quinta-feira, 15 de julho de 2010

LAMPEJOS


Desenho: Isadora

Lampejos


O polegar inquieto de Darwin.
A caminhada ofegante de meu pai,
lembrando a loucura do bípede
(e um se [ ... ] que não o trará de volta).
Os mil nomes da beleza.
Uma reviravolta.

Deslumbramentos
e inércia;
sem remorsos.

O refúgio das ruas,
com suas casas e prédios
a dar sentido as calçadas.

Não suportarei perguntar sobre as sobras.
E minha filha a indagar sobre estrelas...

Quando nada se espera, só a ilusão desta taça de vinho.
Só o carinho das mãos de Isadora,
só essa falsa idéia
de continuidade –
que pesa nos ombros de meus filhos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

4º aniversário da Diversos Afins - Edição especial - Convite



Prezados leitores:

Segue convite de Fabrício Brandão e Leila Andrade - editores da revista eletrônica Diversos Afins para leitura da edição de aniversário.
Parabéns e muito sucesso para estes amigos que tive a oportunidade de conhecer quando de minha visita a cidade de Ilhéus.

A 46ª Leva, através da exposição de escritores e artistas que integram nossa caminhada, tenciona prestar uma justa homenagem a todos os que, de algum modo, estiveram conosco em nossa infante existência. Saudamos a arte de Fao Carreira, Canato, João Colagem e Marco Angeli. Miramos um pouco de nós nas fotografias de Valéria Simões, Wellington de Medeiros, Antonio Paim e Ricardo Prado. Os poetas Neuzamaria Kerner, Jorge Elias Neto, Graça Pires, L. Rafael Nolli, Cássio Amaral, Ildásio Tavares, Felipe Stefani e Romério Rômulo nos ofertam seu lirismo. Nalgumas linhas de prosa, os contos de Roberta Tostes, Larissa Mendes, Rodrigo Melo e Alice Fergo percorrem densas vertentes humanas. A sabatina com o artista plástico Marco Angeli pontua os sensíveis diferenciais de uma carreira marcante. Bolívar Landi nos propõe olhares atentos ao filme argentino O Segredo de Seus Olhos. No Aperitivo da Palavra, um convite à leitura de Eros Resoluto, livro de contos do escritor Marcus Vinícius Rodrigues. Há muito mais nas entrelinhas do que podemos perceber e a cada leitor cabe uma particular e infinita conjunção de saberes e sabores. Agradecemos e saudamos a todos os colaboradores e parceiros e, em especial, aos leitores. Celebremos, pois, a vida e seus instigantes mistérios!

www.diversos-afins.blogspot.com

sexta-feira, 9 de julho de 2010

RUY ESPINHEIRA FILHO


O QUE SOMOS


Críticos dizem do poeta:
Um lavrador da memória.

Sim, certamente é isto, pois
dos nossos comos e ondes

só sabemos quando, diante
de nós mesmos, recordamos

nosso enredo nas batalhas,
as bandeiras, as mortalhas,

as trevas, as claridades,
os olvidos, as saudades...

Aqui, o riso. Ali, a dor.
E o amor. E o desamor.

Mas sabe o poeta das sendas
da alma de névoas e lendas

que, em meio ao que de nós vemos,
pode contar outras glórias

vindas de acordes profundos
que tecem, na história, estórias

(quase sempre onde ficamos
melhor: no que fabulamos).

Enfim, o que todos somos
é só o que até hoje fomos,

ou que sonhamos que fomos
(e então sonhamos que somos...)

E assim vai singrando a vida,
rumo ao indesejado cais.

E vamos nós, nessa ida,
levando tudo o que somos:

as ficções da memória
e o que já não somos mais ...





OUTRO ANIVERSÁRIO



Sessenta e cinco navegações
completas
em torno do Sol.

Tudo vazio onde prometeram
fulgurantes legiões
de anjos.

Nenhum deus
a não ser a lembrança dos que morreram
na alma
nm a um
belos ou hediondos
durante a viagem.

Sessenta e cinco vezes
a volta ao Sol
e nenhuma revelação
nenhum sentido
nada

além do cultivo de uma sombra
cada vez mais longa
no ouro agonizante
da tarde.



ESPINHEIRA FILHO, Ruy. In: Sob o Céu de Samarcanda. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil Editora,2009.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

CONVITE - ENTREVISTA



Prezados leitores:

O poeta e filosofo Hilton Valeriano mantém o blog POESIA DIVERSA, o qual acompanho regularmente em decorrência da qualidade dos poemas postados.
Além de poemas, Hilton tem publicado uma série de entrevistas com poetas. Nesta semana foi nossa vez de responder os questionamentos do poeta. Convido todos para leitura. Caso queiram, deixem seus comentários.

Forte abraço para todos.


POESIA DIVERSA> http://poesiadiversidade.blogspot.com/

terça-feira, 22 de junho de 2010

GERMINA LITERATURA - CONVITE



A excelente revista de literatura e arte GERMINA, na pessoa do editor e companheiro no CRONÓPIOS José Aloise Bahia, publicou uma coletânea de meus poemas.
Convido todos a acessar este periódico que vem se firmando como um dos mais bem elaborados em nosso meio.


Germina: http://www.germinaliteratura.com.br/index1.htm
Poemas no Germina:http://www.germinaliteratura.com.br/2010/jorge_elias_neto.htm

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Viajante Lunar



Hoje vi a Lua boiando tranqüila, nas águas de uma lagoa.
Mergulhei os pés na Lua.
Várias Luas surgiram, em torno de mim,
foram crescendo, crescendo...
Fiquei cercado pelo luar.

(Verdes versos - 2007)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Encosta do mundo


Na encosta do mundo
(sim, pois realmente existe um mundo
impensado por nossos contemporâneos
cientificamente munidos com incoerência),
um acaso de pedras
precipita-se sobre um mar inaudito.
Nela, as ondas batem
desfazendo precipícios.
Existisse o homem ali,
retomaria os mitos
ou se lançaria ao mar.
Mas findaram-se os séculos das navegações,
e pereceram, à força do fogo de canhões,
as últimas cidadelas.
Na encosta do mundo
o que se perde, não se conta como tempo.
A encosta do mundo
se preserva em uma dimensão
refutada pelo homem.

domingo, 23 de maio de 2010

Resenha do poeta Silas Correa Leite


Os Variados Corpos da Poesia Cor de Carne de Jorge Elias Neto
Rascunhos dos Absurdos da Dicotomia Vida/Morte e Seus Subterrâneos Letrais


“... A literatura é revanche de ordem mental
Contra o caos do mundo” Jorge Luis Borges



-Já recebi livro de aluno universitário, de professor, de jornalista, de profissional liberal, de publicitário e de livre pensador, até um que me assustou, no bom sentido, as páginas de rostos contristados de um juiz de direito, e até mesmo de um professor de medicina, ele mesmo médico e sonhador mexicano, mas, agora, recebi um livro de poemas de um médico cardiologista do Estado do Espírito Santo, o também poeta Dr Jorge Elias Neto. Será o impossível?

-Eu mesmo, poeta por acidente de percurso e exílio de existir, sempre sonhei ser médico. Sendo de origem humilde, pois não é que acabei poeta, trabalhando, por assim dizer, o bisturi da alma. Fiz tantos cursos, li feito um condenado à vida, até que achei, literalmente, um médico que, sim, trabalha o bisturi da alma, o bisturi da dicotomia vida/morte com a qual ele lida, escrevendo a poesia cor de carne; rascunhos de tantas vivências e subterrâneos desse rol de escreViver a vida por trás e por dentro da máscara de oxigênio, tirando a parte carbonária do ser sensível. Sobreviver é ser livro?

-O Poeta Gustavo Felicíssimo, pesquisador, ensaísta, já no prefácio muito bem articulado diz do Poeta Jorge Elias Neto: “Sua obra poética é marcadamente filosófica, metafísica e existencialista (...). Constrói seus poemas tateando o indizível, em busca da ciência de desinventar (...). Trabalhar a idéia da morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem diante dessa locomotiva (a morte – grifo nosso). O homem passa a ser o criador de suas verdades e realidades(...) e se lança na investigação identitária de si mesmo e no descortinar do sentindo da vida (...).

-Jorge Elias Neto é isso: um médico que labuta entre o sangue e a luz, na sua poesia cor de carne põe a razão, porque o coração arrebata estados de ânimos e ele mergulha na ciência de palavrear o ritmo alucinante da vida que tem em mãos; que órbita como se um médico a coagular momentos irados, versos que saltam como vidas sendo paridas do seu lado pensador, sentidor, gravitando entre a própria alma nau e as acontecências do entorno. Em que submerge tentando salvar vidas, mesmo que expondo sua alma ferida, questionadora. Poeta é feito de escamas das quais tenta se livrar, criando... “Na perspectiva da ponte/O pássaro solitário nunca volta” (Solo, in pg. 21). Eis o poema em vôo de libertação/arrebentação(?). Mais:

-“Levem-me as horas
Para os caprichos mundanos!

Já destaquei a etiqueta.

Tomei posse do individuo.

Será que não vêem
No meu antebraço
O carimbo de pago”

(A Prazo, pg 63).

-O escritor que se fez médico sabe que não nascemos prontos. Vamos nos fazendo (refazendo) entre agulhas e clichês - em cada escolha, cada corte, cada parto, cada vida que erramos, cada espectro que enfrentamos; a foice da morte, o rebento da vida, a dicotomia paz/horror, amor/dor, sensibilidade e declínio. Seus poemas mostram o homem moderno condenado a pensar-se. Como poeta assume esse compromisso além da lente, do bisturi e da máscara de oxigênio, numa sensibilidade ilimitada e numa desconfortável sentição do que é a bruta vida errada, do sistema bruto que é a saúde corporativada, barateada, do que é significante e do que gratifica o ser no servir, sentir, além de bulas e receitas, de achar-se acima das aparências e satisfações pessoais. É líquido e químico: viver também dói. Sentir é um retirada de etiquetas das coisas abomináveis com os quais nos defrontamos. Não há pílulas de existir a seco, que nos façam passar em branco os desafios, enfrentações íntimas e nódoas do cardume delicado da existencialização. Jorge Elias Neto rascunha de próprio punho as temperaturas do que mapeia. O DNA da alma não tem enredo do que capitular na criação. A Poesia é exigência; o resto é palavrório” nos diz Pierre Bertaux, in Holderlin, ou “le temps d´un poéte.

-O autor poderia simplesmente recolher-se no seu canto e se aproveitar do cargo, da posição profissional. Mas prefere ainda assim campear rascunhos e dizer-se também gerador de palavras, do fogo das palavras. Tem carapaça mas tem um organismo sensível. O poeta-médico sonha um ninho em que as palavras contenham a morte. “O poeta é um verdadeiro ladrão do fogo", disse Rimbaud. Resistir é fogo.

“Herdei de meu pai/Esse Cristo forjado em miolo de pão” (Cristo de Pão) é um dos melhores poemas do livro (pg 79). A morte permeia a obra, mas não uma morte-fim, mas uma morte continuação de algum modo. Poetar é plantar sonhos entre arames e muros. “Deixarei para as ondas decidirem/Sobre a imortalidade/Do meu nome na areia. (Epitáfio Desejado, in, pg 89). Lidar com a morte é questionar a vida. E questionar a vida é uma espécie de rascunho de morrer de algum modo; feito a canção de Fátima Guedes que proseia e pontua a dor: “Flor-de-ir-embora/É flor que se alimenta/Do que a gente chora”.

-A poesia de Jorge Elias Neto é exatamente isso: flor-e-cultura-de sobreviver. O absurdo de. Muito mais do que rascunhos, são poemas à flor da pele, porque escrever é também uma forma de estar Vivo, muito além dos pólos do vale da sombra da morte para onde toda alma caminha. Mas o autor, sabe sim, com alumbrada visão, transformar sapatos em borboletas...

-Os parênteses de sua existência/resistência doem em nós pelos seus versos que celembram além das lágrimas, as areias do tempo na soleira das idéias. Seu escrever é um testamento moral da sensibilidade guardiã de todas as esperanças. A dor existe, e estamos cercados dela. Mas ainda assim há aroma nos aluviões do seu poetar.

-Bendito seja o poeta que sabe o corte e sabe o ungüento da palavra para sempre, e de novo, e outra vez, e de levantar-se, argüir, continuar, pelos que se foram, pelos que se perderam no caminho, pelos que partiram antes de nós. Escrever pegadas. A crueza das letras respira vida, apesar de todas as perdas. Rascunhos Poéticos do Absurdo é isso. Um livro e tanto. Uma obra respirando a vida no seu fulgor. O universo de Deus deixa poemas suspensos no ar. Escrevê-lo é de quem enxerga além da vida, o píer do barqueiro e sua leva de estrelamentos. Paradas cardíacas não são fins em si mesmos? Escrever poemas clarifica os santos suspensos nas tábuas de esperanças sentidas, frutos de ocupações. De médico e poeta o Jorge Elias Neto tem a iluminura enlivrada.

-0-

Silas Correa Leite



Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras/Augusta Sampa
Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos
Pós-graduado em Literatura na Comunicação, USP. Prêmio Lygia Fagundes Telles Para Professor Escritor – Membro da UBE-União Brasileira de Escritores
Autor de Porta-Lapsos, Poemas, Editora All-Print e Campo de Trigo Com Corvos, Contos Premiados, Editora Design, finalista do Prêmio Telecom, Portugal, a venda no site www.livrariacultura.com.br
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue premiado do UOL: www.portas-lapsos.zip.,net

domingo, 16 de maio de 2010

Os ossos da baleia



I

Minha terra
é uma ilusão da linguagem.

Tenho de meu
esse rastilho de palavras
que pressinto atadas aos calcanhares.
Se o desfaço, perde-se
o encantamento das vivências cerzidas.

Sei que as mãos ensaiam obscenidades
entre dois espelhos.
Quero mesmo criar algumas reentrâncias
na estrutura dos olhares.
Mas olhos extraviados não ardem
no lugar comum em que me perco...

II

Dou conta de minhas cicatrizes;
e são bem humanas:
com cheiro de menstruação e defunto.

Para os crentes,
desejo o reino dos Céus.
Para mim,
a realidade.
Sou um desencontrado;
Não me cabem subterfúgios.


Jorge Elias Neto

terça-feira, 11 de maio de 2010

O ABSURDO EM VERSOS

Shirlene Rohr de Souza

Em um tempo tão desfavorável às atividades que exigem reflexão, a poesia parece ser uma entidade estranha, esdrúxula, lenta demais, pesada demais, talvez absurda. É nesta cena que Jorge Elias Neto lança Rascunhos do Absurdo, um livro que reúne poemas que desafiam a pressa, ou melhor, que desprezam a pressa. Rascunhos do Absurdo nasce das impressões de um cotidiano observado sem o frenesi do olhar coetâneo, viciado nas extravagâncias do mundo virtual e suas telas coloridas, tomadas por hipertextos sedutores como o canto das sereias.
Os poemas, divididos em quatro seções — “Livro de Notas”, “O estalo da palavra”, “Gaza” e “O encantamento do poeta Maratiba” —, formam, em tons cinzentos, um quadro abstrato no qual se revela a alma do poeta, desacreditada da lógica e ciente do absurdo da pretensa racionalidade e superioridade do homem.
Os temas que se erguem nos poemas de Jorge Elias Neto emergem do vão que se abre entre a vida e a morte. Eles tocam em feridas que a razão e a ciência tanto tentam declinar: a loucura, a dor, a morte, a angústia, a perda, a fome, a saudade. Mas no livro também há nesgas de cores mais vivas como o amor, o desejo sensual e o voo do pássaro.
É preciso dizer que os temas não se encapam de superficialidades: em Rascunhos do Absurdo, o poeta se envereda pelos caminhos dantes percorridos por filósofos e metafísicos. Todavia, seu percurso se define pelo traçado dos versos curtos, assentados em uma sintaxe segura e sólida que, paradoxalmente, trata do que há de mais insólito no viver. Sendo a palavra — absurda também — a matéria da poesia, as tentativas de expressar o indizível tornam os versos inquietos.
Nas letras dos versos de Rascunhos do Absurdo — salvo, talvez, nas fendas em que se lê paixão e sensualidade, rasgos de uma vida que insiste —, o espanto de alguém que descobre que a existência humana não tem sentido, verdade que se esconde atrás da esperança, sentimento que, como lembra Nietzsche, foi único mal que não conseguiu escapar da caixa de Pandora.
Na descrença, presente nos versos pesados, outro aceno nietzscheano: os ombros do poeta suportam o peso do mundo. Mas ele sabe que o absurdo, talvez, seja o traço que guarda aquilo que há de mais humano, demasiado humano, no homem, ainda que a ciência e a razão, em discursos admiravelmente lógicos, defendam o sentido da existência humana.
Em Rascunhos do Absurdo, o leitor — este que se distingue na massa indivíduos ávidos por imagens coloridas — poderá sentir as influências de Camus, Nietzsche, Borges e Dostoievski, entre outros pensadores que ousaram a confessar publicamente, em seus escritos, que naquilo em que a sociedade insana enxerga a lógica, o poeta e o filósofo enxergam o absurdo.

Shirlene Rohr de Souza é professora da Universidade do Estado de Mato Grosso.

domingo, 9 de maio de 2010

DIA DA MÃES - VÓ BELA

O lançamento foi ótimo, maravilhoso ... Mas não poderia me omitir e não deixar uma homenagem as mães. Não sou afeito as datas comemorativas, entretanto me curvo diante daquela que desde pequenino me susurrou poemas, todas às noites, me empurrando para a trilha de pedras marroadas em que me perdí, por amor.
Uma homenagem para Isabel Teodomira Pereira.
Meu primeiro poema publicado.

Vó Bela


Para minha avó Isabel Teodomira Pereira


Ainda te vejo terminar os dias
cozendo a colcha de retalho de tua genealogia.
Sabias, sim, os segredos da vida,
única explicação para a transparência de teu olhar...
Entendias também os sortilégios da morte.
Muitos dos teus já tinhas visto partir no nefasto trilho do fim absoluto.
Confesso não ter conhecido quem melhor divagasse entre magos e dragões,
conhecesse os cordéis do seu povo,
que, vestida de santa, ensaiasse noites inteiras os martírios do ser divino.

Usou o apoio imprevisto das estrelas e se fez poetisa.
Recitando os versos de seus heróis sertanejos,
embalaste o sono do pequeno ávido,
e plantaste o sonho que agora luto
para não se esvair.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

CONVITE - LANÇAMENTO DE RASCUNHOS DO ABSURDO



A poesia de Jorge Elias Neto


Ao merecer o privilégio de ler Rascunhos do absurdo antes de sua publicação, compreendi, de imediato, que me encontrava diante de um poeta que pretendia dar mais força às palavras, na invenção do belo. E senti isso de pronto ao ler “Régua quebrada”, onde destaco:

“Não me importo/em numerar as penas do cisne.”
“Cato palavras de aluvião. Insisto na ingenuidade da metamorfose./
“Só sei transformar sapato em borboletas.”

No poema “Só sei que vou te amar”, a gente tem que admitir, como um perfume anódino, esta verdade etérea do poeta:

“Aceitar o fato/que os grãos de areia não sonham.”

Também no poema “Cúmplice”, não há como negar-se um toque de flauta na alma:

“Já coloquei todos os parênteses/em nossa existência. / A porta ficou fechada/
para a monotonia da brisa.”

Outro poema que tange bandolim em nosso coração é “Testamento moral”:

“Na soleira da porta/a lágrima escorre/limpando a pegada do poeta sonâmbulo.”

E como pretendesse perfumar a nossa tristeza com a sua própria dor, Jorge Elias nos presenteia com o poema “No entorno”, com estes versos que têm aroma de saudade:

“ Enquanto tivermos pulmão para soprar as pétalas/
Exerceremos o ofício temerário de celebrar a vida.”

Para não roubar ao leitor a oportunidade de descobrir mais encantamento na poesia de Jorge Elias Neto, recomendo, finalmente a leitura de “Sonho no absurdo”, que contém o terceiro capítulo do livro – GAZA.
Para quem já visitou Israel em três oportunidades, inclusive a região de Gaza, a última parte de Rascunhos do absurdo, é de deixar o coração em chamas, pela beleza incendiária dos seus versos. Por isso mesmo, reservo-me o direito de deixar ao leitor a oportunidade de sofrer esta ode extraordinária sem minha interferência, mas concluindo, envaidecido, reproduzindo, como se fossem minhas, as mesmas palavras do poeta e pesquisador Gustavo Felicíssimo: “É certo que, com essa potência e consciência literária, a poesia de Jorge Elias Neto enquadra-se neste momento, sem nenhum alarde, no rol daquilo que de melhor e mais significativo vem sendo produzido por nossos poetas contemporâneos. E ele nem sequer desconfia disso.”

Berredo de Menezes

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Jô Drumond - Convite e Poemas



FACES E DISFARCES

Traço retraço
Formas disformes
Faço refaço
Versos dispersos
Submeto as formas
Subverto os versos
A anteface disfarça
Meu "eu" retorcido
(2000)


LABIRINTO FILOSÓFICO

Passei toda minha vida
Perseguindo mil porquês

Procuro ainda a saída
Sem fio pra me guiar

Não paro nunca a andança
Atrás do impoderável

Da vida não levo nada
Não sei se deixo saudades

Mas deixo aqui palavras
Que não se apagarão

E deixo também minhas duvidas
Àqueles que virão

(2001)


MEMÓRIA PEREGRINA

Com iscas de nostalgia
E anzóis vergados de saudade
Pesco retalhos da vida
Nos abismos da memória

Nos arpejos do presente
Emerge o passado
Com sabor de futuro

(2007)


Jô Drumond (Josina Nunes Drumond)
Escritora, poeta, pesquisadora e tradutora

É doutora em Comunicação e Semiótica pela Puc/SP e mestre em Estudos Literários, pela Ufes. É pós-graduada (lato sensu) em Arte e Cultura Barroca, pela Univ. Federal de Ouro Preto e em Literatura de Língua Portuguesa, pela Ufes. Tem três graduações: Letras, pela UFMG, Língua, Literatura e Civilização Francesas, pela Université de Nancy (França), e Artes Plásticas, pela Ufes.

Tem diversas publicações (poemas, contos, crônicas, ensaios) em livros próprios, em antologias, em revistas de pós-graduação, em anais de congressos, e na Internet.

Atualmente é Diretora Cultural da Aliança Francesa de Vitória, Tradutora Juramentada do Estado do ES, membro da Academia Espírito-santense de Letras, Vice-presidente da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, membro do Conselho Estadual de Cultura. É também membro correspondente da Academia Feminina Mineira de Letras.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Noir - Facetas da alma ( I )


Filme: Noir


Um olhar,
na ausência,
é insubornável.



Noir

Disseste
que a corda
apazigua os desencantados.

Disseste
que a terra treme
nas bordas
do despenhadeiro.

A terra não tem nada
com teu descontentamento.
Ela é acima de qualquer suspeita.

É que a luz só atinge tuas costas.

Hoje,
a estupidez não é mais um traço,
é um demônio que se agiganta.

(Rascunhos do absurdo – 2010)




Dialética do desenlace

Para o interlocutor ausente



Estamos sós.
E a tristeza que invade os espaços íntimos
não permite sobriedade.

Desfazem-se gestos
para evitar a tortura de sentir-se interpretado.

Quando calar-se
é um virar de costas.

(Inédito)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Realidade - Facetas da alma (I)



Meu punhal tem duas faces:
a que brota
e a que geme.


A realidade de cada um


Desconheço a ordenação dos anjos,
mas sei das cores nas fachadas das casas.

Na foto antiga, as casas já receberam
O insofismável tom trazido pela areia do tempo.
Naqueles olhos ausentes,
que cruzaram desapercebidas
a falsa eternização do momento,
surpreendo o olhar humano.

Desconheço a verdade dos santos,
mas tenho aprendido sobre a mutilação do desejo.

(Verdes versos – 2007)



Rotina

Convivia-se com a conformidade
de ter o universo próximo de casa.

O espaço delimitado
pelo absurdo traço da conveniência
era marcado pelas solas dos sapatos
(e trazia a fotografia do mijo
fora da privada).

Para o gozo o número era par.
Pouco importava a singularidade da morte.

(Rascunhos do absurdo – 2010)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sem fichas - Facetas da alma (I)


Não encerro, dentre meus subterfúgios,
a idéia de passagem.


Refutação do tempo humano

O homem aquietará.
E juntos, todos os ponteiros
deixaram de ter sentido.

(Inédito)

Sem fichas


A vida não é um jogo de baralho.
Não poderei simplesmente dizer “passo”.
Não me chegará às mãos
meu atestado de óbito.

(verdes versos 2007)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Heitor Brasileiro Filho


Foto: Julay

REGRESSO DE SOSÍGENES

Um barco ancora
no cais de Belmonte
trazendo um sobrevivente
do naufrágio de Caronte

um espectro observa
longamente
à sombra dos casarís
a igrejinha resignada
& o antigo chafariz

um vulto retorna
para rever a sua gente
traz na cabeça a aureola
do sol
nos olhos
pétalas de girassol
& o coração recontente

nem a hera sob a estrela
nem a treva que a trai
nem o acinte nem o açoite
só a brisa vê o bonsai
comungando com a foice

tudo era tão arrumado
como um buquê
de algodãodoce

terno - de PalhaçoVerde -
calça de nuvem ocre-azul
calçado bi colorido:
musgo - na pele
pérola - no bico

ascende pegadas de fogo
no horizonte amarelecido

& sob a camisa ornada de rendas
nem abotoaduras de ouro
nem os botões de madrepérola

mas
(
sob a camisa
de rendas
)
seus amores
& uma prenda




B A N Z O

Uns morrem de bronca
outros de azia
neurópida
arrelia ...

Meu avô Zeca morreu de banzo
bem ele dizia:
todo homem tem um limite

Zeca Moreira agora está quite
com a vida
(nosso tempo e suas diatribes)
orgulhoso morreu de banzo
cria mais honroso
que morrer de gripe

do homem centenário
áspero
rústico
ficou o camponês cuidador do gado

até com a idade foi ante perdulário
preferiu morrer aos noventa e seis
mas, bom temente, não marcou
horário
(como bem cria
julgou ser mais honroso
que uma broncopneumonia)

Vingou-se do tédio e humilhou a dor
zombou da angústia e da nostalgia
e com ele foi-se uma legião
de arcanjos
louvar-lhe a coragem e a rebeldia

Uns morrem de bronca
outros (quando o fígado
vira bife) de aleivosia

vaidoso
meu avô Zeca
morreu de Banzo






CRACK


Não havia mais
caminho


uma pedra




O F I C I N A


Aceito o ofício –
o exercício da liberdade
é o mais caro de todos os vícios
– a graça

como um padeiro oficia
o trigo que nos sacia
sigo o rito da li–
ber da de em exercício
o pão nosso de cada dia

Enquanto o universo conspira
enquanto o homem maquina
a palavra oficina:
despe-me da agnostia
& põe-me a conversar com Deus
no balcão do bar da esquina
que teima em ser padaria

Nem diário escrito
nem memória iconográfica:
escrito diário
festa esferográfica
desafio:
cio iconoclasta

incontrolável rio
que a tudo rui
inunda
anima
& arrasta

As margens que o oprimem
exalam em orifícios
do elo
contra a corrente
de frialdade
sublime
des atam

Assim abraço o ofício
o exercício da liberdade
o mais elevado de todos os vícios
a graça


Heitor Brasileiro Filho é natural de Jacobina, Bahia, nascido em Setembro de 1964. Radicado em Ilhéus desde 1994. Licenciado em Letras e pós-graduado em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa (UESC). Ensaísta, cronista e poeta com destacada participação em concursos literários. Possui poemas publicados na imprensa baiana e em Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna

sexta-feira, 19 de março de 2010

Luiz Guilherme Santos Neves


As migalhas de ouro

“ide à cidade, à casa de um tal” (Mateus, 26,18)



Eu sou aquele que preparou a ceia do senhor, aquele que o acolheu com os discípulos, aquele que serviu a comida pascal. Primeiro, pela manhã, chegaram Pedro e João, e disse um deles: “O tempo do mestre está próximo. Isso ele mandou dizer”. E completou: “Vimos preparar a ceia em vossa casa, porque essa é a vontade dele”.

Conduzi-os então à parte superior da casa onde lhes mostrei a grande sala branca, mobiliada com coxins e com a mesa retangular com tampo de grande grossura. Disse-lhes: “Eis a sala e eis a mesa onde será a ceia do senhor. Ide e dizei-lhe que na hora vespertina aqui estarão o pão e o vinho; e os alimentos serão servidos sobre toalha de linho branco. Porque sendo essa a sua vontade é também a minha vontade e o meu prazer de servir”.

Antes de sair, um dos dois, que era um dos Doze perguntou: “Quem sóis vós? Respondi: “Eu sou aquele que servirá a ceia do senhor, o que estará presente e será omitido, cujo nome jamais será sabido, mas que terá olhos para ver e ouvidos para ouvir e, em mudez e quietude, testemunhará, porque será o décimo quarto participante.”

Ouvindo essas palavras eles se foram em silêncio.

Caindo a tarde, vieram todos e abri-lhes a porta e os conduzi ao andar superior onde entraram na sala mobiliada e pronta. E pôs-se Jesus à mesa com os doze discípulos. E se assentou ele ao meio dela, e não na cabeceira; e, de cada lado dele, à direita e à esquerda, eram três daqueles seus discípulos, e os seis restantes, pelo lado contrário, de maneira a ficarem os doze em dianteira uns dos outros, permanecendo vazios os flancos da mesa. Após orar em silêncio, disse-me Jesus: “Seja servida a ceia”.

E eu os servi a cada um em seu lugar. E junto deles, ao lado de suas destras, havia pão e vinho; mas eles não os tocaram.

Durante a refeição, Jesus tomou do pão ao seu lado, benzeu-o e o partiu em doze porções que distribuiu aos discípulos dizendo: “Tomai e comei isto é o meu corpo.” Pegou depois o cálice, onde derramei o vinho, deu graças, e o fez correr entre os discípulos, dizendo: “Bebei dele porque isto é o meu sangue.”

Tendo eles assim provado do pão e do vinho, dirigiu-se Jesus a mim, de pé, próximo à mesa, e, separando uma hóstia de pão e um pouco de vinho, deu-me com estas palavras: “Comei e bebei; sóis presente entre nós e tende vez à comunhão”. E tendo eu feito como ele ordenara, vi quando tomou do pão e do vinho, e ele próprio os levou à boca, primeiro o pão, depois o vinho.

Em seguida, havendo me pedido uma bacia cheia d’ água e uma toalha, com ela cingiu o corpo após depor as vestes. E a cada discípulo lavou os pés com a água da bacia enxugando-os com a toalha com que estava cingido. E assim tendo feito a todos o fez também a mim. E disse depois de nos lavar os pés: “Vós estais puros, mas nem todos,” referindo-se ao Iscariotes. E acrescentou solene, embora tranqüilo, lançando, todavia, inquietação entre os discípulos: “Em verdade vos digo que um de vós me há de trair”.

Ouvindo estas palavras, perguntaram-se todos, entreolhando-se e entreolhando-me: “Porventura será quem?” Respondeu-lhes Jesus: “Aquele que pôs comigo a mão no prato”. E vimos que, assentado em frente ao mestre, a mão de Judas tocava a de Jesus no prato entre ambos.

Tendo assim revelada a sua perfídia, ergueu-se o filho de Simão Iscariotes, e levando a bolsa presa à cinta, tomou o rumo da escada. Estando trancada a porta da casa, eu o segui para abri-la. À saída, ouvi-lhe as palavras: “Habitará em mim a traição porque assim será preciso. Serei o figo da figueira, o instrumento das profecias. O caminho da crucificação e da ressurreição passa pelo meu corpo e será a danação da minha alma”. A seguir, retirou-se.

Quando tornei à sala, já todos estavam de pé e se aprontavam para sair. Seguido dos discípulos, disse-me Jesus: “Bendito sois vós que me recebestes em vossa casa e nela me oferecestes a ceia da Páscoa. Rogo ao pai que vos fortifiqueis por este ato”. E se foi e se foram.

No dia seguinte, entre a hora sexta e a nona, abateram-se as trevas sobre a terra. Uma mulher vendo-me sair de casa nessa súbita obscuridade e sabendo que eu havia recebido Jesus, gritou: “Aquele hospedou o rei dos Judeus, deu-lhe de comer e de beber.”

Logo uma pequena multidão se pôs em fúria e com tochas atearam fogo à casa que ardeu o tempo das trevas daquele dia.

Quando o fogo baixou e esfriaram as cinzas, os que puderam ver viram e maravilharam-se: da casa ardida restavam intactas a mesa e os coxins, e luziam como ouro as migalhas do pão partido sobre o tampo da mesa. E os que viram isso, acreditaram que ali tinha estado o filho de Deus.

(Publicado na Revista Letra, ano IV, 1984, Vitória-ES).


Luiz Guilherme Santos Neves (Vitória, ES, 24/9/1933). Professor, historiador, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e do Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo. Publicou, como ficcionista, entre outras obras, os romances A nau decapitada (1982), As chamas na missa (1986), O templo e a forca (2000), O capitão do fim (2002), Torre do Delírio (contos, 1992), Escrivão da Frota (crônicas, 1997) Crônicas da Insólita Fortuna (crônicas históricas, 1998), Memória das Cinzas – Encontro Póstumo com Fernão Ferreiro (2009). Na literatura infantil: História de Barbagato (1996); Eu estava na armada de Cabral (2004); Eu estava no começo do Brasil (2006). É autor de várias obras didáticas e de pesquisa histórica, muitas delas em parceria com Renato Pacheco e outros, entre as quais Espírito Santo: Impressões (1991), Espírito Santo, Brasil (1994), Índice do folclore capixaba (1994), Dos comes e bebes do Espírito Santo (1997), Vila Velha da Senhora da Penha (1997), Mão e obra: O artesanato do Espírito Santo (2001) e Mar de âncoras: o comércio exterior do Espírito Santo (2003), além de cinco obras para o Projeto Memória Viva, da Prefeitura de Vitória. Na área do folclore publicou Breviário do Folclore Capixaba (2009) e participou da equipe que produziu o Atlas do Folclore Capixaba (2010)

domingo, 14 de março de 2010

Dia da poesia e dos poetas

Aos poetas e leitores, minha homenagem nesse 14 de março.
Juntem os olhos da criança,à flor da quaresmeira.
Juntem as páginas que me dei às suas páginas,
e voem em paz.

Um abraço para todos



Ilha de Vitória
Foto: Gabriel Targueta



Qual Poema


Não seria um poema épico
que completaria a farsa humana.
Muito menos um dístico romântico,
falso artifício lunático de um sonhador.
Quem sabe o áspero concreto,
menos homem e mais objeto...?
Talvez o moderno José
pudesse garimpar em cada um
a fortuita questão do porquê...
Não seriam flores, amores,
não seriam ilusões e esperanças.
Nem a bossa, nem a farofa
nem mesmo urubus e girassóis.
Santa Maria Egipcíaca teria lido nos olhos duros do barqueiro
a síntese do que poderia ser dito?
Seria em haikais ou trovas
que encontraríamos o que vem após os dois pontos?...
Estaria na poeira sertaneja dos cordéis
o ferir fatal da peixeira que cortaria o fio da palavra?
Não, penso que na imagem dentro de cada um esteja o poema definitivo,
que jamais poderá ser escrito.

( Verdes versos - 2007)



Sobre o que se espera...




Do Poema

Tudo se espera do poema.
Que seja o contraponto da realidade,
o remanso para o repouso do herege,
o inferno permitido para as paixões contidas.

No poema, o que se procura é o ar diferente
que se vai buscar no expirar delirante de um poeta.
Como se o poeta fosse só delírio...
O poema se fez da vida do poeta;
é ele que o espera.

Do Poeta

Nada mais que a diferença.
O ser quase divino que veio ao mundo
tocado pelos deuses.
O que não se percebe, ou pelo menos não
se quer perceber, é que ele só foi tocado pela
[contradição humana.
Para quem muito espera do poeta-homem, vale o conselho:
atenha-se apenas aos seus versos.
Ele é apenas o exemplo típico
da máxima de Nietzsche:
“A arte existe para que o homem não morra da verdade”.


Do encontro entre o Poeta e o Poema

Que da simplicidade do artesão
resulte a palavra-arte.
E esta deixe para trás o homem
e siga sua trilha para a eternidade.

(Verdes versos - 2007)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Jorge Luis Borges


Cristo na cruz


Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.
As três vigas são de igual altura.
Cristo não está no meio. Ê o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das lâminas.
È áspero e judeu. Não o vejo
e o seguirei buscando até o dia
último de meus passos pela terra.
O homem violado sofre e cala.
A coroa de espinhos o lastima.
Não o alcança o escárnio da plebe
que viu sua agonia tantas vezes.
A sua ou a de outro. Dá no mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
pensa no reino que talvez o espera,
pensa em uma mulher que não foi sua.
Não lhe é dado ver a teologia,
a indecifrável Trindade, os gnósticos,
as catedrais, a navalha de Occam,
a púrpura, a mitra, a liturgia,
a conversão de Guthrum pela espada,
a Inquisição, o "sangue dos mártires,
as atrozes Cruzadas, Joana D'Arc,
o Vaticano que bendiz exércitos.
Sabe que não é um deus e que é um homem
que morre com o dia. Não lhe importa.
Lhe importa o duro ferro dos cravos.
Não é um romano. Não é um grego. Geme.
Nos deixou esplêndidas metáforas
e uma doutrina do perdão que pode
anular o passado. (Essa sentença
foi escrita por um irlandês em um cárcere.)
A alma busca o fim, com urgência.
Escureceu um pouco. Já morreu.
Anda uma mosca pela carne quieta.
Que pode me servir que aquele homem
tenha sofrido, se eu sofro agora?

Kyoto, 1984

in: "Os Conjurados" - 1985

quinta-feira, 4 de março de 2010

Dia da mulher


Preto e branco


Para Lourdes, a primeira mulher da minha vida

No tempo de meu eu-menino
(um dentre os vários eus que se vêem acumulando
nessa agenda de horas incompreendidas),
me perguntaram se eu achava minha mãe bonita.
Eu a fitei de longe
(com aqueles olhos que ficaram no ontem),
e respondi, com a convicção de minha maior verdade:
– Minha mãe é linda!



(Verdes versos - 2007)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Fernando Pessoa


Cristo é uma forma da emoção.
No panteão há lugar para os deuses que se excluem uns aos outros, e todos têm assento e regência. Cada um pode ser tudo, porque aqui não há limites, nem até lógicos, e gozamos, no convívio de vários eternos, da coexistência de diferentes infinitos e de diversas eternidades.

(Fernando Pessoa in Livro do desassossego - COmpanhia das letras
Pág - 265)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Paulo Sodré


Foto:Fernando Maués


De
Poemas de pó, poalha e poeira
(2009)


O que se adivinha tanto pelas mãos

1.

Poema não medra
em terrenos propícios.

Daninho, alastra-se
palavra afora,
ilegal, ilícito, liberto.

Poema não pede
licença, permissão:
dá-se, inunda, invade.

Silencioso, espalha-se,
versos às tontas, à toa,
gentil, receoso ou maltês.


2.

Não que o poema
seja tolo e tosco
a romper portas,
arrogante como o tempo.

Não.

Cheiro fresco de murta,
aragem, imiscui-se ele nas frestas
que o encantamento
franqueia, abre, permite.

(Sim)

Um poema adentra,
onde o encanto, fluido,
autoriza janelas e fendas.


3.

Onde suas mãos:
a esguia clareza.

Quando suas mãos:
as claras linhas.

Como suas mãos:
o alinho de seda.

Porque suas mãos:
o sedoso terreno.

Dado o encanto,
faz-se dele janela,
por onde, aos poucos,
medra o destemor
de dez poemas.


4.

Das mãos
(as minhas)
longe
e quietas
as suas.

Da vontade
(a minha)
distante
e calada
a sua.

Olho-as
(as suas,
as minhas),
e a hora
ancora
em porto
sem nome,
sem dono.

O mar
(ou a piscina)
sem viagem.

Uma passagem?


5.

Suas mãos,
sim, desenho
de lúcidas linhas.

Suas mãos,
tanto som
de seda, sim.

Suas mãos,
sim, augúrio
de tépidas manhãs.

Seu corpo,
sim...


6.

Não retiro
de suas mãos
os óculos.

Receio olhar
a clara linha
da nuca;

o rijo contorno
dos ombros,

a mata macia
do peito,

a ágil musculatura
das pernas,

o fino esculpir
dos pés.

Receio adivinhar
cheiro de líbanos
em sua terra tão alva.

Suas mãos:
continuo.


7.

O que fazer com os dedos
na sombra do improvável?

O que dizer às palavras
na contramão da prudência?

O que riscar nos encontros,
o que morder nos frutos,
o que deitar nos lençóis
guardados para suas mãos?

Dedos, palavras, figos:
o arrepio rodopia
pela ciranda de lembrar
as mãos,
lindas,
as suas.


8.

No oitavo poema,
sobre suas mãos,
os anéis.

De nuvem, de água,
de acácia, de novembro.

Um instante de anel:

peixe mínimo
em tanta água
tão aguardada.

Por um instante,
um anel.


9.

Penúltimo poema:

Já mil sílabas
para dez dedos
de suas mãos.

Botticelli lhe daria
formas nítidas,
em desenho de Líbano,
máscula planície.

Plebeu dou-lhe
as sílabas tontas,
adivinhando, em neblina,
o vinho de seus dedos.


10.


Tocar cada canto
de suas mãos,
buscando nêspera
ou dia de festa.

Cada canto
das linhas;

cada sumo
de nêspera;

cada hora
de festa

e contentar
de digitais e gestos,
ao menos,
o poema.


Paulo Roberto Sodré (Vitória/ES, 1962), é poeta: Interiores (1984), Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite (1989), Dos olhos, das mãos, dos dentes (1992), De Ulisses a Telêmacos (1998), Senhor Branco ou o indesejado das gentes (2006), Poemas de pó, poalha e poeira (2009), e ensaísta: Um trovador na berlinda: as cantigas de amigo de Nuno Fernandes Torneol (1998) e Cantigas de madre galego-portuguesas: estudo de xéneros das cantigas líricas (2008). Atua como professor de Literatura Portuguesa no Departamento de Línguas e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo desde 1989. Vive em Vitória.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ao poema


Foto:Jorge Elias



Parte-se do esquecimento.
Caminha-se para o esquecimento.
Disso dou testemunho.

Tamanha consciência da morte vindoura
nomeia encantamentos
em cada trecho de aurora.

E, se, em algum momento,
falta ao punho o sustento,
recolho-me ao verso que apoia.

Eis a dura lida que ao poeta condena.
Mas apesar do tormento da finitude certa,
tem o poema – pulsão de vida –, rumo ao esquecimento.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Chico Lopes



Camus cai, e nós aprendemos


“Caminho sozinho noites inteiras e sonho, ou falo sozinho interminavelmente”, diz um certo Jean-Baptiste Clamance, advogado decaído, bebum de um boteco desclassificado de Amsterdam chamado México-City, a um interlocutor que o leitor nunca saberá quem é.


Primeiro grande achado de um romance curto, melhor dizendo, uma novela, que é, na verdade, a meu ver, o melhor de todos os (poucos) livros que Albert Camus escreveu. Estamos diante de um daqueles tipos da noite, dos bares que tardam em fechar e acolhem insones e estropiados, no anonimato de cidades para as quais calor humano é luxo ou frescura.


São tipos que o leitor deve conhecer – sujeitos que falam demais, que querem ser ouvidos, que se agarram ao colarinho do primeiro ouvinte em potencial que lhes apareça e não desgrudam mais, porque o desespero (que lhes aumenta a profundidade e a chatice) é completo, e nem importa que sua vítima (ou ouvinte) concorde, discorde, ouça. A técnica utilizada por Camus é esse diálogo com um desconhecido que torna o livro um longo monólogo, um fluxo ininterrupto de confissões tão viscerais quanto cínicas, colocando o leitor no epicentro do interesse: ao abrir o livro, sem divisões de capítulos por números ou títulos, os intervalos dados por espaços em branco, o leitor já entrou no universo de Clamance, que se intitula “juiz-penitente”, já foi agarrado no colarinho por ele, e será obrigado a ouvir, ou melhor, a ler.


A solidariedade impossível

É o livro mais enigmático de Camus, na verdade. Faz tempo que ele saiu da moda, embora relembrado aqui e ali por algum admirador. Os que irão conhecê-lo agora, certamente serão levados aos inevitáveis “O estrangeiro” e “A peste” ou aos volumes filosóficos de “O mito de Sísifo” e “O homem revoltado”.

Tudo bem, Camus estará lá. São bons livros, embora alguns tenham envelhecido bastante, por seus temas tópicos, e haja um certo tom presunçoso e retórico no argelino, o que torna seus personagens pouco críveis.

Camus tinha, sem dúvida, essa auto-consciência do escritor que não desgruda de seu mito, que deve muito à sua persona. Susan Sontag dizia que ele carregava consigo um “pedestal portátil”. O que quer ele fizesse, parecia merecer registro, teria que ter algo de solene, pomposo e filosoficamente relevante, como se ele não fosse caso comum, nunca. Sempre a consciência elevada, nunca a sordidez, a pequenez sem desculpa e sem remédio, esta de que somos realmente feitos.
“A queda”, pelo cinismo, pela radicalidade, porque não se esforça por agradar, é muito superior aos outros livros.


E não é um livro agradável. Cai-se nele como num mundo que já está cristalizado, do qual participamos como “voyeurs” impotentes, fascinados, indignados, querendo não aceitar o que Clamance diz.


O “juiz-penitente” pode ser definido como um guru às avessas: chama a nossa atenção para o irremediável, diverte-se lugubremente com a sua decadência e lança, com prazer sádico e “penitente”, suspeitas as mais odientas sobre a condição humana – com as quais, repugnados, acabamos concordando. Ele é um pouco como “o homem do subterrâneo” de Dostoievski, mas agravado por um século que viu o humanismo desaparecer sob o brado heideggeriano de “o Pior já aconteceu”.
Clamance é simplesmente o hedonista comum, o egoísta, o prepotente, o corrupto e cínico que há em todos nós (ou não haveria tanta corrupção e cinismo no mundo). Todos nós com facilidade nos erguemos em juízes da moral, somos peritos em detectar a podridão do mundo, fácil de ver porque é afinal tão exterior; todos nós nos sentimos sublimes, vivemos e morremos como cúmplices, mas nos queremos omissos, nos desculpamos com facilidade, não tínhamos nada com isso, as intenções eram as melhores etc. Em suma, jamais compreendemos o quanto colaboramos para que o mundo seja sórdido.


Prestar atenção a esse partido tão querido por nós, de esquerda, que desabou há um bom tempo e em geral nunca quis admitir e seguirá não admitindo sua corrupção. Uma corrupção especial, daquelas de pessoas que se acham automaticamente santificadas por estarem ao lado dos oprimidos, das boas causas, da superioridade moral, e exatamente por essa auto-complacência condescendem com o mal, achando que, ao praticá-lo, um santo está desculpado a priori; são sempre os mesmos santos automáticos que acham que purificam, com sua presença, o ar e a índole de um bordel. Nunca agem errado e se espantam quando alguém lhes diz que estão cercados da pior incredulidade, por tudo que fazem. Há uma candura fantástica na sua inconseqüência, na sua cegueira. A crença de sua superioridade moral os tornou esses monstrengos acomodados numa providencial ignorância de tudo que se autorizam a fazer.

Clamance é um hipócrita. Até uma certa altura, ele estava convencido de agir humanitariamente, de ser um sujeito até exemplar, bem-sucedido com as mulheres, com veia filantrópica, intelectualmente brilhante, profissionalmente admirado, fisicamente bem-dotado etc. – em suma, um homem de sucesso. Ele se vangloria desse humanitarismo, inclusive, de ajudar viúvas, de amparar cegos para atravessar a rua.


Um dia, um incidente curioso lhe deu a consciência exata de sua pequenez e do mal-estar desse mundo em que se sente à vontade: passando por uma ponte, viu uma mulher, cuja intenção era óbvia, mas ele a ignorou, até ouvir um grito – um pedido de socorro? – quando já ia bem longe. Não se voltou para salvá-la: a noite estava fria e ele não queria se molhar.


A partir daí, cai. Sua queda é a queda de uma consciência falsa numa contingência verdadeira: o absurdo, o horror do mundo, com os quais estamos muito mais mancomunados do que pensamos. O livro todo é compreensível como o longo desabafo de um omisso que de modo algum consegue escapar à consciência de sua culpa e da culpa do mundo todo, afundando-se numa auto-degradação lúcida, que só faz corroborar tudo que de horrível pensa de si mesmo e dos homens.


Mesmo os melhores homens que conhecemos podem, por insídias do narcisismo – que é nosso verdadeiro pecado mortal – não serem mais que pilares da opressão, da indiferença e da crueldade que nos cercam. “A queda” põe dedo em brasa na ferida que os ilustres, os admirados, os muito louvados – mesmo aqueles que parecem mais humildes e despojados – detestam admitir em si mesmos.


Revela em Camus uma coragem incomum. Num personagem como Rieux, o médico de “A peste”, cheio de ótimas intenções, de auto-complacências e atenuantes, apaixonado por seu papel de consciência única de uma comunidade afetada pela epidemia, enxerga-se essa vaidade e o pendor pela retórica, pelas grandes frases, e tínhamos ali um óbvio alter-ego do escritor argelino.


Digamos que “A queda” é superior porque nele Camus obriga Rieux a passar por essa ponte onde a mulher grita e não é ouvida. Pode ser triste, mas é muito mais verossímil. Há pouco heroísmo em nosso mundo, e santos, nenhum. O gesto que Clamance não fez é o gesto que nunca fazemos por ninguém. E não há desculpa para o que nunca fizemos. A única lucidez consiste em lamentar, em não mentir para nós mesmos – e para o mundo – que somos determinada efígie muito querida. Essa efígie pode se erguer muito alto, mas está impregnada de terra e excremento. É só não se iludir mais. E produzir livros à altura dessa desilusão, a única que pode atestar um resto de dignidade no homem do nosso tempo.


Livro obrigatório. Continuará interessando quando os outros Camus nem mais forem lembrados.

(texto originalmente publicado no site literário CRONÓPIOS em 4/12/2005 – Reproduzido com autorização do autor)



NOTA BIOGRÁFICA


Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. É programador e apresentador do Cinevideoclube do Instituto Moreira Salles (Casa da Cultura) de Poços de Caldas, MG. Publicou dois livros de contos de sua autoria – “Nó de sombras” (2000) e “Dobras da noite” (2004), prefaciados por Ignácio de L. Brandão e Nelson de Oliveira. Teve contos publicados em revistas como a Cult de São Paulo e jornais como o Rascunho, de Curitiba. Um conto seu está na antologia “Cenas da favela”, organizada para a Ediouro/Geração Editorial por Nelson de Oliveira em 2007. Fez traduções de Henry James (“A volta do parafuso”) e outras para a Ediouro e Rocco (Gregory Maguire, Charlaine Harris, Max Allan Collins e Michael Scott). Escreve sobre livros e filmes, crônicas, resenhas e ensaios, nos sites Germina, Conexão Maringá, Meio Tom, Verbo 21 e Verdes Trigos. Tem inéditos livros de contos, novelas, ensaios, poesia e memória.

Textos do autor no CRONÓPIOS: http://www.cronopios.com.br/site/pesquisa.asp

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Balada da carne


Já que o dia é par: falemos de amor.

Já que à frente sempre restará o horizonte:
não me enterrarei além dos olhos.

Já que é no vazio insalubre da cura
que se percebe a alma evanescendo:
tragam-me uma taça.

Já que eu disse sim:
limitem os convidados
presentes à minha embriaguez.

Já que a palavra é uma puta:
rasguem o poema.

Já que a rima é farta e o poeta um estorvo:
que se recompense o primeiro idiota
a me cortar a carne.


(do livro Rascunhos do absurdo )

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

José Paulo Paes


ÁLIBI


Se os poetas não cantassem
O que teriam os filósofos a explicar?




PISA: A TORRE

Em vão te inclinas pedagogicamente

O mundo jamais compreenderá a obliqüidade dos bêbados
Ou o mergulho dos suicidas


SÍSIFO


Hoje agora me decido
Depois amanhã hesito
O dia detém meu passo
A noite cala meu grito

Deuses onde ? céu existe?
Céu existe? Deuses onde?
Um eco que faz perguntas
Um espelho que responde

E eu sísifo tardotriste
A tilintar as correntes
De dilemas renitentes

Lá me vou sem vez nem voz
Rolar a pedra dos mudos
Pela montanha dos sós


LIÇÃO DE COISAS


Uma nêspera branca!
Transtornou-se acaso a ordem do universo?

Mordo-lhe a polpa: o mesmo
Gosto das nêsperas amarelas.

Tudo é superfície.





José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga, interior de São Paulo, em 1926, e morreu na capital do estado em 1998. Publicou mais de dez livros de poesia.
Destacou-se também com ensaísta e tradutor.
Um verdadeiro mestre do epigrama.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ensino básico


Recostado à tempestade
o menino fiava o tempo.

Um estrondo
fez esquecer as vozes
que atravessavam os arbustos

e o duende com suas figuras repetidas
pronto para parir o anti-cristo.

(Não é perversão,
mas o arame tem um toque tão suave
que desperta).


Defronte de casa,
a enxurrada enchia a taça dos desencantados.

O Mastro seco da sibipiruna
escondia suas flores
que boiavam sobre as nuvens baixas...

E com a torrente
chegavam pensamentos...

Ensinaram-no:
– A pretensão
de dispensar o molde
esfacela a possibilidade de êxito.

(Pancada à pancada
se amaciam os músculos).


– Os rabiscos nas carteiras
ficarão guardados
até que apodreça a madeira.
Depois...
Esquecerás o lápis no apontador.

...

- Não me esconderei no limite da palavra.
(e um grito rouco foi o batedor).

- Prevaleça perante
os olhos malditos
o descabimento dos meus gestos.



Jorge Elias Neto

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Gustavo Felicíssimo


CANTO DE ORFEU

Teu corpo delgado
possui formas feitas
para as minhas mãos.
E por ser assim
o vento traz de longe o teu cheiro,
nas nuvens o teu rosto esculpido.
É sempre assim,
desde que não estamos juntos
meus sentidos saltam
pelas janelas,
antecipam-se à minha chegada.
É sempre assim
e isso não há de mudar,
pois entre um verso e outro,
afazeres e bancos de praça,
brilha no meu horizonte
a estrela da tua imagem.
Há esse brilho
e um campo de orquídeas
que te exaltam
e te observam quando passas,
porque passas tão linda,
tão bela quanto a lua.
Ai, minha amada,
olha bem nos olhos meus,
olha e verás rastros
e riscos de fogo.
Contra a fúria das águas me lancei,
ao inferno mil vezes voltei
sem luz, sem remo ou âncora
por ouvir a voz da fantasia
e a lira que se encantou por tua face.
Toma meu braço
e a majestade do verso,
eis tudo que te ofereço;
restituiremos à serpente o seu veneno
e a magia da poesia aos que não amam.



CANTO DE EURÍDICE

Senta e escuta o orvalho no vale
e o verde do campo
enquanto contemplo a tua carne vertiginosa
e te falo sobre a vida
onde apenas os mortos sobrevivem.
Os sonhos, meu amado,
me faziam companhia durante o crepúsculo
e neles te encontrava,
o teu canto escutava,
mas te alcançar já não podia.
Pedi aos deuses que viesses em hora mágica,
quando a luz se avizinhasse
e me prendesse nos teus abraços,
que me lembrasse dos teus passos
e o sabor dulcíssimo do beijo.
Ofereci-me em sacrifício,
despi-me das fontes, das nascentes
e passei a mendigar pelos caminhos;
coroada de espinhos
vi a existência caindo sobre os pântanos.
Atirei-me ao fogo
e além do fogo nada mais conheci;
resisti à dor e a tudo que há de vil,
desejei adormecer
e adormecer também não pude.
Aceitei os desígnios divinos
e feito um pégaso preso ao arado,
entre as cinzas ardendo,
luzi meu próprio sofrimento;
recolhi-me ao tormento, insignificante.
Silenciei-me na insana luta
e frágil feito a flor do jasmineiro,
sôfrega, esperei por tua chegada
como se espera um deus
junto à tarde imaculada das madressilvas.


EPIFANIA NO INFERNO
Sentença, marcha e aflição de Orfeu

(A palavra de Hades)

Comoveu-me o seu gesto,
fragilíssimo Orfeu.

O amor, enfim, pelo amor
enfrentou a fúria dos demônios.

Atravessou o Lete
e chegou à morada dos mortos.

Por isso nenhum sacrifício peço,
apenas que se vá sem vacilar.

Seus olhos os olhos da amada
não deverão encontrar.

O caminho é longo
e a voz em silêncio permanecerá.


(A saída do Tártaro)

Orfeu empunha a Lira,
não possui arma, espada ou escudo.

O coração vacila, oprime o peito,
empreende ao fim a inevitável marcha.

Eurídice o segue em fluentes passos,
não hesita.

Olhos em aflição, pálpebras em brasa,
os amantes rasgam a escuridão.

Demônios instigam de parte a parte
e a inquietação se torna mais intensa.

Fatigados seguem pela estreita via
que aos corações consola ou pune.


(Consciência de Orfeu)

Ah, quanto desgosto Orfeu,
quanta culpa carrega!

Entregue agora à vida sem pejo,
demonstra afeição pelo Calais!

Agora grita exaltado, Orfeu,
pois é tua toda a culpa, toda expiação!

Bem vindo ao templo dos homens,
o templo da carne, do sangue, da agonia!

Pois quem perde a quem ama por descuido
suspira e chora e resigna. Grita!

Não mais a Lira, não mais a poesia.
Grita, Orfeu, findou a fantasia!






Gustavo Felicíssimo, 1971, é natural de Marília, interior de São Paulo, radicando-se na Bahia a partir de 1993. Vive desde janeiro de 2007 entre Itabuna e Ilhéus.
Poeta e ensaísta, tem extensa participação na imprensa baiana e sites brasileiros especializados em literatura. Publicou “Diálogos – Panorama da nova poesia grapiúna, 2009, Editus/Via Litterarum.
Fundou, juntamente com outros escritores, o tablóide literário SOPA, em Salvador, do qual foi seu editor. Atua como preparador de textos para editoras e poetas, tendo colaborado para a publicação dos livros: “Firmino Rocha: poemas escolhidos e inéditos”, Via Litterarum, 2008; “Plínio de Almeida, obra reunida”, Editus, 2009, e “Rascunhos do absurdo”, de Jorge Elias Neto, no prelo.

Edita o blog Sopa de Poesia, onde publica poemas e ensaios, cujo endereço virtual é: www.sopadepoesia.blogspot.com

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Em tons de verde: os versos do poeta

Recebí esta resenha de meu livro "Verdes versos" da professora Shirlene Rohr de Souza•. Deixo aquí registrado para compartilhar com meus amigos.
Shirlene me informou que acaba de finalizar um ensaio sobre "Verdes versos" que será publicado em uma coletânea. Segue abaixo o texto.

Em tons de verde: os versos do poeta


Shirlene Rohr de Souza•



O homem vive eternos dilemas que oscilam entre suas vontades e necessidades particulares e as questões sociais que urgem à sua volta e exigem respostas rápidas, convincentes e politicamente corretas. No limiar de suas angústias, muita coisa pode soar estranha aos desejos mais íntimos da alma humana. Estas contradições que habitam o espírito do homem encontram expressão nos versos dos poetas que ora erguem o olhar para as questões mundanas e mais gerais, ora se inclinam para suas lembranças e desejos.
Em tempos cinzentos, em que a questão ambiental tornou-se premente, enquanto as celebridades discutem o destino do Planeta, fecham acordos (improváveis) unilaterais e estabelecem metas que visam limitar as agressões à natureza, as vozes inquietas dos poetas se lançam, mesmo sem convite, neste grande debate que inclui o destino do homem. O debate na esfera da poesia é menos prático, certamente, mas não menos intenso, não menos pulsante.
Em 1939, Paul Valéry, afirmava em uma conferência que “se encontrarmos profundidade em um poeta, essa profundidade parece ter uma natureza completamente diferente da de um filósofo ou de um sábio” . A crer no poeta e ensaísta, as questões que insistem nas temáticas dos poetas são paradoxais, é certo, mas também, e estranhamente, são uma só. Elas vertem de uma forma de pensar que não precisa levar em consideração as teses científicas e nem a lógica do pensamento filosófico. A poesia se manifesta pelas palavras dispostas em ordens singulares que atravessam o espírito do leitor, exigindo reflexão, não compreensão; os versos são a porta de entrada para um ambiente secreto, difuso, um lugar cujo conteúdo constitui-se de formas estranhas e inexatas do pensamento, isto que é tão humano.


O ver do verso, em verdes tons

Verdes Versos, de Jorge Elias, é uma obra que surge em um contexto complexo e conturbado, tempo em que o verde ─ “nada menos humano, menos carnal que o verde” ─ é o tom mais aclamado, pois de seu destino depende o futuro da vida. A obra reflete a realidade confusa e repleta dos paradoxos humanos: preocupações, lembranças, cotidiano, humor, amarguras, intimidades, comunhão, vida e morte.
Para dizer dos poemas que compõem os Verdes Versos, é preciso fazer uma leitura mais atenta da obra, em busca das cores, dos sons, dos gestos, dos lugares, das personas que transitam e interagem nas páginas do livro. O próprio título já remete o leitor para uma série de possibilidades de interpretação que ora pesam sobre a palavra “verdes”, ora pesam sobre a palavra “versos”. As múltiplas possibilidades de leitura já demonstram que o terreno em que se pisa é o terreno movediço da polissemia, tão cara ao discurso literário.
O livro ─ organizado em secções intituladas Versos Verdes (2000-2004), Viajante Lunar (2005), Vegetariano (2006) e Querença (2007) ─ traz gradações de tons esverdeados, em nuanças que atestam um amadurecer das palavras, da profusão à concisão, da sintaxe articulada ao jogo substancial de certas palavras, de certos versos. A tensão entre viver e morrer, lembrar e esquecer, razão e paixão, olhar e participar é uma marca muito singular no discurso do poeta. É preciso, pois, buscar nos poemas estas questões que percorrem o livro, desde onde o tom verde é mais fechado até o ponto em que começa a ganhar um matiz que se aproxima de um tom amarelado, momento em que o pensar o verso ganha mais em substância, palavra concentrada. Seguindo o critério do próprio poeta, pode-se fazer arriscados comentários sobre cada uma das partes que comportam os poemas.
Versos Verdes reúne catorze poemas, escritos no período compreendido entre 2000 e 2004. Entre temáticas que enfatizam reminiscências, passagem do tempo e morte, destaca-se a palavra ‘existência’, que atravessa os versos e impõe-se como uma nota melancólica, centrada, consciente do ‘fim absoluto’. Dos poemas reunidos nesta fase, “Olhares” sugere a atividade de alguém que lida com o limiar entre a vida e a morte: “tive de narrar, tantas vezes / a morte e a insolitude humana”. Em “Bípede” há a constatação do poeta de que os elementos minerais e animais se equacionam como matérias mundanas. “Guananira” é uma doce homenagem ao refúgio do poeta no Planeta, em que o verde corre risco de se acinzentar.
Os poemas de 2005 estão reunidos em Viajante Lunar. Nesta parte, destacam-se as recordações, o passado, a memória. Mais uma vez, a morte se insinua na linguagem do poeta. Os versos se encadeiam em ritmo compassado, brando, mas pujante, e misturam-se com as noites, com os silêncios, com o passado. “Kioto” é a inquietação clara com o destino do Planeta; revela a preocupação do poeta com a teimosia dos homens. Contudo, é preciso pôr em evidência o poema “Verdade”, cujos versos vibram, vigorosos: “Destilo nos meus poemas meu veneno / Envelheço, e o que há de bruto/ é o que reconheço de bom”.
O mais carnal dos poemas, “Tela”, encontra-se em Vegetariano, que reúne os poemas de 2006. Os versos trazem temáticas muito diversas, das quais, ainda outra vez, o tempo, o fim absoluto, o verde-cinzento do mundo se revelam com força nnas palavras do poeta. Mas há uma curiosa reincidência na temática dos nomes, “Seu Jorge” e “Nomear poemas” ─ “o nome antecede o verso” ─, poemas nos quais a volta ao passado significa a volta do poeta para dentro do túnel de seus gens.
Em Querença, que reúne o maior número de poemas, escritos em 2007, há temas em volúpia, vida e morte: mendigo, velhice, epitáfios, cenas do cotidiano, chuva, funeral do amigo suicida. Nestes prados, há o “Ofertório” ─ “certas bocas / não vestem bem as palavras” ─, ou ainda um novo olhar para a imortalidade: “a minha imortalidade / se encerrará com a minha morte”. Mas entre verdes psicografados, reflexões sobre a velhice e a razão que se esvai nos anos, há “Decreto” um manifesto em nome do ócio, bem-viver, um convite à fruição do que é cotidiano e banal.
Verdes Versos é a obra inaugural de Jorge Elias Neto, poeta que, agora, deixa suas palavras e suas questões para leitor. Como diz o próprio poeta em “Olhares”, “não me fiz para ser entendido, / pois minha substância transformou-se em letras”. Do poeta, então, o que se espera? Ele se adianta e adverte: “Para quem muito espera do poeta-homem, / vale o conselho: / atenha-se apenas aos seus versos”. É verde para ler.


• Professora da Universidade do Estado de Mato Grosso.
VALÉRY, Paul. Poesia e pensamento abstrato. In: ______. Variedades. Tradução de Maiza Martins de Siqueira. São Paulo: Iluminuras, 1991, p.201.
Poema Verdes Versos II, p.58.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O intruso


Para que compartilhar a loucura? Tem-se que guardar em segredo a penúria dos instintos que nos avassalam a alma. A loucura transborda, atordoa, é inventiva demais.
Diriam que ela é suportável nas crianças e em alguns endemoniados perdidos nos acostamentos das autoestradas – sempre carregando nas costas suas sacolas cheias de coisas-nenhumas. Elas não aprenderam ainda a ser gente; eles desaprenderam a ser humanos ...
Mas, na manhã em que tive o espírito desperto, assim, obsequioso, fui entrando nas casas. E todos desviaram de mim o olhar.
Hoje, não mais embriagado pelas convicções que me moviam, pude ouvir dos poucos que me fitaram por um breve instante o seguinte relato:
Surgi lento diante dos portais das casas, quando os primeiros raios oblíquos da manhã não ousavam passar do peitoril das janelas. Essa ausência de luz no interior de suas moradias fez maior o impacto daquele que se anunciava.
Raios de sol escorriam-me pela face onde já adormecera o orvalho que trazia da madrugada fria. De súbito, toda a luz esfacelou-se em mil arco-íris.
Um olhar sem fio terra fez calar os poucos que ensaiaram dizer de sua objeção à minha presença, assim tão cedo e sem convite.
E, por ter deixado de acreditar na cautela do silêncio, fui derramando a língua sobre os móveis da sala onde todos os moradores, perplexos, se mantinham sentados. As palavras me enchiam a boca, e, se as tentasse calar, seria possível ver as protuberâncias que a fala contida criava ao serpentear em meu rosto. E, quando conseguiam vencer meu esforço – pois já começava a observar o quão inoportuno eu era àquela gente – , sentia-se o arrebatamento do grito arremessado.
Poderia continuar discorrendo sobre a imagem fantástica que aqueles indivíduos guardaram daquele dia, mas prefiro dizer que aquele não era eu.
Não nego aqui as intenções (inocentes intenções) que me impulsionaram porta adentro. Não, elas sempre foram autênticas. Refiro-me ao personagem descrito. Esse, sim, não era eu.
De tudo que falaram, talvez o que mais se aproximasse do real fosse meu rosto molhado com o suor que passou a escorrer profusamente, quando me ocorreu dividir com os homens minha parcela do descobrimento do mundo humano.
Custou-me entender que não se deve revirar as prateleiras domésticas, desmantelar os espaços, desarranjar a ordem estabelecida para a vida.
Mas também, que besteira!... Não se compartilha o fundilho rasgado para morder o rabo.
Nos últimos tempos, tenho ficado por aqui, zanzando onde posso ser ignorado. Como me restringiram o espaço para o olhar, mantenho meus olhos apontados para o chão.
Mas sou feliz, aprendi que para conquistar a liberdade, bastou chamar-me: “Ninguém”.

Jorge Elias Neto

domingo, 3 de janeiro de 2010

1° de janeiro


Após o pão e circo,
sigo em busca da ciência de desinventar.

No vazio do salão amanhecido
ainda ressoam os ecos dos champanhes,
os alaridos esperançosos,
os sussurros de cumplicidade.

De sólido,
ficaram os confetes e serpentinas,
que nada entendem da solidão.

(Rascunhos do absurdo)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

EPIFANIA ( breves palavras sobre o tempo)


Esse amanhã,
com cheiro de saudade,
roubou a cena de hoje.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O vai-e-vem da esperança


Ilustração "Morro de Vitória": Lorena Elias


A cidade cresce, se descaracteriza, fica cinza.
Os faróis dos carros só são belos nas fotos noturnas com longa exposição do diafragma – se disfarçam em fachos luminosos.
Os indivíduos não se apercebem, é massa disforme à espera do sinal verde que chega e parte sem que eles saiam do lugar.
Sou mais um, mas insisto em olhar em volta, pro lado, ser chamado de desatento, esbarrar nas calçadas. Não me arrependo.
E foi por ser assim que olhei para cima.
No morro, um mundaréu de casas, tão juntas como uma corda de caranguejos postos à venda nas calçadas – cinzas e sufocadas.
Fui olhando cada vez mais alto, e na iminência do azul, em uma imprevista descontinuidade entre as casas, eu vi balangando uma criança alada.
Ela estava lá, com seu balanço, alheia aos casuísmos, estatísticas, caos, fatalidades... Indo e vindo sobre as malfadadas casas.
Pêndulo de minha vida! Chuta pro alto, com seus pés meu desassosego!
Um beijo criança... Mil beijos! Estremece o Morro; seja o centro gravitacional de seu Universo; desmente nesse segundo as verdades do Absoluto!
Abriu o sinal...
Despeço-me da criança, pois tardar não posso (podia ser um pouco pior o trânsito em minha cidade).
Ao menos agora sei que naquele sinal existe a árvore com seu balanço. Sei que ali encontrarei, quem sabe outra vez, alguma criança a pincelar de verde um sinal de esperança para os que tentarem vislumbrar o céu.

* Para quem quiser ver o menino, é só parar no sinal de entrada da terceira ponte, na Avenida Desembargador Santos Neves, no sentido Praia do Canto – Centro, ao lado do posto da Shell. Bem no alto do morro está a arvore com seu balanço.


Para todos os amigos que desça, sobre todos, o olhar de nossas crianças.

Forte abraço nestes dias de festa,


Jorge

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

José Augusto Carvalho


PRESENTE DE NATAL

José Augusto Carvalho




Quando eu soube que Jesus nasceu em março, antes de Cristo, e que o dia 25 de dezembro foi fixado pela Igreja no ano 525 para cristianizar festas pagãs em homenagem ao deus Mitra, adorado em Roma, apesar de persa, senti que o Natal havia perdido para mim grande parte do que ainda tem de divino. Senti-me enganado não mais na minha fé, que já a havia perdido, mas na minha devoção a um líder carismático que tinha a pureza de um Gandhi ou de uma Madre Teresa de Calcutá e a santidade de um Dalai-Lama ou de um Francisco Cândido Xavier
O Natal teria virado uma farsa, não fosse o milagre das crianças que acreditam em Papai Noel. São elas que ainda dão ao Natal o espírito cristão que falta na maioria das religiões que cultuam Cristo.
Mudou o Natal e mudei eu – respondo à pergunta do soneto de Machado de Assis. Mudamos todos, mas seria bom que o Natal, mesmo com sua origem pagã, não mudasse nunca, que fosse sempre um Natal para a criança que temos dentro de nós. As crianças não estão interessadas apenas nos brinquedos de Papai Noel. As crianças vivem a magia do Natal que ainda tem, sequer para elas, aquela aura de religiosidade, de esperança e de fé.
Quando visitava o campo de concentração de Auschwitz, o Papa Bento XVI perguntou onde estava Deus, que permitira tudo aquilo. Embora tal pergunta não devesse ser formulada por um líder cristão, ela procede: onde estava Deus que permitiu sagrar-se Papa um inquisidor que calou a voz de um intelectual e sacerdote como Leonardo Boff?
Diz a Bíblia (Gen. 2: 2-3) que Deus fez o mundo em seis dias e no sétimo descansou. Não sei se um Deus de verdade se cansa, mas, se a Bíblia diz a verdade, acho que é por ainda estar descansando que Deus não viu o holocausto, não viu eleger-se um Papa censor reacionário, não viu as guerras entre os homens, não viu o fim das torres gêmeas, não viu homens armados massacrarem jovens estudantes em escolas, não viu a invasão do Iraque pelo maior de todos os terroristas do mundo moderno, nem vê a violência crescente no nosso quotidiano...
Seria bom que o presente de Natal para todos os homens deste mundo fosse o fim do descanso de Deus...



Escritor, tradutor, jornalista e professor universitário, José Augusto Carvalho é mineiro de nascimento e capixaba por adoção.
Um dos principais lingüistas do Brasil.Bacharel e licenciado em Letras Neolatinas, também é mestre em Lingüística pela Unicamp e doutor em Letras pela USP. Atua principalmente como professor, mas traduz desde a década de 1970 textos do francês, inglês e italiano. Possui uma extensa obra publicada tendo também realizado traduções para as principais editoras do País.