terça-feira, 29 de maio de 2012

O poeta W.J.SOLHA comenta o livro Rascunhos do absurdo


Jorge Elias,

 seu Rascunhos do Absurdo não é livro que se leia como quem chega em lugar estranho sem mapa. Creio que seus amigos poetas - que me parecem muitos- receberam seus poemas inéditos com outra luz, conhecendo-o pessoalmente, pois ou muito me engano ou há um tom confessional em sua obra, e  isso por certo ajudou-os a - automaticamente - decodificá-la, eliminando o que a nós - estranhos - chega como absurdo.

Não consegui ler seus poemas sem, a todo momento, me lembrar de Lorca:


Como aqui:


Despiertaque los montes todavía no respiran
Ylas hierbas de mi corazón están en otro sitio.


Ou aqui:

Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,


Ou neste exemplo:

Su voz deja cristales en la herida
y un gráfico de hueso en la ventana.


O absurdo se torna surreal.
Alguns exemplos seus:


Só sei transformar sapato em borboleta.

 Ou este:
 

Sobre minha cabeça
chocam-se as nuvens.

 Ou este:

No fim de semana
estendo o pano xadrez
no céu de pólvora.

 Que me remete a este:

voltado para esse lindo céu,
reluzente de bombas


Como é fácil de constatar, você também é um grande poeta. Como diz em Sonho no absurdo: "O poeta sabe a textura exata do sonho." Daí que - se numa primeira leitura muitos de seus poemas não me chegaram "prontos" - dois, pelo menos, me pareceram de imediata beleza: Percurso infindo: "No primeiro segundo\não achei a chave, não achei a porta". e

Cristo de pão. E um terceiro:

Emprenhar-se de miudezas;
deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.
E, quando a luz se aperceber, desmembrada
pelo estalo da palavra,
jogar-se nos trilhos
pra salvar a flor.


Seu "Cristo de pão" - com o pai (fictício ou não) fazendo um crucifixo da massa de trigo - me lembra meu muito católico pai que insistia, nas refeições, que representávamos ali, mais uma vez, a Ceia. E que recolhêssemos qualquer migalha caida no chão com respeito, porque se tratava do corpo divino. Quando perdi a fé, fiz - ao contrário de você - um esforço imenso para me livrar do sentimento do absurdo, escrevendo um romance e uma peça de teatro (que montei em 88) - A Verdadeira Estória de Jesus (Ática, 1979), e voltei ao tema em outro romance, Relato de Prócula (A Girafa, 2010). Foi-lhe igualmente difícil - é o que me parece à primeira vista - perder a fé - que mais complica que explica - e isso você deixa explícito, quando diz

"Foi duro para mim \ ver Deus quebrar-se em minhas mãos"
 

Seu pai:

Meu pai vestia uma pele
de sonhos amarrotados.

Desdizendo o que eu disse acima:do mesmo modo que vi mãos humanas na elaboração da "Revelação Divina", você - lindamente - escreve:

Depois que reparei
digitais nos dedos de Deus

 ... e chega ao extremo do inococlasta, na  parte V de Só sei que vou te amar:

Bebi a cachaça das encruzilhadas;
Roubei hóstias nas sacristias;
o tridente do diabo
enfiei no rabo da mãe de santo.

 Freud não foi o primeiro a tentar a decifração da arte. Decifração para os outros, porque ela age - como nos sonhos - em mensagens que, para o artista, são o que você chama - à maneira de Drummond - de Claro enigma:    "Cada manhã traz consigo uma nova geografia. \  Deve-se, então, ver as nuvens \ para entender os dias."

 Bilac já disse: "ra, direis, ouvir estrelas. (...) É preciso amar para entendê-las"

 O mais, fica para outras leituras.

W.J.Solha

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Murilo Mendes



Cantiga de Malazarte


Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor, 
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.


Canto a García Lorca 


Não basta o sopro do vento
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.

Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.


O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor,

Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto

De vermelho: cor do mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.

Consolo-me da tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde el duende é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.

In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 1976

segunda-feira, 7 de maio de 2012

AS MUITAS MORTES DE UM HOMEM

AS MUITAS MORTES DE UM HOMEM


                                                        Affonso Romano de Sant’Anna

Estou tendo certa dificuldade
Com minha morte final.
À primeira
(cotidiana)
me acostumei:
olhava minha pele
o rosto dos amigos, e me dizia:
– eis que sibilina e estabanada
Ela vem vindo.
Cedo nos entendemos
quanto à dissolução.
e por ser progressiva e familiar
a ela me dediquei
desentranhando-a do espelho.
Ela não era apenas o cão
que eu levava a passear
era o amigo com quem
no entardecer, íntimo,
eu me aplicava a jogar.

2
A segunda morte (mais sutil)
aprendi:
            não vem durante, vem depois.
É como a traça, a ratazana, a ferrugem
que corroem o osso e a fama.
Após a devastação da carne
vem a extinção do nome.

3
Talvez houvesse uma terceira morte
da qual até agora escapamos
escapei:
             – sob nuvens de urânio
e cogumelos incubados
sombreando o horizonte
seguimos amando.
Quem sabe, outra morte – a quarta –
cada vez mais previsível
já se intrometeu entre tantas
como uma profecia maldita
igualmente fatal
                         – e eficaz.
Ela
     já manda seus recados
pela boca dos vulcões
fendas, terremotos, tsunamis
e se anuncia
na progressiva morte dos corais.

4
Há, no entanto, uma outra morte
a última, mais completa
mais brutal
que excederá a todas
em seu furor abissal.
Virá quando nesta galáxia
explodir o Sol
                     e a Terra e
                                     os planetas
derivarem frios para o caos.
Não importa que seja daqui a 4
ou 5 bilhões de anos
será, mais que injusta, total.
Bibliotecas e museus
arquiteturas fabulosas, todas as ruínas
a memória das tribos e rituais
os romances, as vitrinas, os pássaros
peixes e os diários
teus álbuns, tua mobília
tudo o que a mente humana perpetrou
Aristóteles, Platão e Nietzche
as pirâmides e os navios
os gatos, as mais lindas manequins e atrizes
os filmes, Shakespeares, Sófocles e Beckett
a máscara de ouro de Micenas
a tumba do faraó ...
Nenhuma invenção e prece
nos salvará.
Não adianta clamar: me poupem!
salvem Florença e minha família
e minha coleção de porcelanas
e estampilhas.
Nosso fim (como o começo)
não dependerá
de nenhum de nós.
Pode um piedoso ponderar:
– não nos alarmemos
o resto do universo
vai continuar.
Sim. Deus (ou que nome se lhe dê)
emergirá uma vez mais
dessa poeira cósmica
                                         para se reorganizar
e soberano
                         em outras galáxias
triunfará uma vez mais
sem precisar de nós.

Sant’Anna, Affonso Romano de, 1937 – Sísifo desce a montanha. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A arte do desvio - Alberto Pucheu

Em uma de suas “cartas de viagem”, escritas ficcionalmente a si mesmo quando foi a Londres, Lisboa e Paris, Campos de Carvalho escreveu: “Sonho o livro inatingível (todos nós sonhamos) que eu mesmo venha a compreender na sua totalidade só muitos anos depois, e que me escape justamente porque ainda não estou preparado para entendê-lo mas apenas para escrevê-lo”. O que aqui está em questão é o escritor. O escritor e seu sonho de escrita. Seu sonho de escrita mostra que, para o escritor, a compreensão é sempre secundária em relação à escrita. À revelia do entendimento e de um nome para definir o indefinível, a escrita se realiza no renascimento de cada palavra que, no corpo da sintaxe criada, faz parecer estar sendo usada pela primeira vez, instaurando um sentido inesperado para o leitor, mesmo que este seja o escritor enquanto leitor de seu próprio texto. Com olhar estrangeiro, olhar uma terra, inexistente em qualquer mapa, a que, de repente, se chega sem saber como. O escritor nunca sabe aonde seu livro vai, a próxima linha que será traçada; muitas vezes disfarçado, entre uma linha e outra, entre uma frase e outra, entre uma palavra e outra, há um abismo.

Por ser a arte misteriosa, por ser um acesso ao mistério que vence sua resistência integrando-se a ele, para Campos de Carvalho, só faz sentido o sem sentido de que a linguagem é capaz no desancoramento de suas maneiras estabelecidas e do dado do real, tornados risíveis pela experiência da linguagem criadora. Sendo a palavra escrita a verdadeira palavra, o que importa é a primazia do escrever; a escrita provoca a leitura, seu tempo se impõe sobre o dela, obriga-a a novos caminhos e a sua feitura como criação, não o inverso: “Quem não tem tempo para escrever um livro não deve lê-lo – este é um dos provérbios que faltam ao meu livro de Provérbios – e com razão”. Leitor e escritor se confundem naquele que tem a criação por potência. Resguardando uma zona inapreensível, o livro supera a possibilidade de uma leitura necessariamente parcial; em uma entrevista, acerca de um livro que não terminou de ser escrito, com sua linguagem cheia de paradoxos, afirmou: “Assim como a 4ª Sinfonia de Charles Ivens exige a presença de três maestros para ser bem interpretada, assim também penso que esse meu novo livro, para ser bem compreendido, deva ser lido simultaneamente por três leitores”. Da escrita, que não acata mestres nem discípulos, mas o solitário autocolocar-se, advém a força de criação que a leitura, sofrendo seu impacto, terá de acolher, para, só então, com anos de convívio, tentar compreendê-la, ou, ainda melhor, imitá-la, recriá-la mais do que entendê-la – isto significa fazer da leitura uma obra que lance as palavras no não sentido de onde elas vieram para estar sempre a caminho de novos sentidos, de sentidos primeiros.

Escapando ao fotográfico ou realístico, seja do mundo ou do livro, escritor e leitor enxergam o real já permeável à fantasia, que, dele, libera novas potências. Deste modo, jogar com as palavras não é apenas jogar com as palavras, mas, sobretudo, jogar com o mundo, com a sorte, com o destino de escritor que se apoia no sonho de um livro inatingível que se encarna em todos os livros atingíveis, propiciando-os. Lidar com a forma pelo informe, com o sentido pelo não sentido, com o acabamento pelo inacabamento, misturando-os – injetar aí uma passagem. O dedicar-se a este livro já traz uma ética de crescimento da vitalidade, de uma vivificação, de certo exagero, de uma iluminação excessiva e um enriquecimento muito maior do que os habitualmente alcançados no cotidiano: “Você, que também busca esse livro, sabe que não jogo com as palavras e sim apenas com a sorte (un coup de dés...) e que já o simples fato de buscá-lo representa um enriquecimento interior, quase ia dizendo um deslumbramento, a exemplo do que ocorre com o alquimista diante da Grande Obra, ao mesmo tempo dentro e tão longe dela”.

Quando se tem em vista a Grande Obra, escrever é a luta do deslumbramento contra o desespero, a luta da vida contra a morte, a luta da gênese contra o apocalipse, a luta do enriquecimento interior contra o empobrecimento interior, a luta da empatia contra a antipatia, a luta da vocação contra a repugnância, a luta da admiração contra o tédio, a luta de uma promessa de felicidade contra a tristeza e o desinteresse. Escrever é aceitar uma dualidade que nos possui, tomando partido de um compromisso com o polo da alegria. A partir desta dualidade original, deste hiato que nos fende impondo-nos um vácuo no qual mergulhamos ou uma falta que nos constitui, a partir desta ranhura por onde passa o pensamento, a escrita consolida uma seletividade. Se trazemos em nós a corda da forca, a escrita é o privilégio de outra corda, que também trazemos em nós, lançada ao mar ao afogado para que ele não se afogue, para que ele saia vivo. A escrita é a corda ou o fio do pensamento que ousa passar pela frincha sem desprezar o polo reativo que a envolve, mas corroborando, ou mesmo inventando, com muito mais força, o polo afirmativo que a circunda.

  Se um dos personagens narradores de Campos de Carvalho se diz possuído por um pessimismo doentio, “tal como um xifópago que de repente se dispusesse a meter uma bala na cabeça sem ao menos consultar seu companheiro adormecido”, escrever é, na gravidade da hora presente, o despertar do duplo que, submetendo o outro a sua potência afirmativa, desviará a bala da cabeça. Apesar de todos os riscos e temores, uma ética, portanto, interessada, a favor da vida, para conseguir estar mais à altura (ou à baixeza) dela, para conseguir chegar ao dia seguinte – o que já se constitui como uma promessa de alegria, como uma felicidade possível: “De volta ao quarto do hotel, ainda mais desesperado, punha-me a escrever cartas e mais cartas, a maior parte delas dirigidas a mim mesmo e sem nenhuma relação com meu desespero, como se apontasse um revólver contra o teto ou a lâmpada em vez de apontá-lo contra a minha cabeça. Bem ou mal, sobrevivi e continuo sobrevivendo – e só a você resolvi contar agora esse inferno íntimo em que me debati todo esse tempo, porque a conheço e sei igualmente possuída pelo demônio da eterna dúvida, que infelizmente para nós se confunde com a eterna certeza. Comecei esta carta à maneira de outras que escrevi sem destino nenhum, apenas para não morrer até o dia seguinte, e de novo até o dia seguinte”.

Não se trata de uma escrita confessional que escreveria o desespero vivido ou qualquer outro afeto previamente experimentado. O puro desespero não escreve; quem escreve é a espera – a esperança – que ainda reside no escritor mesmo durante o desespero, o não se assujeitar completamente a ele. Quem escreve é a saúde que resiste, a primazia da desintoxicação, o riso de um humor que se impõe sobre qualquer pessimismo. Quem escreve é o que não quer se entregar, que aposta, se não em algo mais, no vigor da escrita que alavanca o da vida e, mesmo, na soberania do escrever – libertário, anarquista – sobre o ser lido. Escrever é o alimento do escritor, que, com ele, ainda que temporariamente, deixa suas debilidades de lado apostando nas robustezas que o atravessam. A escrita: uma conquista de forças para remover o revólver da própria cabeça, direcionando-o a qualquer outro lugar; trata-se de uma arte do desvio, de, pela escrita, trocar o “inferno íntimo” por uma salvação possível fora de si (na escrita, onde o escritor se vê mais do que em si), por mais um dia, e mais um, e, renovadamente, mais um. Chegar ao dia seguinte pela escrita, a partir da qual a salvação não se dá pela certeza – finalmente – de um encontro apaziguador consigo ou da descoberta de uma verdade própria e pessoal, mas pela força conquistada para mergulhar um pouco mais tranquilamente na perdição que, constantemente, “cria verdades a torto e a direito, cada dia é uma verdade diferente, sem querer até que disse uma coisa que preste: cada dia uma verdade diferente”. A escrita: uma saída de emergência.

Se o vazio se faz presente por todos os lados, por cima, por baixo, por dentro, se a cratera e o buraco fundam a condição humana, mais do que nos incomodando, se “Posso ser um antecadáver, o abismo debaixo dos pés, mas recuso-me a ser enterrado em vida”, vale dizer que, diante do mais inquietante e terrífico, afirmando-o tragicamente, a arte é uma potência anticadavérica, de recusa ou adiamento da morte em vida, em nome de mais vida. Inventando verdades diferentes a cada instante, os momentos líricos são venenos para os vermes que nos querem devorar. Em uma entrevista, Campos de Carvalho afirma: “A arte é a única coisa em que se pode confiar nessa vida”. Confiar na arte, para confiar na vida. Em seu elogio nietzschiano, é o que diz Agamben, com a mesma intensidade de uma arte interessada, ou seja, vitalista: “A arte – para quem a cria – transforma-se em uma experiência cada vez mais inquietante, diante da qual falar de interesse é pelo menos um eufemismo, porque o que está em jogo não parece ser de maneira nenhuma a produção de uma bela obra, mas a vida ou a morte do autor ou, pelo menos, sua salvação espiritual”.

                                               
 Texto originalmente publicado no livro O amante da literatura e reproduzido no Portal Cronópios de Literatura


Alberto Pucheu é poeta e professor de Teoria Literária da UFRJ. Entre vários livros, acaba de publicar O amante da literatura (Ed. Oficina Raquel), que contém o texto aqui publicado. E-mail: apucheu@gmail.com

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia do livro

OS LIVROS


Os livros são meu celeiro
de devaneios.
Onde adormeço
na dobradura do tempo
                  - pênsil -
no desfiladeiro de um cotidiano
que nos semeia
no nada.


Os livros
abraçam
minha loucura
atordoada
pelo semblante
de homens dignos,
sóbrios e austeros,
óbvios
e dissonantes.


Os livros
me permitem
compartilhar silêncios,
dissolver urgências,
contagiar os
dias com angústias
bem-vindas.


Os livros
me batem
na cara,
me chamam de homem
e me despem,
                  sádicos.

Jorge ELias Neto

23 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Agradecimentos e convite

Em 2007, por sugestão do poeta capixaba Miguel Marvilla, criei este blog. Naquela oportunidade eu desconhecia totalmente o mundos dos blogs - o mundo virtual.
Desde então foram aproximadamente 30.000 acessos ...Tivesse eu Facebook ou vídeos no Youtube
poderia, como muitos, não considerar este número de visitas tão relevante. Mas não penso assim.
Não tenho Facebook (como já disse várias vezes) mesmo sabendo que daria muito mais visibilidade aos poemas. É uma atitude consciente.
Comemoro e agradeço todos os leitores que deixam aqui seu olhar e, eventualmente, seu comentário.
Este blog, com o passar do tempo atendeu a um outro propósito: permitiu que o leitor Jorge Elias Neto visitasse os poemas e se confrontasse com as limitações e imperfeições dos textos. É um aprendizado.
Por fim, deixo um convite para acesso ao Portal Cronópios, onde foi publicada , essa semana, um Vídeocast que gravei no mês passado. No vídeo leio dois poemas de meu próximo livro:  Os ossos da baleia.
Um forte abraço para todos!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

POEMA COMO PRECE ANTI-TERROR

                                    Antônio Adriano Medeiros
A cada manhã
O Poeta nosso está no céu.
Iluminado é seu nobre canto
que vem a nós. Como um espelho
imitemos sua bondade
aqui na Terra: cedo, com fel,
o Cão nosso de cada dia seja morto!
Protejamos todas as crianças
assim como nós protegemos
os nossos filhos queridos.
Jamais caiamos na vil tentação
que nos leva aos maus homens
que saem executando inocentes nas ruas
ou se auto-imolando em vis explosões
que matam a Poesia e transformam o dia
num triste poema com as vísceras de fora.

Antônio Adriano de Medeiros nasci em Santa Luzia, na Paraíba. Sou médico, formado em João Pessoa, com especialização em Psiquiatria, no Rio de Janeiro. Obras publicadas o "Soneto Para O Diabo", na revista holandesa Sur, em 1995; os "7 Sonetos de Um Amor Muito Safado", na Antologia Eros, Ed. Poesia Diária, 1999, participou de três Antologias de Escritas:- 1, 2, e 4.
Publicoui em 2000 o livro "Zoológico Fantástico", Ed. Papel Virtual, revisado e no prelo para nova edição.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Bertold Brecht - poemas

A árvore em fogo

Na tênue névoa vermelha da noite
Víamos as chamas, rubras, oblíquas
Batendo em ondas contra o céu escuro.
No campo em morna quietude
Crepitando
Queimava uma árvore.
Para cima estendiam-se os ramos, de medo estarrecidos
Negros, rodeados de centelhas
De chuva vermelha.
Através da névoa rebentava o fogo.
Apavorantes dançavam as folhas secas
Selvagens, jubilantes, para cair como cinzas
Zombando, em volta do velho tronco.
Mas tranqüila, iluminando forte a noite
Como um gigante cansado à beira da morte
Nobre, porém em sua miséria
Esguia-se a árvore em fogo.
E subitamente estira os ramos negros, rijos
A chama púrpura a percorre inteira -
Por um instante fica erguida contra o céu escuro
E então, rodeada de centelhas
Desaba.

Poema ao poeta banido

Quando penetrou em sonho
Na cabana dos poetas banidos, vizinha
À cabana dos mestres banidos (de onde
Ouviu briga e gargalhada), veio-lhe ao encontro
Ovídio, e disse-lhe a meia voz:
“Melhor não sentares. Ainda não morreste. Quem sabe
Ainda não retornas? E sem que nada mude
Senão tu mesmo.” Porém, consolo nos olhos
Aproximou-se Po Chu-yi e disse sorridente: “O rigor
Fez por merecer todo aquele que uma só vez deu nome à
injustiça.”
E seu amigo Tu-fu disse suave: “Compreendes, o desterro
Não é o lugar onde se desaprende o orgulho.” Mas, mais terreno
Interpôs-se o maltrapilho Villon, e perguntou: “Quantas
Portas tem a casa onde moras?” E tomou-o Dante pelo braço
E levando-o para o lado murmurou: “Teus versos
Estão cheios de erros, amigo, considera
Quem está contra ti!” E Voltaire berrou de lá:
“Cuida dos tostões, senão te matam de fome!”
“E usa gracejos!”, gritou Heine. “Não ajuda”,
Esbravejou Shakespeare, “Quando veio Jacó
Também eu não pude mais escrever.” – “Se houver processo
Toma um patife como advogado!” Aconselhou Eurípedes
“Pois ele conhece os furos nas malhas da lei.” A gargalhada
Ainda soava, quando do canto mais escuro
Veio um grito: “Escuta, sabem eles também
Os teus versos de cor? E eles que sabem
Escaparão à perseguição?” – “Estes são
Os esquecidos”, disse Dante em voz baixa
“Foram-lhes destruídos não só os corpos, mas também as
obras.”
A gargalhada cessou. Ninguém ousou olhar na direção. O
recém-chegado
Empalideceu.

A Troca da Roda

Estou sentado á beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da roda
com impaciência?


Se fôssemos infinitos

Tudo mudaria.
Como somos finitos
Muito permanece.


Brecht Bertold – Poemas 1913-1956; seleção e tradução de Paulo César de Souza – São Paulo: Ed. 34, 2000.

domingo, 11 de março de 2012

Octavio Paz

Conversar


                             Octávio paz


Em um poema leio:
Conversar é divino.
Mas os deuses não falam:
fazem, desfazem mundos
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.

O espírito baixa
e desata as línguas
mas não diz palavra:
diz luz. A linguagem
pelo deus acesa,
é uma profecia
de chamas e um desplume
de sílabas queimadas:
cinza sem sentido.

A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.


(Trad. Antônio Moura)

terça-feira, 6 de março de 2012

Bertold Brecht

Se os Tubarões Fossem Homens


Bertold Brecht

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sérgio Blank


APÓSTROFO SEGUIDO DE S

a minha letra — risco em silêncio
não é a de enxofre
nem consoante fricativa alveolar surda
não é santa ou santo ou são-salavá
a décima-oitava letra do alfabeto
a minha inicial — cronograma em sangue
dois segundos de poema
espírito escrito na cidade
que neon algum ilumina — ofusca em sono
a letra muda desta planta genealógica: cáspite
o esse — cascavel em catacrese
o nome em que me inscrevo no juízo de salomão
minha voz rubricada nestes versos — quatorze no todo


BARROCO NO BAR

sentado a bordo desta basílica alcoólica
faço baralho com todos à vista
ás a rei ao boreal ou ao sul
bebo a todos sem as hierarquias
se sou barão e ele é mais pois é visconde
ou o tal ali possa ser arquiduque
vão todos à merda e duque foi nome de cachorro
barbitúrico à mão de cor tão bordô
faça-me instrumento de sua paz
que a noite é feto e esperança é a última que falece

Sérgio [Luiz] Blank nasceu em Vitória, ES, em 7 de abril de 1964.
Publicou:
Poesia: Estilo de ser assim, tampouco, edição alternativa promovida pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida/Ufes, 1984;
Pus, Fundação Ceciliano Abel de Almeida/Editora Anima, 1987;
Um, Cultural-ES, 1989;
A tabela periódica, Secretaria de Produção e Difusão Cultural/Ufes,1993;
Vírgula (1996).
Literatura para crianças: Safira, Departamento Estadual de Cultura, 1991.
Tem textos avulsos publicados nas revistas Cuca, Letra, Você, e em outros periódicos.
Síntese crítica:
Francisco Aurelio Ribeiro, na orelha de A tabela periódica, definiu Sérgio Blank como “poeta totalmente inserido na ‘condição pós-moderna’. Seus poemas têm como marcas recorrentes dessa estética a morte da inocência, a destruição do outro, o cinismo assumido, a simulação da realidade, o narcisismo, o escatológico e a desconstrução.” Reinaldo Santos Neves definiu-o como “autor de sombrias canções, escritas em idioma de algaravia, que versam sobre um tal de homo sapiens perdido e confuso num mundo em adiantado estado de decomposição”.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Entre a força e o lirismo - William Lial

William Lial

Com metáforas perfeitamente empregadas, assim como as demais figuras imagéticas que se tornam indispensáveis à compreensão e absorção de cada poema, com o lirismo e o naturalismo convivendo harmonicamente, cada qual adequado ao tema e a necessidade do poeta e da sua voz, com temas atuais, questionando nosso lugar no mundo, o fazer poético, o mundo em sociedade e outros mais, o novo livro do poeta Jorge Elias Neto¹, Rascunhos do absurdo, se mostra bem dosado entre a força e o lirismo das palavras.

O novo trabalho do poeta já nos permite vislumbrar o que teremos pela frente, ainda no poema sem título que serve de abertura ao livro, quando nos diz: “Tenho algumas verdades litorâneas./ Dessas que não molham os pés,/ mas se empanturram de areia/ e saem se enterrando ao mínimo sinal/ de proximidade do desconhecido”. Versos com os quais muitos podem se identificar, afinal, quem tem verdades absolutas?!

E nessas alfinetadas o livro vai seguindo, página a página, e no caminho encontramos O risco (p. 26), uma espécie de metapoesia que relata os movimentos de um “risco” rebelde que “esperneava ao mínimo/ indício de caligrafia” e “usava a camuflagem/ dos desentendidos” enquanto “serelepe,/ causava seus descaminhos” e “seguia desmoldando intenções”. Um rebelde que “não se deixava / ferrar com palavras” que “criava-se no silêncio” e “optou pela clandestinidade/ ao abandonar o traço”, como a feitura de um poema que não se constrói baseando-se em modelos, formas ou escolas, que foge às regras e se constrói por si só.

E a metapoesia também está presente no poema Singular (p. 28). O fazer poético na atitude de um velho poeta que no “derradeiro momento” ao ler seus versos compreende “ter carecido de deslumbramento”, pois “não deixou no leito das páginas/ palavras não ditas;/ nem ao menos rascunhos de alucinações”. “Rascunhos de alucinações”, uma bela figura metafórica que muito pode dizer e nos fazer imaginar.

Outras figuras também surgem no decorrer da leitura, como em Ventre vazio (p. 29) que dentre muitos momentos, também ligados ao fazer poético, descrevendo o caudal de emoções da criação literária, encontramos versos como “ao longe,/ seguia o choro ensaiando epílogo” e “o cheiro do cueiro/ fez parir a loucura”. E um pouco mais além, quase todo composto por uma grande imagem poética, temos o poema Polos (p. 34) que começa dizendo: “Meu pai vestia uma pele/ de sonhos amarrotados” e “tardava horas campeando/ pequenos nadas”. Isso faz o leitor, sensível a belas imagens, parar e idealizar circunstâncias, idealizar uma vida inteira que se enquadre nesses versos. E essa é uma das grandes qualidades das belas poesias, o poder de fazer seu leitor viver outro momento, noutro lugar, noutro corpo.

Já Só sei que vou te amar (p.41), “Parte IV”, traz um toque de erotismo ao livro, como se vê logo no início da primeira estrofe: “Começo a perceber/ um certo arrepio/ de santidade/ através da tua camiseta” e “somente o riso,/ na antevéspera/ do teu gozo,/ ou teu mamilo rijo de agora/ – esse futuro e presente –/ horizontalizam meus/ pensamentos”. Uma perfeita escolha de palavras que fazem o leitor se encontrar na cena, uma lascívia poética expressada na voz de alguém dominado pelo desejo.

Ainda no mesmo poema, agora na “Parte V” (p. 44), temos palavras fortes com um toque iconoclasta, rebelde, em versos como: “Bebi a cachaça das encruzilhadas;/ Roubei hóstias nas sacristias; o tridente do diabo/ enfiei no rabo da mãe de santo/ e fiz pior:/ encarei no olho do homem!”, os quais depois encerra sentenciando que “o frescor da pureza?/ Não encontrarás na minha pele”; versos que não poderiam ser diferentes para fechar toda a rebeldia do poema.

No poema Balada da carne (p.69), o realismo vem em forma de crueza, numa sinceridade naturalista. O personagem do poema sabe bem o que quer, dentro da sua ira seca, quando diz que “Já que à frente sempre estará o horizonte/ não me enterrarei além dos olhos”. E sem delicadeza “ordena” a todos: “já que eu disse sim,/ limitem os convidados/ presentes à minha embriaguez”, feito alguém que parece sentir-se estranho ao meio, deslocado. Não há metonímias, não há gestos brandos ou disfarçados, nem mesmo a si poupa o personagem, pois “já que a rima é farta; e o poeta,/ um estorvo”, segundo afirma, “que se recompense o primeiro idiota/ a me cortar a carne”; um momento machadiano, bem Brás Cubas, quando este dedicou seu livro ao verme que primeiro roeu as frias carnes do seu cadáver².

A poesia de Jorge Elias é também bastante visual, fotográfica. Certos versos, estrofes ou mesmo poemas inteiros nos põem diante dos olhos verdadeiros quadros, momentos congelados, parados a nossa frente, como podemos observar nos versos do poema 1º de janeiro de 2008 (p. 74):

(...)

No vazio do salão amanhecido
Ainda ressoam os ecos dos champanhes,
Os alaridos esperançosos,
Os sussurros de cumplicidade.

De sólido,
ficaram os confetes e serpentinas,
que nada entendem da solidão.

Há também poemas minúsculos, formados de pouquíssimos versos, mas que dizem muito, como 7 de janeiro de 2008, que com apenas três versos, em duas estrofes, mostra um homem, hoje, pequeno, recomeçando, distante do que já foi um dia: “Recomeço,/ e essa sombra de hoje/ nada diz do homem que fui” (p. 75). Poucas palavras que dizem tudo o que se quer dizer. Não precisamos saber mais nada, já sabemos tudo.

Em Querido homem! (p.76), Deus observa sua criação, o homem, e lamenta seu devaneio e seu desdenhar de tudo, e avisa que “para atingir o Sagrado não cabe/ o escambo”; não é com troca de favores com Deus que o homem conseguirá sua salvação. E a relha do Todo Poderoso termina com uma bela imagem Sua, caricaturado de homem, dizendo: “Nesse vai e vem da rede, vejo meus/ pés penderem soltos sobre o desafio/ do amanhecer”. Até podemos ver Deus sentado em algum parapeito, ou quem sabe sobre uma nuvem, balançando a pernas.

Na página seguinte, em Poema para o homem contemporâneo, mais uma crítica ao homem e seu tédio, em versos que se confessam políticos, engajados, ao afirmarem ser esse poema a liturgia de um cético que tem como credo “um poema diletante/ que roga à tua carne/ a fratura que os ossos recusaram”, e que “tem uma ambição desmesurada:/ o ressurgimento do homem/ desse tronco de lama”.

As metáforas são realmente uma constante no livro. Metáforas fortes, expressivas como as do poema Taramela moral (p. 82), quando diz que “o facho/ desvirginou o segredo da fechadura;/ trouxe a incerteza/ da parcela do corpo”, e que “do outro lado/ as paredes acenam/ por sombras”, e a humanização nos “lençóis com feição de espera”³. As figuras imagéticas aqui dão vida ao inanimado que personificam características humanas.

Já Le Papillon blessé (p. 108), retrata a fragilidade do homem etéreo e a insignificância em que vive como “borboletas que persistem/ suspensas na cor indistinta do tempo”, mas que “sempre restará o marolar das asas,/ cortejando, com seus signos,/ aquele que, no absurdo da vida, se perceber/ só”.

E para encerrar, um dos melhores poemas do livro, Céu de bombas (p. 92), que transcrevo aqui por inteiro. Um poema forte, de cunho social, falando de guerra e da sensação de estar no meio de uma. Os grifos que encontrarão no poema são meus, para compartilhar com meu leitor os versos, as metáforas e outras figuras que mais me chamaram a atenção e que mais demonstram a força do poema e de seu poeta, como nos versos metafóricos “flashes de bombas” e “estrelas dos profetas cruzaram os céus”, além da bela ironia na última estrofe. Vamos ao poema:

Céu de bombas

Não interrompam o cotidiano das serpentes.
Elas não buscam no homem seu veneno.

Por que choras por mim, meu pai?
Cumpri com o que me coube
nessa Gaza de feras.

Em cada criança morta, sacrificada,
um objetivo insano.

Despeço-me do dia
sob flashs e bombas.

Uma fome doentia
molhou teu corpo com meu sangue.

Estrelas dos profetas cruzaram os céus
e pulverizaram os créditos de
minha infância.

A ambição do poder comeu meu destino.
Com a força, roubaram-me o sorriso.

Meu pai, nem sei perguntar por quê.
Não tive tempo de me nutrir de ódio.

Pensando bem, pai,
que as lágrimas partam.

Transpareça a indignação em teu rosto
nas telas indiferente do Mundo.

Sobretudo, crê, pai,
crê no triunfo do olhar da tua filha,
fosco de morte,
voltado para esse lindo céu,
reluzente de bombas,
nessa noite de um domingo de fúria.

Enfim, Rascunhos do absurdo é um livro que impressiona e cativa, dada sua força, já mencionada acima, e sua qualidade de composição. Apesar dos muitos momentos de forte expressividade no uso das palavras e das metáforas, em nenhuma ocasião o autor se excede ou se torna verborrágico, prolixo. Cada figura está em seu devido lugar e cada palavra expressa o que precisa expressar para que o leitor sinta e absorva cada verso.

 
ELIAS NETO, Jorge. Rascunhos do absurdo. Vitória: Flor&Cultura, 2010. 108 p.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

CONVITE PARA LEITURA - PORTAL CRONÓPIOS

Prezados amigos e leitores:


Convido para leitura da coletânea de poemas que publiquei no Portal Cronópios de Literatura.
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5252
Um abraço,

domingo, 8 de janeiro de 2012

Ángel González - Poemas traduzidos


Palabra sobre palabra
                     Organização e tradução: Jorge Elias Neto  


                      Para vivir un año es necesario morirse muchas veces mucho.
                           Ángel González





Algunas palabras



Alguns poetas são atletas do abismo. Espreitam, com seu olhar irrequieto e sensível, o entardecer por detrás da História. Debulham o seu passado – o nosso passado – e nos ofertam um ladrilho de palavras. Esses mesmos poetas se especializam, tornam-se alpinistas do nada e penduram-se no portal do tempo. Sabem-se clandestinos, insignificantes e fadados ao esquecimento.
Angel González (1925-2008), notável poeta espanhol, faz parte desse seleto grupo.
Um dos principais poetas espanhóis da Geração dos 50, por muitos considerado o maior poeta espanhol do século XX, González é pouco conhecido em nosso meio.
Entre seus livros mais importantes figuram Áspero mundo, Sin esperanza, con convencimiento e Grado Elemental.
Vejamos o que Luis Isquierdo escreveu na introdução da última antologia publicada por González:
O dom do poeta é a denúncia do negativo que perpassa a vida: a belicosidade que não cessa, a dependência de imposições, o medo disseminado das condutas. Sem renunciar à beleza, os versos tem que tratar também de nossos erros e fracassos. A beleza resiste, e tem seus momentos. Entretanto tem-se que ter conhecimento de sua raridade.1
Não há leitura inocente para uma poética desmascaradora do que se pretende fácil e espontâneo na vida. No orbe poético de Angel González, a presença da beleza se afirma pela atenção precisa do autor a tudo o que a dificulta. E a exigência de não renunciar a ela,
que é recordá-la, implica no dom de fazê-la tão viva quanto excepcional 1. O que se manifesta, em rigor, é uma consciência desenganada.
Para entendermos um pouco de sua obra, é imprescindível reconhecer a profunda influência da Guerra Civil Espanhola sobre sua infância. Observação que também se aplica aos principais poetas da Geração dos 50. Ao contrário da geração que os antecedeu, esses poetas realizaram uma poesia dita social, mais combativa, ambígua, rica em ironia, desilusão e crítica ao em torno político-social. Essa característica é bem evidente em seu livro de estréia Aspero Mundo (1956).
Posteriormente, González se distanciou da poesia social, passando inclusive a criticá-la em alguns de seus aspectos fundamentais. De qualquer forma, reconheceu que um certo mundo perdido existente em sua poesia, era, no fundo, a Guerra Civil e a perda da causa que representava a República Espanhola 2. Como disse o autor:
Sin salir de la infancia, en muy pocos años, me convertí, de súbdito de un rey, un ciudadano de una república y, finalmente, un objeto de una tiranía.
Outro episódio que marcou a escrita de González foi ter adquirido tuberculose. O tratamento desta patologia obrigou-o a um longo retiro em Páramo Del Sil, onde teve oportunidade de se aproximar mais da poesia e iniciar, de forma mais sistemática, sua produção poética.
Suas primeiras experiências poéticas foram como autodidata. Segundo o poeta, a ditadura espanhola impossibilitava o livre acesso à literatura.
Juan Ramon Gimenez, grande poeta espanhol do começo do século XX, ganhador do prêmio Nobel de literatura, foi a primeira e fundamental referência para o jovem poeta. Também os existencialistas, sobretudo Sartre e Camus, povoavam, desde cedo, o inconsciente de González.
Mais tardiamente se interessou pela obra de Antonio Machado, considerado por ele o poeta do inefável, e pela poesia vanguardista do peruano César Vallejo. Refere-se a Vallejo como sendo o responsável por um de seus maiores deslumbramentos que ocasionaram mudanças definitivas em sua obra.
Por outro lado, Ángel González tornou-se uma referência indiscutível para os poetas que, no final da década de oitenta, iniciaram uma polêmica e definitiva mudança na poesia espanhola denominada Poesía de la experiencia. Declarou o poeta: chega um momento que, inevitavelmente, o poema há de ser necessário para quem o escreve, se se deseja que depois seja legítimo para quem o lê.4
Graduado em direito e jornalismo , fugiu da ditadura franquista em 1972 e passou a lecionar literatura espanhola contemporânea em várias Universidades Norte-americanas.


Primeras palabras

Deixemos que o poeta nos fale um pouco sobre sua obra e idéias2-3:

Em seus textos a cidade é o cenário da opressão ...

Sempre tratei de fazer uma poesia da experiência que eu estava vivendo, e que, naquele momento, era uma experiência urbana. As vidas nos grandes setores do campo, de alguma maneira, estavam se urbanizando, estavam condenadas a uma vida urbana – apesar disso estar ocorrendo em um cenário que até então havia sido uma área rural – e então me pareceu que essa era a maior área de experimentação para entender, para compreender a vida do homem [...].

Um de seus grandes temas é a suposta inutilidade da palavra poética, tema que o vincula à Borges ...

Nunca pensei nisto. De qualquer forma, essa falta de fé na palavra, em alguns momentos explícita, também é motivada como reação frente as excessivas ilusões que os poemas sociais tinham demonstrado na eficácia da palavra, por exemplo frente a afirmação de Celaya de que a poesia é uma ferramenta para transformar o mundo[...] Daí essa reação de falta de fé na palavra que também possivelmente seja exagerada, quero dizer, a palavra, quem sabe não seja tão inútil como eu às vezes tenha pensado, quem sabe a palavra tenha certo valor de ato em alguns momentos. Já em Borges me parece que é uma construção mais complexa, mais intelectual, menos relacionada com esta vivência imediata como a Poesia social ...

A ironia também é parte de seu canto elegíaco.

Sim, porque o princípio da ironia para os poetas de minha geração foi um meio de nos esquivar da censura franquista, porém, com o tempo, me dei conta que a ironia expressa a ambiguidade do mundo, quero dizer, a ironia te permite dizer que sim e que não ao mesmo tempo [...]

Também é clara sua veneração a utilização da palavra exata, em um poema não falta e nem sobra nada.

Eu sempre sou muito cuidadoso com o uso da linguagem, utilizo como matéria de trabalho a linguagem coloquial, gosto da simplicidade, da clareza. É mais difícil escrever com clareza que escrever de forma obscura como fazem outros poetas, que cultivam o hermetismo, o obscurantismo que nem eles mesmos sabem o que querem dizer e nem o leitor sabe dar sentido. Também é verdade que tem um valor literário, porém não é a poesia com a qual simpatizo.

Nunca se separou desta linha apesar da influência da ploriferação das vanguardas no século XX e que, como é óbvio, também marcaram sua obra?

Sim, a vanguarda me influenciou muito porque li poetas como Gerardo Diego, criacionista e ultraísta, e li apaixonadamente a Cesar Vallejo. Isso me deixou algum traço que pode ser observado em alguns de meus poemas: o gosto pelo jogo, pelo lírico, porém nunca me contagiou a obscuridade das vanguardas e a racionalidade absoluta, que sempre mantive sobre controle.

Existe um certo tom de conversação em sua poesia. É uma ferramenta para se aproximar do leitor?

Creio que sim, porém este tom de conversação não é deliberado, o fazemos sem nos darmos conta e ao longo dos anos é que percebemos essa característica, como disse Machado “com as palavras se pode fazer muitas coisas, música, literatura, etc, porém sobretudo com a palavra se pode falar”.

Em meio a esta paisagem um tanto apocalíptica, a reflexão sobre a poesia já não seria uma interrogação sem propósito?

Não, a poesia como arte em geral é forma, debaixo de suas formas há muitas coisas. A poesia tem muitas caras e muitas possibilidades, que podem ter até nada, como pretendia fazer Mallarmé, que buscava a inanidade sonora, que é uma casca de sons onde não há nada. A poesia te ilumina, te clareia as coisas, te explica o mundo e responde a essa necessidade de entender a vida. Escrever é doloroso, pois a poesia só nasce de um sentimento muito agudo que exige ser formulado e encontrado em palavras que expressem esse sentimento íntimo e agradável. Quando esse sentimento não aparece, então não se escreve, ninguém é obrigado a escrever um poema porque se não é necessário para ti como vai ser necessário para os demais. Graças às palavras se vai formulando esse sentimento um pouco obscuro que que não sabemos aonde leva.

Sua poesia, aonde leva?

Não sei falar de meus livros, não vejo claramente minha poesia, sou bastante autocrítico, exigente e não gosto em demasia de nada que faço, sempre espero que seja melhor. Porém há um momento em que me decido a publicá-los porque se os mantenho guardados se apodrecem. A poesia se realiza realmente quando a leem os outros.



Sabias palabras


[...]
Falo também como escritor, já que na qualidade de tal estou aqui. Gostaria de falar como poeta, porém não poderia fazê-lo sem contradizer-me gravemente, pois sempre sustentei que os poetas não existem, salvo na leitura. Se falasse como poeta os falaria, em minha opinião, à partir do nada. O poeta Ángel González, estará nos livros como uma possibilidade, como uma proposta ao leitor que será quem, em última análise, decidirá sobre sua existência ou sua inanidade. Aqui está, tão somente, o homem que há tramado as palavras que dão vida ao poeta, palavras insuficientes em sí mesmas, que não teriam sentido sem o concurso dos outros. E essa é uma das grandes lições que, em meu modo de ver, se desprendem da poesia. Porque nossa forma de ser, o que efetivamente somos, depende dos outros mais do que habitualmente pensamos. Ninguém, e isso é muito evidente no caso dos poetas, pode existir sem os demais.
Não se esqueçam nunca.
É certo que o poeta, o grande poeta lírico, mobiliza impulsos que o homem encontra no centro de sua intimidade ou de sua experiência. Porém, essas reações anímicas e sentimentais, por mais pessoais que pareçam, não podem ser únicas e intransferíveis. Se não faz vibrar por simpatia o coração dos outros, se não ressoam e se atualizam em sensibilidades alheias, o poeta haverá nascido morto. Não para o que ele diz, mas pelo que ele realmente faz, o ato poético é, em essência, eminentemente solidário.

Fragmento do discurso de agradecimento pelo importante Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras 5

Palavra sobre palabras



[ Para que yo me llame Ángel González]


Para que yo me llame Angel González,
para que mi ser pese sobre el suelo,
fue necesario um ancho espacio
y um largo tiempo:
hombres de todo mar y toda tierra,
fértiles vientres de mujer, y cuerpos
y más cuerpos, fundiéndose incesantes
em outro cuerpo nuevo.
Solstícios y equinoccios alumbraron
com su cambiante luz, su vario cielo,
el viaje milenario de mi carne
trepando por los siglos y los huesos.
De su pasaje lento y doloroso
de su huida hasta el fin, sobreviviendo
naufrágios, aferrándose
al último suspiro de los muertos,
yo no soy más que el resultado, el fruto,
Lo que queda, podrido, entre los restos;
esto que veis aqui,
tan sólo esto:
um escombro tenaz, que se resiste
a su ruína, que lucha contra el viento,
que avanza por caminos que no llevan
a ningún sítio. El êxito
de todos los fracasos. La enloquecida
fuerza del desaliento ...




[ Para que eu me chame Ángel González]




Para que eu me chame Angel González,
para que meu ser pese sobre o solo,
foi necessário um amplo espaço
e um largo tempo:
homens de todo o mar e toda terra,
férteis ventres de mulheres, e corpos
e mais corpos, fundindo-se incessantes
em um novo corpo.
Solstícios e equinócios deslumbraram
com sua luz oscilante, seus múltiplos céus,
a viagem milenar de minha carne
vencendo os séculos e os ossos.
De sua passagem lenta e dolorosa
de sua fuga até o fim, sobrevivendo
naufrágios, agarrando-se
ao último suspiro dos mortos,
eu não sou mais que o resultado, o fruto,
o que tombou, podre, entre os restos;
este que vês aqui,
tão somente este:
um escombro tenaz, que resiste
a sua ruína, que luta contra o vento,
que avança por caminhos que não levam
a nenhum lugar. O êxito
de todos fracassos. A enloquecida
força do desalento ...




Eso no es nada


Si tuviésemos la fuerza suficiente
para apretar como es debido um trozo de madera,
sólo nos quedaria entre las manos
um poco de tierra.
Y si tuviésemos más fuerza todavía
para presionar com toda la dureza
esa tierra, sólo nos quedaría
entre lãs manos um poco de agua.
Y si fuese posible aún
oprimir el agua,
ya no nos quedaría entre las manos
nada.



Isso não é nada


Se tivéssemos a força suficiente
para se comprimir como se deve um tronco de madeira,
somente nos restaria entre as mãos
um pouco de terra.
E se tivéssemos ainda mais força
para pressionar com toda intensidade
essa terra, somente nos restaria
entre as mãos um pouco de água.
E se fosse possível alguém
comprimir a água,
já não nos restaria entre as mãos
nada.


Cumpleaños


Yo lo noto: cómo me voy volviendo
menos cierto, confuso,
disolviéndome en el aire
cotidiano, burdo
jirón de mí, deshilachado
y roto por los puños
yo comprendo: he vivido
un año más, y eso es muy duro.
¡mover el corazón todos los días
casi cien veces por minuto!


Para vivir un año es necesario
morirse muchas veces mucho.




Aniversários




Eu observo: como vou me tornando
incerto, confuso,
disolvendo-me no ar
cotidiano, grosseiros
retalhos de mim, desleixado
e maltrapilho.
Eu compreendo: vivi
um ano mais e isso é muito duro.
O coração pulsa todos os dias
quase cem vezes por minuto!

Para viver um ano é necessário
morrer-se muitas vezes.




El derrotado


Atrás quedaron los escombros:
humeantes pedazos de tu casa,
veranos incendiados, sangre seca
sobre la que se ceba -último buitre-
el viento.


Tú emprendes viaje hacia adelante, hacia
el tiempo bien llamado porvenir.
Porque ninguna tierra
posees,
porque ninguna patria
es ni será jamás la tuya,
porque en ningún país
puede arraigar tu corazón deshabitado.


Nunca -y es tan sencillo-
podrás abrir una cancela
y decir, nada más: «buen día,
madre».
Aunque efectivamente el día sea bueno,
haya trigo en las eras
y los árboles
extiendan hacia ti sus fatigadas
ramas, ofreciéndote
frutos o sombra para que descanses.




O derrotado




Atrás tombaram os escombros:
fumegantes pedaços de tua casa,
verões incendiados, sangue seco
para que engorde – o último abutre -
o vento.


Tú segues adiante na viagem, até
o tempo chamado porvir.
Porque nenhuma terra
te pertence
porque nenhuma pátria
é nem será tua,
porque em nenhum país
Pode acolher teu coração vazio.

Nunca – e isso é tão claro -
poderás abrir uma porta
e dizer, simplesmente: « bom dia,
mãe ».
Embora efetivamente o dia seja bom,
haja trigo nos campos
e as árvores
extendam até ti suas fadigadas
ramagens, oferecendo-te
frutos e sombra para que descanses.




Otro tiempo vendrá distinto a éste...


Otro tiempo vendrá distinto a éste.
Y alguien dirá:
«Hablaste mal. Debiste haber contado
otras historias:
violines estirándose indolentes
en una noche densa de perfumes,
bellas palabras calificativas
para expresar amor ilimitado,
amor al fin sobre las cosas
todas.»
Pero hoy,
cuando es la luz del alba
como la espuma sucia
de un día anticipadamente inútil,
estoy aquí,
insomne, fatigado, velando
mis armas derrotadas,
y canto
todo lo que perdí: por lo que muero.




Outro tempo virá distinto deste ...


Outro tempo virá distinto deste.
E alguém dirá:
«Falas-te mal. Devias ter contado
outras histórias:
violinos esticando-se indolentes
em uma noite densa de perfumes,
belas palavras qualificativas
para expressar o amor sem limite,
amor acima de todas
as coisas.»
Porém hoje,
quando a luz do Amanhecer
é como a espuma suja
de um dia antecipadamente inútil,
estou aqui,
insone, fadigado, velando
minhas armas derrotadas,
e canto
tudo que perdi: pelo que morro.


Son las gaviotas, amor


Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.
Mar de invierno. El agua gris
mancha de frío las rocas.
Tus piernas, tus dulces piernas,
enternecen a las olas.
Un cielo sucio se vuelca
sobre el mar. El viento borra
el perfil de las colinas
de arena. Las tediosas
charcas de sal y de frío
copian tu luz y tu sombra.
Algo gritan, en lo alto,
que tú no escuchas, absorta.
Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.



São as gaivotas, amor


São as gaivotas, amor.
As lentas, distantes gaivotas.
Mar de inverno. A água cinza
mancha de frio as rochas.
Tuas pernas, tuas doces pernas,
enternecem as ondas.
O céu sujo tomba
sobre o mar. O vento borra
o perfil das colinas
de areia. As tediosas
lagoas de sal e frio
imitam tua luz e tua sombra.
Gritos, lá do alto,
que tu não escutas, absorta.
São as gaivotas, amor.
As lentas, distantes gaivotas.






Referências:
1- González À. Antologia poética; – Madrid: Alianza Editorial, terceira reimpressão, 2008.
2- Entrevista ao poeta Harold Alvarado Tenório: http://www.arquitrave.com/entrevistas/arquientrevista_Agonzalez.html
3- Entrevista ao poeta Armando G. Tejeda: http://www.babab.com/no09/angel_gonzalez.htm
4- Iravedra A. Poesia de La experiência; - Madrid: Visor libros, primeira edição, 2007.
5- Fundación Príncipe de Astúrias: http://www.fpa.es/premios/1985/ngel-gonzalez/



Jorge Elias Neto (1964) Médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. - 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. - 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Participação: Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010). Colabora com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Germina, Diversos-afins, Poesia diversa e no Portal Literário Cronópios.
Blog: http://jeliasneto.blogspot.com E-mail: jeliasneto@gmail.com