quinta-feira, 10 de julho de 2014

Um dia após o dilúvio - Brasil e Alemanha

Um dia após o dilúvio
                             Jorge Elias Neto


“Ninguém segura a juventude do Brasil”...
Assim terminava uma das canções tocadas nas rádios, em tempos de ditadura militar, para enaltecer o escrete de 70 e amainar os ânimos dos brasileiros. Águas passadas... Época do então falado “Milagre econômico”. Sérgio Buarque de Hollanda ainda não tinha dito da morte do homem cordial, nem Chico, o nosso Chico, havia pedido  que o Pai afastasse o cálice com vinho tinto de sangue.
O Brasil já não é mais jovem, a pirâmide demográfica de ápice pontiagudo já não existe. Estamos mais velhos, o homem cordial já morreu e esboçamos uma certa indignação; mas insistimos no improviso e não investimos em educação e saúde como devíamos.
Águas passadas... Ontem, durante o jogo do Brasil, e eu estava LÁ, ouvia-se uma paródia do grito da torcida alemã: “Mil gols, mil gols, só Pelé, só Pelé...” Mais uma tentativa de se buscar uma música tema para a seleção. Faltou tanta criatividade que a copa acabou para nós e não se conseguiu uma música que representasse a seleção de 2014. Enaltecer Pelé, maravilha... Ironizar com o Maradona... Impossível evitar...  Mas, de súbito, veio a tempestade – e passou o sonho levado pelas águas.
Um alemão sexagenário, sentado ao meu lado, após os seis minutos fatídicos - a enxurrada de gols da equipe alemã -, me perguntou, tampando os olhos – expressando espanto – o que estava acontecendo com o Brasil. Não soube responder, eu precisava pensar, e o torcedor de plantão só me permitia o estarrecimento.
E já que futebol é crença, a torcida ensaiou um “eu acredito, eu acredito”. Mas foi se apagando a voz dos brasileiros no estádio, pois não se podia mais esperar o milagre.
Seca em São Paulo, enchente no Sul, dilúvio no Mineirão. Palmas para os alemães.
Embora a imprensa tenha buscado imagens dramáticas de torcedores chorando, o que mais observei foram brasileiros ignorando o jogo para ler ou enviar inúmeras mensagens irônicas e satíricas nos Smartphones. Matéria para os sociólogos de plantão ...
Hoje, quando me dirigia da derrota para Vitória, passei pelo viaduto que desmoronou em BH, cruzei com um belíssimo projeto de Oscar Niemeyer e me sentei no saguão do aeroporto para aguardar o voo. Em minha frente, as obras interrompidas no aeroporto de Cumbicas estavam cobertas por uma imensa bandeira do Brasil e por tapumes que traziam a figura de uma criança dizendo da esperança em nosso país.
Eis a imagem símbolo da Nação  utilizada para encobrir a falta de compromisso das autoridades. Mas ela já se mostrava sem propósito após a derrota da seleção. Muitos apostam que o brasileiro transfira sua crença incondicional na seleção para fora dos gramados.  Muitos apostam nisso. Sempre apostaram e apostarão.
Quando propus a música do Cazuza como tema da Copa ninguém me ouviu. Lá vai agora, quem sabe cole: “Brasil! Mostra sua cara, quero ver quem paga ...”
Sim, de cara à mostra, diante do espelho, o brasileiro deve  olhar-se e pensar. Pensar e acreditar. E acreditar dessa forma já não é ter apenas esperança. Acreditar deixa de ser uma atitude passiva. É assumir, e não transferir a responsabilidade - é crer na possibilidade de transformação.
E já que lembrei o Cazuza : “Nossa piscina está cheia de ratos, nossas ideias não correspondem aos fatos, o tempo não para ...”. E o tempo não parou após os 90 minutos dessa terça feira, 08 de julho de 2014.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Minhas memórias das copas do mundo



                                                                  Jorge Elias Neto

Posso me dizer um veterano. São doze copas do mundo ... Posso me dizer, com tranqüilidade, médico, louco e técnico. Afinal, sou brasileiro, onde o pão e circo se equipara à Roma dos Césares.
Não me lembro da copa de 66, tinha então 2 anos ... Mas da copa de 70, apesar de não lembrar dos jogos – os quais acabei decorando, tantas vezes que assisti os vídeos ao longos dos anos (acabei guardando um selo histórico com a ilustração do soco no ar do divino Pelé ...) – lembro-me bem de sair com meu pai, jogo à jogo, na Avenida Jerônimo Monteiro e Avenida Beira-Mar ao som dos gritos e fogos. Alguém, por favor, me confirme se é delírio de criança, ou tiveram mesmo aquelas luzes no Penedo para receber o nosso Fontana ...
Fiquei abismado por saber dos “Noventa milhões em ação”. Já estava impressionado com os programas do Amaral Neto mostrando a Trans-Amazônica (e lembrar que meu irmão estava por lá com os irmãos Villas-Boas...). E dá-lhe “verde, amarelo, branco e azul anil. Eu te amo, meu Brasil, eu te amo...” E dá-lhe ditadura militar das aulas de Moral e Cívica no Colégio do Carmo ...
Veio 74 e o carrossel holandês... O Cruif e irmãos Vanderkerkhoff ... Mas o que me marcou foi a comemoração de um gol do Brasil. Dei um soco no ar e quebrei o lustre de cristal de minha mãe, corri e me joguei de joelho na sala (apenas me esqueci do tapete sintético que me causou queimaduras nas canelas) e, finalmente, peguei minha bandeira verde e amarela, corri para janela e desfraldei nossa flâmula para gritar um gol extasiado ... Olhei para baixo e só vi foi o vizinho do oitavo andar acender o pavio do fogo de artifício ... Tirei a cara, ouvi o estrondo e sentei arrepiado de medo na poltrona da sala. Passei a ser mais comedido em minhas comemorações.
E chega 78 dos irmanos ... Fiquei com aquele jogo do Peru entalado na garganta. Vai entender o que se passou com o orgulho dos herdeiros do império Inca ... Acabei de lembrar que ainda não conheço Matchu- Pichu... Uma lástima.
As copas de 82 e 86 me pegaram de calça curta. Encontrava-me no auge do fanatismo pelo futebol. Confiante com o excesso de craques ... Tínhamos uma grande seleção. Todo jogo nos reuníamos no Argentino com uma batucada de dar gosto – isso foi em 82. Já em 86, contavamos com a compreensão do Pirão que deixava aqueles jovens universitários beberem todas e batucar na frente do seu restaurante (e ele nem imaginava que, naquela época, nenhum de nós tinha grana para pagar por sua excepcional muqueca ...). Mas aquelas copas acabaram sendo duas grandes decepções...

As outras copas ... Das outras copas tratarei depois ... Isso é óbvio, se alguém está interessado em saber das memórias de um cronista entre quase 200 milhões de fanáticos torcedores ...

quinta-feira, 22 de maio de 2014

CRÔNICA

Os cachos dourados das borboletas

                                       Jorge Elias Neto


Como é curto o tempo da inocência.
 E ficará cada vez mais difícil sermos surpreendidos por uma criança em um momento de lampejo poético, algo apenas possível aos que começam a descobrir a linguagem. São tantas informações e imagens da mídia, que cada vez mais precocemente o vocabulário da criança é enriquecido, e isso ocorre na mesma velocidade em que se embota a espontaneidade – a inocência.
Subitamente uma criança diz algo, um simples comentário, tão inusitado e simples. Mas são esses os pequenos cristais capazes de revestir nossos dias com um pouco da beleza do infinito.
E não adianta pedir que a criança repita, filme com o celular e coloque no Youtube ... Perde-se a espontaneidade, já não está mais ali a imagem que fulgurou naquele cérebro tão jovem. Não, não é possível capturar em um vídeo esses momentos, que só cabem no espaço destinado aos sentimentos que nos aproximam do divino – o espaço da poesia.
 Esse tipo de situação foi feita para ser passada como fizeram nossos avós:  de boca a boca mesmo.
 É como o que o filho de uma amiga lhe disse, após ela receber alta do CTI: “Mãe, que bom que você não morreu. Você é tão quentinha." Qual poeta, me arrisco a dizer talvez um Manuel Bandeira, poderia ser tão perfeito ao falar do amor de maneira tão singela?
Quando diz isso, a criança não está sendo espirituosa, não é um chiste. Ela está sendo autêntica e descreve uma experiência emocional. Isso é divinamente primitivo.
Foi o que aprendi com minha filha quando acordamos em uma manhã ensolarada de domingo. Ela acordou, coçou os olhinhos, olhou para a porta e disse: “A porta está amarela !” Uma porta, fenestras, claridade...Não foi isso o que viu aquela borboletinha de cachos dourados... Ela surpreendeu o dia com sua visão multifacetada.
 A criança sabe olhar com a imaginação; vislumbra o voo sob o Sol da manhã.
E, quando chegou a noite, ela recostou-se em mim e sussurrou manhosa: “ Pai, meus olhos estão encharcados de sono ...”.


sábado, 18 de janeiro de 2014

JOVINO MACHADO

a vida não presta
quando eu adoro
e você detesta

*************

a vida é uma bosta
quando eu amo
e você não gosta

*************

a vida é vazia
eu vício
você vadia

*************

a vida é neblina
eu enlouqueço
você sublima

*************

a vida é enfadonha
você fuma maconha
eu como pamonha

*************

a vida é careta
você pula do acaiaca
eu bebo no maletta

*************

a vida não presta
quando eu subo bahia
e você desce floresta

*************

a vida é inimiga
quando eu te odeio

e você nem liga


Jovino Machado (Belo Horizonte/MG). Formado em Letras (UFMG). Atua como restaurateur. Publicou 10 livros, entre eles Trint´anos Proustianos (Mazza Edições, 1995), Disco (Orobó Edições, 1998), Samba (Orobó Edições, 1999), Balacobaco (Orobó Edições, 2002) e Fratura Exposta (Anomelivros, 2005). Recentemente, 2009, também publicou a plaquete poética Meu Bar Meu Lar. Próximo lançamento: Cor de Cadáver (Anomelivros, 2009). Participações em Dimensão (Revista Internacional de Poesia, Uberaba, MG, 1998), A Poesia Mineira no Século XX (Imago, Rio de Janeiro, 1999), A Cigarra-Revista de Poesia (Santo André, SP, 2000), O Melhor da Poesia Brasileira – Minas Gerais (Joinville, SC, 2002), antologia poética O Achamento de Portugal (Fundação Camões, Lisboa, Portugal e Anomelivros, 2005), Suplemento Literário de Minas Gerais (2007) e Rascunho (2008). Menção honrosa na revista literária da UFMG (1991) e terceiro prêmio de Poesia Falada de Campos dos Goytacazes (RJ, 2002). E-mail: jovinomachado@yahoo.com.br  Blog: http://jojomachado.zip.net  

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Oscar Gama Filho - A Hora do Amor


A Hora do Amor

                                          "a Jorge Elias, em sua posse"

O amor não tem hora.
Bate descompassado
e ao sabor dos contratempos.

O amor não tem hora.
Marque com ele
e ele antes irá embora.

O amor tudo aceita:
Até marcar um encontro.
Você irá na hora

mas ele não estará no ponto:
É que ele se come sangrando
e não ao ponto.

Praia de Itaparica, 26 de outubro de 2013




segunda-feira, 21 de outubro de 2013

SONHOS - Luiz Guilherme Santos Neves


                                                         Luiz Guilherme Santos Neves
        
- Sonhos são rios. Eu me afogo neles - ela disse, enquanto a tarde morria num mar de cobre.

         - Eu não sonho - disse ele. – Sou seco de sonhos.

         - Impossível! Você deve sonhar e não lembrar quando acorda. Até os animais sonham – replicou ela. - Eu tive uma cadelinha que gania quando sonhava. Chegava a dar pena ver a bichinha dormindo e sofrendo. Mas nem assim eu tinha coragem de acordá-la. 
        
         Ele pareceu não a ter ouvido, o olhar perdido no mar que entardecia. Estavam no deck de um restaurante, diante do oceano incrível e cúpreo, ela bebendo um refrigerante que puxava da garrafa por um canudinho, ele saboreando uma cerveja gelada em goles espaçados. 

         - Meus sonhos costumam ser estranhos – continuou ela. – Uma vez sonhei que eu não fui reconhecida por minha mãe.    
                  
         - Era mesmo sua mãe quem não a reconheceu? – perguntou ele.

         - Era. Eu me aproximei dela e disse ‘mãe’! Ela me olhou com um jeito estranho e fuzilou: ‘você não é a minha filha’. Ainda me lembro das suas palavras, secas e cortantes. Ela não disse que não tinha filha, nem que não estava me reconhecendo. Foi categórica. Me olhou e disse: ‘você não é a minha filha”.  Portanto, ela sabia que tinha uma filha, mas que esta filha não era eu, muito embora eu soubesse que ela era a minha mãe. Acordei chorando e repetindo, mãe, sou sua filha, sou sua filha! Foi assim que descobri que os  sonhos são rios em que a gente se afoga.

         - Já ouvi dizer que são nuvens... – disse ele, embocando outro gole de cerveja.

         Ela agora pareceu não ter ouvido.  Mas depois de alguns instantes, confirmou sua teimosia: - Para mim são rios. A gente fica muitas vezes com o corpo molhado, quando sonha. Comigo já aconteceu acordar com a pele úmida. Uma nuvem não faz isso. Os rios fazem!

          - Os sonhos bons também são rios? – perguntou ele.

         - Também. Eles causam uma sensação de prazer, e não de dor como os maus, mas quando a gente acorda, eles se foram como as águas de um rio que não podem ser retidas, nem retornadas, deixando apenas lembranças. 
          
         - Mas são lembranças boas, não é? – indagou ele com espuma de cerveja branqueando os fios do bigode.

         - São lembranças líquidas, entende o que eu tento dizer? Porque é assim que eu as sinto.

         - E os sonâmbulos, você acha que eles sonham que navegam enquanto andam?

         - Com os sonâmbulos eu acho que é diferente... Se eles sonham e andam, eles tornam seus sonhos possíveis, mecanicamente possíveis, ainda que momentâneos. Com eles os sonhos se processam fisicamente, pelo menos é o que eu penso. Então, para mim, os sonâmbulos são os próprios rios... Os rios dos sonhos deles, o que não é a mesma coisa que sonhar deitado, com o sonho-rio invadindo a nossa mente, como acontece com toda gente... menos com você, é claro.  Eu sei que é complicado explicar, mas ainda assim, no caso dos sonâmbulos, os sonhos continuam sendo rios, da forma como eu vejo a coisa, você me entende...?

          - Não é fácil entendê-la apesar do esforço da explicação. Lembre-se de que eu não sonho... A minha experiência em matéria de sonhos é uma lacuna triste – disse ele, pedindo outra cerveja ao garçom.

         - Então vamos supor – disse ela, querendo levá-lo à compreensão do que estava expondo. - Vamos supor que o que está se passando aqui, entre nós dois, fosse apenas um sonho, um sonho seu, ou nosso... Por favor, não ria.

- Sabemos que não é sonho... – disse ele, rindo. – Estamos aqui terminando o nosso encontro num restaurante, há umas poucas pessoas concretamente à nossa volta, a minha cerveja acabou e eu pedi outra, o seu canudinho já está dobrado dentro da garrafa, esta mesa em que estamos é dura e sólida – e bateu no tampo de madeira com o fundo do copo para confirmar suas palavras. – Ouça: dura como a realidade...
        
         - E o mar? Você não mencionou o mar... – ela desdenhou desafiadora.

         - Então ponha também o mar neste cenário...

         - No entanto, se você observar com atenção vai ver que o mar visto daqui onde nós estamos, neste apagar de tarde, parece absurdamente irreal, imobilizado e plano em sua cor afogueada... Não lhe parece esquisito?
        
         - Este pormenor tem para você algum sentido onírico? – ironizou ele.

- É apenas um acréscimo em favor da proposta que eu lhe fiz. Deixe de lado o seu espírito lógico, que o impede de sonhar, e admita, por um momento, um momento mínimo, que a realidade em que nós estamos não exista. Faça um esforço, um grande esforço, meu amigo. Feche os olhos se quiser e me responda: se você acordasse deste sonho imaginário o que você acha que teria ficado da realidade que nos envolve e que também somos eu e você?
         - A sensação de um rio que passou? – perguntou ele, sabendo que era a resposta que ela desejava ouvir.

         - Exatamente. A sensação de um rio que passou. A abstrata matéria dos sonhos ou a “imatéria” deles – disse ela convicta das suas metafísicas. – Nós, que aqui estamos, é como se fizéssemos parte das águas de um rio, o rio dos sonhos! Nada mais do que isto, percebe o que quero dizer?    

         Ele disse que sim para não a contrariar. E em silêncio ficaram contemplando o mar, em sua planura metálica, engolir a tarde numa bocada derradeira.
        




terça-feira, 15 de outubro de 2013

CONVITE


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

FOTO - BPES - AUTORES CAPIXABAS


Reunião da Biblioteca Pública do Espirito Santo.
Da esquerda para direita: Jorge Elias Neto, Marcos Tavares (poeta e cronista), José Augusto Carvalho (linguista e cronista), Oscar Gama Filho (poeta), Reinaldo Santos Neves (Romancista), Pedro Nunes (contista, romancista e historiador) e Fernando Achiamé (historiador e poeta).

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A MÁQUINA DO MUNDO - TRADUÇÃO DE PEDRO SEVYLLA


La Máquina del Mundo

                                   Poema de Carlos Drummond de Andrade
Traducción de Pedro Sevylla de Juana


Y como mis pies palparan suavemente
una carretera de Minas, empedrada,
y en la aldaba de la tarde una campana ronca

se mezclara con el murmullo de mis zapatos,
pausado y áspero; y aves flotasen
en el cielo de plomo, y sus formas negras

lentamente se fueran diluyendo
en la crecida oscuridad, bajada de los montes
y de mi propio interior decepcionado,

la máquina del mundo se entreabrió
para quien de romperla ya se arrepentía
y solo por haberlo imaginado lagrimaba.

Arrancó suntuosa y reservada,
sin emitir un sonido considerado impuro
ni un resplandor mayor que el soportable

por las pupilas gastadas en la observación
constante y dolorosa del desierto,
y por la mente rendida al registrar

toda una realidad que excede
su  propia imagen esbozada
en el rostro del misterio, en los abismos.

Se abrió en inocente quietud, e invitando
a cuantos sentidos y presentimientos conservaba
quien de haberlos usado ya los perdiera

y no deseara recobrarlos,
si en vano y eternamente repetimos
los mismos periplos tristemente desorientados,

invitándolos a todos, en tropel,
a habituarse a los desconocidos nutrientes
de la naturaleza mítica de las cosas,

así me dijo, empero, cierta voz
 hálito, eco o simple sacudida
atestiguando que alguien, sobre la montaña,

a otro alguien, noctívago y desventurado,
en conversa se estaba dirigiendo:
“Lo que indagaste en ti o fuera de

tu pequeñez y nunca se mostró,
incluso aparentando darse o rindiéndose,
y encogiéndose más a cada instante,

mira, observa, reconoce: esa abundancia
excedente en toda perla, esa ciencia
sublime y tremenda, pero impenetrable,

esa exégesis integral de la vida,
ese vínculo inicial y único,
que no llegas a interpretar, pues tan arisco

se reveló ante la vehemente investigación
en que te desgastaste... percibe, considera,
abre tu pecho para hospedarlo.”

Los más soberbios puentes y edificios,
lo que en los talleres se da forma,
lo que discurrido fue y, seguidamente, alcanza

distancia superior al pensamiento,
los recursos de la tierra sometidos,
y las pasiones y los impulsos y los suplicios

y todo lo que explica al ser terreno
o se prolonga hasta en los animales
y llega a las plantas para filtrarse

en el sueño resentido de los minerales,
rota al mundo y vuelve a abismarse
en la insólita disposición geométrica de todo,

y el absurdo primigenio y sus enigmas,
sus verdades más altas que tantos
monumentos erigidos a la verdad;

y la gloria de los dioses, y el imponente
sentimiento de muerte, que florece
en el mástil de la existencia más gloriosa,

todo se manifestó en ese destello
y me reclamó para su reino soberano,
sometido por último a la visión humana.

Pero, como yo me resistiera a responder
a solicitud tan prodigiosa,
pues la fe se adormecía igual que el ansia,

la esperanza más exigua — esa aspiración
de ver desvanecida la densa obscuridad
que entre los rayos del sol aún se filtra;

como olvidados credos requeridos
pronto y vibrantes no se dispusieran
a colorear de nuevo la cara neutra

que voy por los caminos mostrando,
y como si otro ser, distinto de aquel
habitante de mí hace tantos años,

pasara a dirigir mi voluntad
que, ya de por sí inestable, se cerraba
semejante a esas flores indecisas

en sí mismas abiertas y cerradas;
como si un don tardío ya no fuera
deseable, antes bien desdeñando,

bajé los ojos, negligente, distendido,
rehusando aceptar la cosa ofrecida
que se abría gratuita a mi intelecto.

La sombra más tupida ya descansara
sobre la carretera de Minas, empedrada,
y la máquina del mundo, rebatida,

poco a poco se fue recomponiendo,
mientras yo, valorando lo perdido,
permanecía indolente, mano sobre mano.

PSdeJ  El Escorial 15Agosto2013


Pedro Sevylla de Juana nasceu em plena agricultura, lá onde se juntam La Tierra de Campos e El Cerrato, Valdepero, província de Palencia, em Espanha; e a economia dos recursos à espera de tempos piores ajustou o seu comportamento. Com a intenção de entender os mistérios da existência, aprendeu a ler aos três anos. Para explicar as suas razões, aos doze se iniciou na escrita. cumpriu já os sessenta e sete, e transita a etapa de maior liberdade e ousadia; obrigam-lhe muito poucas responsabilidades e sujeita temores e esperanças. Viveu em Palencia, Valladolid, Barcelona e Madrid; passando temporadas em Genebra, Estoril, Tanger, Paris e Amsterdã. Publicitário, conferencista, tradutor, articulista, poeta, ensaísta, crítico e narrador; publicou vinte e dois livros e colabora com diversas revistas da Europa e América, tanto em língua espanhola como portuguesa. Trabalhos seus integram seis antologias internacionais. Reside em El Escorial, dedicado por inteiro às suas paixões mais arraigadas: viver, ler e escrever. www.sevylla.com

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Calmaria



Mal desperta a manhã
e a parelha de olhos
se derrama pela névoa

Persiste nos corpos
a ardência que o tempo
aos poucos cobre

com o velame da brisa.


Jorge ELias Neto

quarta-feira, 26 de junho de 2013

ODE À BANDEIRA - Nessa primavera nos trópicos

                                      Foto: Rodrigo Guidotti

Ode à bandeira

                                                                    Para Jorge Tufic
                                              
                                                 Verde, amarelo, azul
                                                                                 e branco


Nosso foco míope,
nesta primavera escarlate
   ‒ com suas horas retintas ‒ ,
ignora a aurora,
despreza a lona do circo austral
de estrelas
impregnando o azul da Nação
com                     a face
perdida na orgia.

E, essa,
desfigurada,
revisita seus mortos,
homens,
pássaros,
plumagens,
                  poesia desgastada.
E estendida a flâmula
sobre o bastião da América
ensaia o remendo
do pavilhão desfeito.

Há de combinar auroras,
madrigais
sob parcas velas,
Sol a pino
de soberbas musas,
o azul do estio
agreste,
pinceladas anis
de Portinari,
festivas bandeirolas de Volpi,
flores de Bracher
e o olhar fulminante
dos santos de Solha.
Há de buscar o irrealizado,
e cobrir a poalha
estendida sobre a consciência.

Há de desfazer
o irremediável
suspiro das águas
baças de espuma,
cravejadas de plásticos
que refringem o sol
e sufocam os peixes.
Há de refazer a sinuosidade
secular dos rios,
que ardem sufocados
pelas mantas de concretos.
Fazer brotar as piracemas,
de escamas furtacor,
a gargalhar inocência.
Há de curar a mágoa
de Iracema –
distribuir oferendas
de contas nos remansos
a se transmutar
em coachar noturno.

Há de dourar
as negras coxas
com grilhões
de justiça,
desnortear o rumo dos
igarapés
no descaminho
das borboletas amarelas.
Há de escorrer
ouro das falésias
no Atlântico            sem fim.

Há de distribuir
o santo daime
na celebração das ocas,
polvilhar o verde
nas loucas esquinas
da miséria.
Preencher a atmosfera
com paragens bucólicas
onde o carvão
se regenere em matas
e os germes
pereçam sob a guarda
das harpias.

Há de perder-se
na remora  
das paisagens
e sentir-se
             terra.


 Jorge Elias Neto



Domingos Martins, 25 de janeiro de 2013

sábado, 15 de junho de 2013

Um poema para Ariano Suassuna



                                                                                Jorge Elias Neto
Suassuna


Lábios nordestinos
         secos
na aridez das certezas
e um perdão
fluido
e um senão
compadecido
e um cão
com plumas
e um sertão
na oralidade
das mãos
na tempestuosidade
do gênio
no dilúvio
da gota serena
na inquietude
demiúrgica das ideias
e um bordão
repisado
oitenta tempos
         chão
de um cordel
encarnado.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Náufrago - Oscar Gama Filho e Miguel Marvilla


Notas

A palavra-fio, tecida no texto, enfim respira na pausa do espaço-forma em que letras são tintas; versos, pinturas; estrofes, mosaicos-iluminuras do que dura, pura púrpura que o belo intitula

SERIAL IDEOGRÁFICO CONCRETO-PROCESSO
“O NÁUFRAGO”
(Parceria de Oscar Gama Filho e Miguel Marvilla)




O NÁUFRAGO         
.


O NÁUFRAGO NASCE (ou o náufrago e a metafísica)

:



O NÁUFRAGO E O TUBARÃO

^

O NÁUFRAGO ENCONTRA O AMOR

;


O NÁUFRAGO CONSTITUI FAMÍLIA

...


O NÁUFRAGO EXPLICA AO FILHO

*


O FILHO DO NÁUFRAGO SEGUE SEU EXEMPLO

.

"


O NÁUFRAGO SE DESILUDE

=


O NÁUFRAGO PROCURA OUTROS OBJETIVOS

+


O NÁUFRAGO CHEGA À MEIA-IDADE

?


O NÁUFRAGO MORRE

?!



Oscar Gama Filho, Congregação do Desencontro. Vitória, Fundação Cultural do Espírito Santo, 1980, p.   44-7.