o vidro do box. Nesse momento, parece que meu ciclo respiratório só se faz por expirações.
Aprendi a aproveitar para desenhar figuras na transitoriedade do quadro que se apresenta a minha volta: escrevo meu nome, desenho um boneco de cara alegre, faço um circulo perfeito, com um movimento rápido e egocentrado _ artifícios terapêuticos.
Recosto-me na parede e fico deixando a água corrente lavar a minha superficialidade.
Quando já não é mais possível manter-me ali, sem que trinque o relógio, conto até cinqüenta, desligo o chuveiro, e faço amanhecer o dia.

Jorge Elias Neto

terça-feira, 20 de julho de 2010

PEDRO NUNES


SONETOS

III


O meu corpo é ausente do seu corpo,
meu amor: a noite apenas começa
e não é senão o anúncio da dor,
essa dor do furioso cio, etérea

dor. A noite não engana do amor
a fúria mal contornada, a eterna
angústia dos que debruçam famélicos,
sobre o éter, o desejo e o vapor

da nave que flutuou em azuis.
Da sorvência das horas vãs palavras
nada podem. É tudo furta-luz.

O amor prescinde de lavrar a pá
o perfeito verbo: tudo conclui
que o amor é um vento apaziguado.

Pedro J. Nunes é escritor, autor de Aninhanha, Vilarejo e outras histórias, Menino e A pulga e o jesuíta (Prêmio Secult de Literatura Infantojuvenil 2009, a ser publicado em breve). Site: www.pedrojnunes.tertuliacapixaba.com.br .